Este é um golpe de relações públicas do qual a OpenAI dificilmente poderá recuperar.

Depois de o CEO da tecnológica, Sam Altman, ter anunciado um novo acordo com o Departamento de Defesa no início de Março (que reforça contratos já estabelecidos no ano passado) uma multidão de utilizadores outrora fiéis está a abandonar o ChatGPT.

Novos dados divulgados pelo TechCrunch mostram que as desinstalações da aplicação móvel ChatGPT dispararam 295% num só dia, de acordo com o fornecedor de inteligência de mercado Sensor Tower. Como observou o TechCrunch, este é um salto significativo em comparação com a taxa típica de desinstalação diária do chatbot de IA, de 9%, nos últimos 30 dias.

Muitos dos utilizadores parecem estar a migrar para o Claude, da Anthropic. Como o Contracultura já documentou, a Anthropic, ao contrário da OpenAI, recusou-se a fechar um acordo com o regime Trump para dar aos militares acesso irrestrito à sua tecnologia de IA. Em particular, a Anthropic exigiu que a sua IA não fosse utilizada em sistemas de armas autónomas ou na vigilância em massa de cidadãos americanos.

Mesmo que se tratasse apenas de uma demonstração de força por parte da Anthropic – há relatórios que sugerem que os militares norte-americanos usaram o Claude para ajudar a selecionar alvos para os ataques mortais com mísseis no Irão, que mataram o líder do país, Ali Khamenei, e centenas de civis -, o facto parece ter sido claramente relevante para os consumidores. Na sexta-feira, um dia depois de a Anthropic ter prometido que não faria um acordo com o Pentágono, as instalações do Claude aumentaram 37% em relação ao dia anterior e mais 51% no sábado.

Além de afastar os utilizadores existentes, o acordo da OpenAI com o Pentágono também parece ter afastado potenciais novos clientes. O seu crescimento de downloads tem caído nos últimos dias, entre 5 e 14%. Um dia antes da polémica relacionada com o acordo com o Departamento da Defesa, o crescimento em novos utilizadores do ChatGPT tinha sido de 13%.

A indignação com a decisão da OpenAI é inevitável nos círculos da IA. Uma das publicações mais votadas de sempre no subreddit r/ChatGPT, feita há poucos dias, pede aos utilizadores que mostrem os comprovativos de cancelamento das suas subscrições do ChatGPT. “Vocês estão a treinar uma máquina de guerra”, declarava o post. Os tutoriais com dicas sobre como transferir o histórico de conversas do ChatGPT para o Claude estão a ser publicados aos magotes. Altman tentou minimizar os danos com uma sessão de perguntas e respostas no X, apenas para ser bombardeado por mais utilizadores indignados – e, pior ainda, por perguntas incisivas para as quais não tinha uma resposta convincente.

Entretanto, o Claude disparou para o topo da App Store dos EUA no fim de semana, destronando o ChatGPT, que ocupa agora o segundo lugar. Dados citados pelo TechCrunch mostram que, pela primeira vez na história da aplicação, os downloads do Claude nos EUA ultrapassaram os do ChatGPT. Resta saber como a reacção negativa afectará a OpenAI a longo prazo, ou mesmo a corrida da IA ​​em geral, mas a opinião pública, para já, virou-se claramente contra a empresa.

Sam Altman também não tem ajudado nada às boas relações públicas da empresa que dirige. No mês passado, quando confrontado com acusações de que as tecnologias de IA consomem quantidades monumentais de energia, e que nesse sentido, considerando o seu output, são deveras ineficientes, o CEO da OpenAI disse isto:

“As pessoas falam sobre quanta energia é necessária para treinar um modelo de IA… Mas treinar um ser humano também exige muita energia. São necessários cerca de 20 anos de vida e toda a comida que ingere durante esse tempo para que se torne inteligente.”

 

 

A comparação é arrepiante e fala por si própria sobre a ideologia transhumanista que triunfa por estes dias em Silicon Valley.