Este ensaio analisa a complexa e volátil situação geopolítica no Médio Oriente , focando-se na escalada do conflito envolvendo Irão, Israel e Estados Unidos, à luz da informação contemporânea e das perspectivas de 2026. A análise será estruturada em sete pontos chave, integrando as observações sobre a guerra de narrativas, as implicações estratégicas e os impactos económicos e geopolíticos mais amplos.
a) A Confusão Reinante, a Informação Contraditória e a Desinformação
A situação atual no Médio Oriente é marcada por um profundo apagão informativo e por uma autêntica guerra de narrativas, na qual a desinformação funciona como instrumento estratégico. A confusão que envolve o conflito não é acidental; resulta, em grande medida, do próprio modo como a informação é produzida e difundida.
Ao contrário da guerra na Ucrânia, que durante muito tempo se apresentou numa narrativa relativamente linear de agressor e agredido, o cenário em torno do Irão aproxima-se mais de um pré-conflito ou de um conflito de perceções. As linhas de confronto são difusas, a ambiguidade é deliberada e a lógica dominante continua a ser a dissuasão, mais do que o choque direto de forças convencionais no terreno.
Ninguém conhece o poderio militar real do Irão porque a respetiva estratégia não consiste em vencer uma guerra convencional, mas sim em criar um “sistema de negação” (drones, mísseis, ataques a aliados, fecho do Estreito de Ormuz). Os EUA e Israel, por sua vez, vivem o dilema do “paradoxo da capacidade”: podem destruir tudo o que veem, mas não sabem se isso resolve o problema ou se mergulha a região num caos maior.
Portanto, a informação não é confusa por acaso; ela é confusa por natureza. O que está em jogo não é um campo de batalha, mas um jogo de póquer onde todos fazem ‘bluff’ e ninguém mostra totalmente as cartas.
A desinformação assume diversas formas: imagens recicladas de tragédias passadas, fabricações geradas por inteligência artificial (IA) de cenários de destruição, e a “falsificação psicológica” perpetrada por atores estatais e hacktivistas. Vídeos falsos de ataques aéreos sobre Dubai, imagens de IA de navios de guerra americanos afundados, e outros conteúdos manipulados, acumulam milhões de visualizações, alimentando a confusão e o pânico. Plataformas como o X (anteriormente Twitter) tornaram-se vetores para a disseminação de conteúdo enganoso, levando inclusive à suspensão de programas de monetização para criadores que publicam vídeos de conflitos armados gerados por IA.
Mesmo mecanismos de verificação como a busca reversa do Google foram comprometidos por resumos gerados por IA baseados em materiais visuais enganosos, revelando uma fragilidade significativa na capacidade de verificar a autenticidade das imagens em larga escala. Esta “névoa da guerra” transforma-se rapidamente num “atoleiro da guerra”, onde a distinção entre facto e ficção se desvanece, tornando a determinação da verdade uma tarefa hercúlea. A polarização extrema do conflito alimenta o discurso de ódio e a incitação à violência, com redes de bots amplificando o caos para manipular o humor e a perceção pública.

b) A Diferença dos Teatros de Guerra: Irão vs. Ucrânia
A experiência de analisar o conflito ucraniano e o conflito no Médio Oriente revela diferenças fundamentais nos seus “teatros de guerra”. Enquanto a Ucrânia apresentava uma geografia clara e um princípio de direito internacional inequívoco (invasão de um Estado soberano, sem embargo da complexidade das causas que levaram a uma tal situação e do posicionamento dos diferentes players), o Irão representa uma dinâmica muito mais difusa. A guerra na Ucrânia era, fundamentalmente, sobre uma questão ontológica: a sobrevivência de um Estado-nação na Europa, com clivagens morais mais evidentes.
O Irão, por outro lado, concentra-se na sobrevivência de um regime e na reconfiguração de todo o Médio Oriente. Envolve um regime teocrático que reprime internamente e apoia proxies regionais (Hamas, Hezbollah, houthis) contra potências como EUA e Israel, que justificam ataques preventivos com base em hipotéticos cenários futuros (arma nuclear). A estratégia iraniana não visa uma vitória convencional, mas sim a criação de um “sistema de negação” através de drones, mísseis, ataques a aliados e o controlo do Estreito de Ormuz. Esta abordagem, que alguns especialistas comparam à “guerra híbrida” russa na Ucrânia, utiliza táticas não convencionais e indiretas, como sabotagem de petroleiros e ataques cibernéticos, mascarando as suas operações com propaganda.
A “guerra híbrida” e a estratégia de descentralização do comando iraniano, que permite aos comandantes subordinados agir autonomamente mesmo sem ordens superiores, dificultam a compreensão e a neutralização por parte dos adversários. Essa complexidade torna a análise do conflito no Médio Oriente particularmente desafiadora, pois não há “xerifes” óbvios, apenas atores com interesses multifacetados e frequentemente contraditórios.

c) Uma Guerra Instigada por Israel que os EUA prosseguem como se fosse sua
A percepção de que a atual escalada foi instigada por Israel, com os EUA a serem arrastados para a contenda, é uma narrativa em debate. Declarar que Israel “forçou” os EUA a entrar em guerra é uma afirmação que Marco Rubio, Secretário de Estado, articulou, sugerindo que os EUA agiram preventivamente ao lado de Israel para evitar ataques iranianos massivos contra forças americanas na região. Esta justificação aponta para uma estratégia de defesa mútua, onde a ação israelita seria inevitável, e a intervenção americana uma forma de mitigar as retaliações iranianas.
Desde o “Dia D”, 28 de fevereiro de 2026, Israel e os EUA lançaram ataques significativos contra alvos militares e nucleares no Irão, resultando na morte do líder supremo iraniano Ali Khamenei. A inteligência israelita demonstrou capacidade de infiltração profunda nas estruturas iranianas, com ataques direcionados às defesas antiaéreas, à Guarda Revolucionária e a líderes do regime. Para os EUA, o objetivo declarado é impedir que o Irão obtenha uma arma nuclear e “defender o povo americano eliminando ameaças iminentes”, mas existe um cálculo geopolítico mais amplo: conter a China, principal rival estratégico, ao enfraquecer o Irão, que fornece uma parte significativa de seu petróleo.
A crítica implacável a esta dinâmica é que as elites em Washington seriam “reféns da agenda de Telavive”, utilizando a maior potência mundial para objetivos que nem sempre se alinham diretamente com os interesses americanos. Este cenário sublinha a complexidade das alianças e a possibilidade de que o objetivo de Israel de segurança, e o objetivo dos EUA de hegemonia regional, se entrelacem de formas que podem levar a uma escalada não planeada.
Para o conhecido professor da Universidade de Colúmbia e conselheiro económico de diversos governos, Jeffrey Sachs, os Estados Unidos, neste conflito, não são mais que uma mera ‘marionete’ (puppett), nas mãos de Netanyahu, de Israel e do lóbi judaico. Ora, interrogamo-nos legitimamente: qual é o verdadeiro peso que um pequeno país como Israel tem na geopolítica de uma superpotência como os EUA? Especulativamente, podemos ir até bem mais longe, que meios de chantagem (porque podem existir, mas são, por ora, desconhecidos) pode Israel exercer sobre a administração Trump? As perguntas ficam em suspenso.

d) O Alastramento do Conflito para uma base regional: Israel e EUA em Vias de Ganhar? Vitória Pirrónica? Resiliência Iraniana?
O conflito rapidamente alastrou para uma base regional, atingindo Líbano, Iraque, Kuwait e Emirados Árabes Unidos com mísseis e drones iranianos. O Irão também bombardeou bases militares norte-americanas no Bahrein, Kuwait e Emirados Árabes Unidos. A intensificação inclui o Hezbollah no Líbano e ataques israelitas contra a infraestrutura militar iraniana, e o encerramento do Estreito de Ormuz, por onde passa 1/5 do petróleo mundial.
A afirmação de Donald Trump de que “praticamente tudo foi destruído no Irão” e que a ofensiva militar está “a ter êxito” contrasta com a análise de especialistas que apontam para a surpreendente capacidade de resistência do Irão. A descentralização do comando militar e o reforço com material chinês e russo desde a “Guerra dos 12 Dias” de 2025 terão contribuído para a resiliência iraniana, mas o esforço de guerra é essencialmente doméstico. O Irão visa desgastar a defesa aérea e atacar bases americanas para expulsá-los do Golfo.
Resiliência Iraniana: O Irão tem demonstrado uma notável capacidade de “suportar para absorver o primeiro, o segundo e o terceiro choques e, então, continuar a resistir”. O regime foi moldado para sobreviver a ataques externos desde a Revolução de 1979, com um sistema político-religioso e uma organização estatal resilientes. O país possui um vasto arsenal de mísseis hipersónicos, que, segundo algumas fontes, não podem ser anulados pela tecnologia existente, e a sua infraestrutura militar está profundamente enterrada. A “guerra dos 12 dias” em 2025 já havia revelado a capacidade iraniana de infligir custos significativos aos seus adversários, como o alegado furo na “Cúpula de Ferro” israelita.
A morte de Ali Khamenei pode, paradoxalmente, levar a um endurecimento do posicionamento externo do Irão sob a liderança da Guarda Revolucionária. Portanto, a ideia de uma vitória rápida ou decisiva para Israel e para os EUA é questionável. Mesmo que haja danos significativos na infraestrutura iraniana, a degradação de capacidades não se traduz automaticamente numa derrota estratégica.
Possibilidade de uma “Vitória Pirrónica”: A perceção de vitória é complexa. O Irão sofreu danos, mas manteve a sua capacidade de retaliação e de perturbação. Os EUA demonstraram superioridade militar, mas enfrentam agora um Médio Oriente mais volátil e o risco de um conflito prolongado que pode arrastá-los para um “atoleiro”. Um analista israelita, Shimon Oliveira, chegou a afirmar que “Os EUA e Israel já perderam esta guerra”, e que “os EUA nunca mais voltarão ao Médio Oriente” no futuro. O professor ‘profeta’ Jiang Xueqin previu em 2024 que Donald Trump seria eleito, que se iria envolver num conflito com o Irão e que iria perder. Por outras palavras, nesta perspetiva, sublinha hipoteticamente a possibilidade de uma vitória militar, mas que não se traduz em estabilidade ou nos objetivos geopolíticos desejados, tornando-a uma vitória pirrónica. O custo humano e económico, juntamente com a reconfiguração de alianças e o endurecimento do regime iraniano, sugerem que um “ganho” militar pode vir com perdas estratégicas incalculáveis.
O regime iraniano continua a ser um ator forte na região, capaz de influenciar e atingir os fluxos de comércio e logística das monarquias do Golfo, que se encontram numa posição cada vez mais difícil entre o apoio aos EUA e o medo da retaliação iraniana e de uma possível Primavera Árabe.
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A segunda parte deste ensaio será publicada na quarta-feira, 11 de Março.
FRANCISCO HENRIQUES DA SILVA
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Francisco Henriques da Silva é licenciado em História, diplomata e autor. Foi Director-geral de Assuntos Multilaterais no MNE e embaixador na Guiné-Bissau, Costa do Marfim, Índia, México e Hungria
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.
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