A análise do impacto de um potencial encerramento do Estreito de Ormuz nos mercados de hidrocarbonetos revela uma dependência crítica das geografias afetadas e vulnerabilidades logísticas específicas para o gás natural liquefeito (GNL).
Análise Temporal e Projeção de Preços
A duração do bloqueio define a severidade da resposta do mercado:
1. Curto Prazo (4 a 5 Semanas): Um encerramento nesta janela não é considerado irreversível. Contudo, a situação exige paciência, com o diagnóstico do cenário não sendo por ora conclusivo.
2. Médio Prazo (Superior a 4/5 Semanas / 3 Meses): Um encerramento superior a 4 ou 5 semanas já teria um impacto significativo, especialmente porque 80% do tráfego de hidrocarbonetos que passa pelo estreito se destina à Ásia. Se o período se prolongar para 3 meses ou além deste, o cenário agrava-se consideravelmente.
o Impacto em Preços (Além das 4/5 Semanas): No cenário de prolongamento, o petróleo pode atingir faixas de preço entre $100 a $120 ou até $150. O gás natural pode registar uma subida de +50%.
🚨 Iran just closed the Strait of Hormuz to everyone except China.
Let that sink in.
The waterway that carries 20% of the world’s oil supply — gone. Controlled by Iran. Reserved for China.
Remember what we said about the petrodollar?This is it. This is the moment.
Gulf… pic.twitter.com/YW3EPihQUM
— Brian Allen (@allenanalysis) March 4, 2026
Vulnerabilidades Logísticas e Setoriais
A capacidade de resposta e mitigação é severamente limitada, especialmente para o gás.
Petróleo
Com o Estreito de Ormuz fechado, as refinarias encontrar-se-ão “secas” e dispostas a pagar qualquer valor. Embora se note que navios chineses possam, em tese, conseguir atravessar, a crise seria generalizada. Para os estados do Golfo, o cenário é crítico, pois não existem grandes opções logísticas alternativas viáveis. Um rota pelo Mar Vermelho com passagem pelo estreito de Bab-el-Mandeb, em zona de domínio houthi, é apontada como uma alternativa pouco realista.
A opção de escolta de petroleiros por navios de guerra norte-americanos, na sequência da promessa de Donald Trump, não pode ser considerada, pois os navios escolta são vulneráveis.
A escassez inicial de hidrocarbonetos poderia ser parcialmente reposta por um aumento de produção noutras latitudes durante um ano, mas a sustentabilidade desta solução a longo prazo é questionada (“E depois?” – tem, pois, de se pensar no ‘day after’)
Gás Natural (GNL)
A situação para o GNL é particularmente grave, dada a criticidade dos produtores no Golfo Pérsico (Qatar e Emirados Árabes Unidos) que não possuem substitutos imediatos.
Nesta matéria subsistem vários problemas:
• Risco de Transporte: Um petroleiro pode arriscar a passagem por Ormuz, mas um metaneiro é considerado demasiado arriscado. Se um metaneiro for atingido por um míssil, o efeito é a detonação e a destruição completa,. As companhias de seguro não oferecem cobertura para tal risco.
• Dependência Europeia: A União Europeia, que autolimitou o respetivo acesso ao gás russo, depende do gás do Golfo. A Índia depende em 50% e o Paquistão em 90% do gás proveniente desta região. Crucialmente, a UE não possui stocks de gás em depósito suficientes para absorver o défice energético.
Conclusões do Diagnóstico
O cenário analisado culmina em duas conclusões principais derivadas do contexto de tensão:
a) O isolamento absoluto do Irão implica uma resistência que, embora difícil, não pode ser prolongada por mais de quatro semanas.
b) Qualquer bloqueio com duração superior a quatro semanas resultará em um choque energético severo, sobretudo, para a Europa e para a Ásia.
FRANCISCO HENRIQUES DA SILVA
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Francisco Henriques da Silva é licenciado em História, diplomata e autor. Foi Director-geral de Assuntos Multilaterais no MNE e embaixador na Guiné-Bissau, Costa do Marfim, Índia, México e Hungria
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.
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