É opinião do ContraCultura que o vídeo que fecha este texto ensina, em eloquentes linhas gerais, tudo o que vale a pena aprender sobre a guerra que agora ocorre no Médio-Oriente.

Em 2024, o professor Jiang Xueqin, espécie de profeta dos tempos modernos, previu a eleição de Trump, previu que o magnata de Queens iria fazer a guerra ao Irão e previu que a América a ia perder. Nesta brilhante lição de geopolítica, publicada esta semana, ele fala das causas e origens da guerra, da estratégia do Irão, que é a de envolver os países da Península Arábica, procurando destruir a sua economia petrolífera e o seu acesso a água potável e alimentos (objectivo que, se bem sucedido, poderá desestabilizar a economia e os equilíbrios políticos de todo o planeta), e das fragilidades militares e programáticas do eixo EUA-Israel.

Aconselhamos assim e vivamente o consumo do monólogo do professor Xueqi, mas deixamos aqui a sua síntese, para apoio à consulta e referência futura.

 

Início do conflito (contexto imediato)

A guerra eclodiu com um ataque surpresa de decapitação na manhã de sábado, 28 de Fevereiro, (horário iraniano): EUA e Israel bombardearam a residência do líder supremo do Irão, o aiatolá Khamenei, de 86 anos, matando-o junto com familiares (filha, genro, netos) e outros líderes políticos e militares. Os atacantes alegaram inteligência precisa e confirmaram a morte através de espionagem. O Irão inicialmente negou o facto, mas depois admitiu-o, enquadrando-o como um martírio voluntário (especialmente porque o aiatolá tinha já 86 anos e lutava contra o cancro). Para a visão xiita, isto não é uma derrota, mas um sacrifício sagrado – o martírio – que motiva o povo a lutar até o fim contra o “Grande Satã” (EUA).
No mesmo dia, um ataque atingiu uma escola no sul do Irão, matando 150 meninas do ensino primário. As forças do eixo EUA/Israel disseram que se tratou de um erro, já que a escola ficava perto de uma base militar, mas os iranianos afirmaram tratar-se de um ataque intencional, que compagina com aquilo que as forças sionistas fizeram em Gaza, o que não deixa de ser um argumento válido.
Uma e outra ocorrências reforçaram o compromisso total da população iraniana em relação à guerra.

 

Perspectiva iraniana: jihad e martírio

O Irão é maioritariamente xiita (apenas 9% dos muçulmanos globais, historicamente perseguidos). No xiismo, o martírio e a jihad (luta/sacrifício pela fé e pela comunidade) são valores centrais. A morte do líder supremo não desmoraliza, pelo contrário, mobiliza o país inteiro para uma guerra religiosa total. Não se trata de resistência económica ou territorial comum, mas de vingança religiosa e de missão existencial contra os EUA e Israel.

 

Resposta iraniana inicial e alvos

O Irão atacou vários países do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC) – Dubai, Abu Dhabi, Bahrein, Qatar, Kuwait -, apesar destes terem declarado, com alguma desfaçatez, a neutralidade. Os ataques iranianos visam bases militares americanas/israelitas mas também infraestrutura destes países do Golfo. Dubai teve que fechar o seu aeroporto, um dos mais movimentados do mundo, enquanto residentes ocidentais pagaram até 250 mil dólares para fugir do país. O professor afirma que Dubai está agora “morto” como destino seguro para ocidentais a longo prazo.
O Bahrein é também um ponto crítico: com uma população 50% xiita, mas governada por um monarquia sunita, os ataques iranianos à 5ª Frota dos EUA podem desencadear revoltas internas xiitas, desestabilizando o país e, em cascata, a Arábia Saudita e toda a Península Arábica.

 

Estreito de Ormuz: o coração do conflito

O Estreito de Ormuz (com apenas 33 km de largura) é o gargalo da garrafa global: 20% do petróleo global passa por ali rumo à Ásia (Índia- 60%, China- 40%, Japão – 75% das importações). O Japão já alertou queo  fecho do Estreito causaria um colapso económico em 8–9 meses. Por outro lado, os países árabes do Golfo importam 80% dos alimentos que consomem pelo mesmo canal e dependem desse trânsito para as suas exportações petrolíferas.
O sistema do petrodólar (óleo negociado só em dólares) financia o império americano via mercados financeiros. Se o fluxo parar, o império dos EUA sofre um golpe existencial.
O Irão, entrincheirado na sua acidentada geografia e escondendo as plataformas de lançamento de mísseis no interior de cadeias montanhosas, pode atacar, a partir de uma posição privilegiada e quase impunemente, as bases dos EUA, os campos petrolíferos e as indústrias de dessalinização que fornecem 60% da água potável aos países do Golfo. E com drones baratos podem destruir infraestruturas preciosas e expostas nas planícies do deserto arábico.

 

Assimetria militar

O Irão produz cerca de 500 drones Shahed por dia (com um custo 35 a 50 mil dólares por unidade), possuindo um arsenal estimado em 80 mil unidades. Os EUA têm defesas caras (um Patriot custa cerca de um milhão de dólares). A eficiência económica do armamento assimétrico iraniano contrasta com a natureza dinossáurica e onerosa do equipamento americano. A doutrina militar dos EUA, resultante ainda da Guerra Fria (destruição mútua assegurada) está focada na intimidação, não na defesa contra enxames de drones baratos. E a profunda corrupção que grassa no complexo militar-industrial americano dá prioridade aos lucros, não à eficácia em combate.

 

Plano ocidental vs. iraniano

Enquanto o plano do Ocidente é uma mudança de regime e a fragmentação étnica do país dos aiatolás, que implica uma vitória militar total, a estratégia iraniana é a de castigar os países do golfo, atingindo as suas estruturas industriais ligadas à produção petrolífera e ao acesso a água potável, e combater uma guerra assimétrica de atrito, que nem precisa de vencer. Ao regime iraniano, basta sobreviver. Tanto mais que, se a guerra se arrastar, o Irão pode promover uma jihad global xiita, unificando o mundo muçulmano contra as monarquias sunitas impostas pelo Ocidente.

 

Riscos globais

Os EUA precisariam de meio milhão de tropas terrestres para cumprir os seus objectivos através de uma invasão do Irão. Na Europa, a crise energética pode empurrar países como a Alemanha, a França e o Reino Unido para a guerra. A Rússia e a China que tendem a apoiar o Irão como o ocidente apoia a Ucrânia, poderão envolver-se directamente se a guerra se transformar em extermínio étnico da população iraniana ou se, falhados os objectivos militares do eixo EUA-Israel, uma destas nações usar armas nucleares para resolver definitivamente o conflito.