Neste monólogo com uma hora e quarenta e cinco minutos, dedicado à injustificada e injustificável guerra ao Irão, Tucker Carlson insiste numa narrativa que, sendo parcialmente verdadeira (e nessa parte, deveras verdadeira), tem um problema grande e berrante como um elefante cor de laranja num loja de cristais negros: tenta invariavelmente atribuir quase toda a responsabilidade do desastre em que os Estados Unidos agora se enfiaram ao regime Netanyahu e ao sionismo internacional, supra-influente em Washington.
Mas quem está sentado na Sala Oval não é Netanyahu e, que se saiba, nem sequer é judeu. E espoletou este desastre homicida, de enorme potencial suicida, sem qualquer plano de escape, sem qualquer estratégia (como Tucker reconhece), cegamente, obedientemente, como quem é refém de interesses mais altos, ou de baixos pecados. E é essa obediência de servo, e é essa condição de refém, que o jornalista não está, pelo menos por agora, disposto a dissecar.
O dedo de Tucker Carlson ainda não está a escarafunchar completamente na devida ferida. O que é uma pena. Para ele e para o povo americano, sob o qual tem grande influência mediática.
Não deixa porém de ser pertinente e importante e corajosa e dissidente a sua análise, que merece atenção e reflexão. Por exemplo, Tucker fala da intenção de Israel não só de destruir o Irão (Telavive nem precisa de um plano para a mudança de regime porque vê o vácuo de poder na Pérsia como um cenário ideal), mas também de desestabilizar os países árabes, sabendo o regime sionista, como sabia, que os iranianos responderiam ao ataque alvejando também estas nações, que considera cúmplices do processo que conduziu à presente circunstância e com as quais mantém rivalidades e ódios antigos.
Para Israel, o cenário de caos no Médio Oriente é positivo. Mas para mais ninguém, começando com a Europa, que vai sofrer novas vagas migratórias já a seguir e ser castigada com a crise energética que é consequente a esta guerra, como, se calhar, mais nenhuma região do planeta.
Basta imaginar que acontece no Irão o que aconteceu na Síria. Milhões de iranianos, sem qualquer ligação cultural, religiosa, linguística com os países de destino, na sua esmagadora maioria sem qualquer preparação para competir nos mercados de trabalho ocidentais, vão entrar pelo velho continente como refugiados, portanto, fácil e rapidamente.
E no contexto de uma Europa empobrecida e desindustrializada, energeticamente deficitária, etnicamente fragmentada e politicamente polarizada por efeito de anteriores vagas massivas de imigração e das políticas globalistas, autofágicas por natureza, este novo exôdo poderá muito bem ser o derradeiro golpe sobre uma civilização que vive já em agonia existencial.
Um outro ponto interessante que Tucker refere é este: se os EUA saírem desta guerra com o rabo entre as pernas e baixas difíceis de justificar politicamente, e depois dos desastres sucessivos no Iraque, no Afeganistão e na Líbia, é possível projectar que nas próximas décadas a federação desista de todo de interferir militar e politicamente no Médio Oriente, deixando Israel livre para cometer todo o tipo de barbaridades e crimes de guerra e limpezas étnicas na Palestina, no Líbano e onde melhor lhe aprouver.
O jornalista independente está também preocupado com as consequências internas do conflito externo. A federação é uma guerra civil à espera de acontecer já há uns largos anos (desde que Obama subiu ao poder, na verdade), mas o febril belicismo da Casa branca, a sua teimosia em manter a opacidade da operação do governo federal, agravada com uma clara queda para o ornamento falacioso e a desinformação grosseira, está apenas a contribuir para um aumento da tensão entre as massas e as elites, nos Estados Unidos. E se a guerra se prolongar, as coisas podem muito bem acabar como já noutras ocasiões históricas acabaram, quando a América faz a guerra por esse mundo fora, só para a perder no âmbito doméstico. E neste capítulo, os recados que dirige ao regime Trump, exigindo transparência e verdade ao governo federal em geral e à Casa Branca em particular, não podiam ser mais claros – e críticos.
Seja como for, a gravidade desta guerra é que não possibilita vislumbrar cenários que nos permitam encarar o futuro da região, e do mundo, com optimismo. Para além de satisfazer os objectivos determinados pelos poderes instituídos em Telavive, e a sede de sangue do ‘Regime Epstein’, por definição insaciável, o ataque ao Irão prejudica e castiga toda a gente, de Beijing a Lisboa, de Abu Dabi a Tóquio. Ninguém tem nada a ganhar com o conflito. Muito pelo contrário.
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