O confronto entre os Estados Unidos, Israel e o Irão não se decide numa batalha militar convencional. Trata-se, outrossim, de um conflito de natureza sistémica, no qual interagem dimensões militares, tecnológicas, energéticas e geopolíticas. A evolução da crise dependerá essencialmente de cinco fatores estratégicos.
1. Capacidade ofensiva conjunta dos EUA e de Israel
O primeiro elemento decisivo reside na capacidade ofensiva combinada de Washington e Telavive, sobretudo no domínio aéreo e tecnológico.
Os Estados Unidos dispõem da maior força aérea do mundo, com capacidade de projeção global através de porta-aviões, bombardeiros estratégicos, aviões furtivos e mísseis de cruzeiro. Israel, por seu lado, possui uma força aérea altamente sofisticada, com experiência operacional significativa no Médio Oriente e um forte domínio das operações de precisão.
Num cenário de confronto, esta combinação permite:
• ataques cirúrgicos contra infraestruturas nucleares e militares iranianas;
• destruição de bases de mísseis e centros de comando;
• operações de guerra eletrónica e ciberataques para paralisar sistemas de defesa.
Contudo, o Irão preparou-se durante décadas para resistir a este tipo de ofensiva, dispersando instalações militares, construindo complexos subterrâneos e apostando numa estratégia de negação e desgaste.
2. Capacidade defensiva dos EUA e aliados perante a resposta iraniana
O segundo fator crítico é a capacidade de defesa contra a inevitável retaliação iraniana.
Teerão dispõe de um vasto arsenal de mísseis balísticos, drones e forças ‘proxy’ distribuídas por toda a região. Num cenário de guerra aberta, esses meios foram e são utilizados para atacar:
• bases norte-americanas no Golfo Pérsico e no Médio Oriente;
• território israelita;
• infraestruturas energéticas em países aliados dos EUA.
Os Estados Unidos e os seus parceiros regionais possuem sistemas avançados de defesa antimíssil — como o Iron Dome israelita ou os sistemas Patriot e Aegis — mas a eficácia destes sistemas depende da capacidade de lidar com ataques massivos e simultâneos, particularmente com drones de baixo custo e mísseis de saturação.
Assim, o verdadeiro teste não será apenas tecnológico, mas também logístico e de resistência operacional.
3. A capacidade de Teerão em mobilizar aliados estratégicos
Um terceiro elemento fundamental é a dimensão geopolítica global do conflito.
O Irão tem procurado transformar uma guerra regional num problema estratégico mais amplo, tentando envolver ou pelo menos mobilizar o apoio político e económico de potências como:
• China, principal parceiro energético e comercial do Irão;
• Rússia, que partilha com Teerão uma convergência estratégica na contestação à influência ocidental.
Embora seja improvável uma intervenção militar direta destes países, o apoio poderá assumir várias formas:
• assistência tecnológica ou militar indireta;
• cooperação em inteligência;
• apoio diplomático em organismos internacionais;
• mitigação das sanções económicas.
Se este apoio se consolidar, o conflito deixará de ser apenas regional e passará a integrar a rivalidade sistémica entre o Ocidente e o eixo euro-asiático.
4. A questão energética
O quarto fator crítico prende-se com a segurança energética mundial.
O Irão controla, em grande medida, a capacidade de perturbar o tráfego marítimo no Estreito de Ormuz, por onde passa uma parte substancial do petróleo e do gás exportados pelo Golfo (20%).
Neste cenário de escalada militar, Teerão pode:
• bloquear ou ameaçar o estreito;
• atacar petroleiros;
• atingir infraestruturas energéticas de países vizinhos.
Uma interrupção significativa do fluxo energético traduz-se em consequências imediatas:
• subida abrupta dos preços do petróleo e do gás natural;
• perturbações nas cadeias de abastecimento globais;
• impacto direto nas economias europeias e asiáticas.
Por essa razão, a gestão do fator energético será determinante para a evolução política do conflito. Mais: o prolongamento da guerra para além das anunciadas 4 ou 5 semanas (fazendo fé no que disse Donald Trump), em que o impacto económico negativo é, em princípio, reversível, porém qualquer prolongamento para 3 ou mais meses, por exemplo, terá resultados devastadores e expectáveis na economia mundial de uma enorme magnitude.
5. A capacidade de mobilização interna do Irão
Por fim, existe um fator frequentemente subestimado: a capacidade de resistência da sociedade iraniana.
A história demonstra que, perante ameaças externas, os regimes políticos tendem a consolidar-se através de um efeito de mobilização nacional. Mesmo setores críticos do regime podem alinhar temporariamente em defesa do país.
O Irão possui ainda uma estrutura político-militar particular, baseada em dois pilares:
• as forças armadas regulares (artesh);
• a poderosa Guarda Revolucionária (pasdaran), com forte influência política, económica e militar.
Com os reservistas, o Irão dispõe de cerca de 1 milhão de efetivos militares ou paramilitares.
Esta arquitetura foi concebida precisamente para garantir a sobrevivência do regime em cenários de guerra prolongada.
Conclusão
Em síntese, o eventual confronto entre EUA, Israel e Irão não dependerá apenas da superioridade militar inicial, mas do equilíbrio entre ofensiva, defesa, alianças internacionais, estabilidade energética e resistência interna.
Por essa razão, muitos analistas consideram que uma guerra desta natureza dificilmente produzirá uma mudança rápida de regime. Pelo contrário, poderia reforçar a lógica de resistência nacional, contradizendo, assim, as teses avançadas pelos EUA e Israel.
De registar, que durante 30 ou 40 anos – este horizonte temporal é, de certo modo aleatório – Netanyahu acalentou a esperança de envolver os EUA numa ofensiva militar contra o Irão, tendo-o conseguido agora. O que nos leva a outras considerações e especulações a explorar oportunamente.
Em última análise, permanece uma constatação essencial: Não existe atualmente nenhum ator interno ou externo capaz de substituir de forma imediata o sistema político iraniano caso este entre em guerra aberta.
FRANCISCO HENRIQUES DA SILVA
____________
Francisco Henriques da Silva é licenciado em História, diplomata e autor. Foi Director-geral de Assuntos Multilaterais no MNE e embaixador na Guiné-Bissau, Costa do Marfim, Índia, México e Hungria
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.
Relacionados
17 Mai 26
Dono de Escravos
A Princesa Isabel libertou o povo das senzalas mas a República prendeu-o nas favelas. Então o brasileiro descobriu que podia ser empresário. E o governo escravizou os empresários. E os empresários escravizaram os empregados. A crónica de Walter Biancardine.
15 Mai 26
A Escola não Falha: Foi Projectada para Roubar os Filhos aos Pais
Os pais cristãos e conservadores não podem ser ingénuos. As escolas estão impregnadas de ideologia de género, relativismo moral, apagamento da cosmovisão cristã e uma visão colectivista que enfraquece a autoridade parental. A crónica de Maria Helena Costa.
13 Mai 26
Cavalgaduras, ou um lamento pelas criaturas que sofrem de défice cognitivo.
Quando alguém nos tenta ofender com um inadvertido elogio, o nosso dever ético é ambivalente: há que ser grato pelo cumprimento, mas rigoroso no diagnóstico.
13 Mai 26
Vozes Amordaçadas: O Artigo que o Sistema Censurou Mal foi Publicado
As sondagens mostram que a maioria da população rejeita a transição médica de menores quando confrontada com os riscos reais. Mas os media dão palco aos activistas ruidosos, enquanto silenciam vozes como a de Maria Helena Costa, que aqui republica um artigo censurado.
13 Mai 26
Serviços de inteligência dos EUA afirmam que Irão pode sobreviver ao bloqueio de Ormuz durante meses.
Uma análise confidencial da CIA, entregue aos decisores políticos governamentais na semana passada, concluiu que o Irão pode sobreviver ao bloqueio naval dos EUA durante pelo menos três a quatro meses antes de enfrentar dificuldades económicas mais severas.
12 Mai 26
Epstein Files e o Pizzagate.
Durante anos, a imprensa corporativa, arauto da mediocridade politicamente correcta, tratou o Pizzagate como o ápice da estupidez das massas e dos teóricos da conspiração. Mas os ficheiros Epstein revelaram que o Pizzagate é bem real. A denúncia de Marcos Paulo Candeloro.






