A Military Religious Freedom Foundation (Fundação para a Liberdade Religiosa Militar) disse ter recebido inúmeras queixas sobre o discurso de cariz nacionalista cristão de comandantes americanos.

Aparentemente, oficiais de todos os ramos das Forças Armadas dos EUA disseram às suas unidades que Trump é “ungido por Jesus” e que a guerra contra o Irão vai trazer o seu regresso à Terra, como parte do “Armagedão”. A retórica resultou em inúmeras queixas de militares no activo.

 

 

A Fundação para a Liberdade Religiosa Militar (MRFF, na sigla em inglês), organização dedicada a garantir a liberdade religiosa a todos os membros das Forças Armadas dos EUA, informou que recebeu mais de 200 queixas semelhantes de militares do Exército, da Marinha, da Força Aérea, do Corpo de Fuzileiros Navais e até da Força Espacial.

As queixas recebidas pela MRFF, inicialmente divulgadas pelo jornalista Jonathan Larsen, vieram de mais de 40 unidades e abrangem pelo menos 30 instalações militares.

Segundo a MRFF, um comandante de uma unidade de combate disse aos sargentos, numa reunião na segunda-feira, que os ataques israelitas e norte-americanos ao Irão fazem parte do “plano” de Deus e que o presidente norte-americano, Donald Trump, foi “ungido por Jesus para acender a chama do Armagedão no Irão e assinalar o seu regresso à Terra”.

Um sargento norte-americano que escreveu à MRFF disse que o seu comandante lhe tinha afirmado que a guerra com o Irão fazia “parte do plano divino de Deus”. O comandante referiu-se repetidamente ao livro do Apocalipse da Bíblia e ao Armagedão, a história da batalha entre o bem e o mal, na qual Jesus triunfa e estabelece uma paz duradoura na Terra.

“Ele tinha um grande sorriso no rosto quando disse tudo isto, o que tornou a sua mensagem ainda mais insana”, escreveu o sargento na sua queixa, acrescentando:

“O nosso comandante seria provavelmente descrito como um defensor do ‘Cristianismo em Primeiro’. Ele tem sido assim há muito tempo e deixa claro que deseja que todos nós sob o seu comando nos tornemos como ele, cristãos.”

 

O nacionalismo cristão nas Forças Armadas dos EUA

Michael L. Weinstein, fundador da MRFF e veterano da Força Aérea dos EUA e da Casa Branca de Reagan, disse que a sua organização continua a ser inundada com queixas de militares americanos no activo que foram instruídos para se entusiasmarem com a guerra contra o Irão, uma vez que esta traria o “Armagedão” e o regresso de Jesus Cristo.

“Este não é apenas um comandante desonesto”, disse Weinstein, apontando para a crescente influência dos nacionalistas e fundamentalistas cristãos nas Forças Armadas dos EUA.

O Secretário da Guerra dos EUA, Pete Hegseth patrocina um estudo bíblico semanal que prega o apoio a Israel.

Como relata Larsen, enquanto alguns cristãos afirmam que a profecia bíblica exige a existência de Israel para que Jesus regresse, o líder do estudo bíblico de Hegseth, Ralph Drollinger, ensina que Israel deve ser apoiado porque Deus abençoa os seus aliados e amaldiçoa os seus inimigos.

Weinstein disse que a MRFF recebeu queixas semelhantes sobre este fundamentalismo sionista-cristão e apocalíptico, após o ataque liderado pelo Hamas ao sul de Israel, a 7 de Outubro de 2023.

Nessa altura, a organização relatou uma queixa sobre um comandante da força aérea que disse numa conferência de imprensa que “a guerra entre Israel e o Hamas já foi prevista no Livro do Apocalipse, no Evangelho de Jesus Cristo, e ninguém pode fazer nada a esse respeito”.

 

Nota editorial do ContraCultura.

Em teoria, o Contra não tem nada contra o nacionalismo cristão, embora se veja obrigado a reconhecer que no Ocidente contemporâneo não haverá um único país onde possa ser implementado sem a limpeza étnica e a perseguição religiosa de milhões de seres humanos. Mas, sobretudo, há no facto que agora reportamos equívocos vários e insanidades múltiplas.

Em relação aos equívocos: apesar da sua fundação cristã, os Estados Unidos orgulham-se, sempre se orgulharam, de ser um “melting pot”. Nas últimas décadas têm aberto as fronteiras a dezenas de milhões de migrantes. O Pentágono terá, nos seus efectivos, cerca de 135.000 soldados no activo que não são cristãos (~30% do total). E mesmo entre os soldados cristãos, será muito provável que uma boa parte deles não alinhe com a narrativa do cristianismo sionista, que é, histórica e teologicamente, muito discutível.

Neste contexto, qualquer mensagem deste género, mesmo que a consideremos legítima em termos teológicos e históricos (não é), mesmo que seja pertinente no contexto da guerra com o Irão (está longe de ser), encontrará  sempre resistência pelo menos em metade do corpo militar. E não contribuirá assim, de todo, para exponenciar o moral das tropas, contribuindo antes para dividir os soldados segundo os seus credos e etnias.

Acresce que vive nas entrelinhas deste arengar de tropas um conceito de cruzada. O ContraCultura também não tem uma visão negativa das Cruzadas, pelo contrário, como já sublinhou em vários artigos dedicados ao assunto. Mas a comparação do que agora se está a passar no Médio Oriente com esses eventos históricos é por demais abstrusa. Basta considerar que as cruzadas foram levadas a cabo para travar a expansão do Islão e resgatar a Terra Santa para a cristandade. Ao contrário, o ataque ao Irão não foi provocado pelos muçulmanos. E se a Terra Santa tem que ser libertada, será dos sionistas que a ocupam agora.

No que diz respeito ao perfil tresloucado deste apelo: só um oficial demente poderá pensar que Donald Trump foi ungido por Jesus Cristo, pelo que nem deve sequer estar ao comando de qualquer destacamento militar. A mensagem do Nazareno, como é manifesta nos evangelhos, não podia ser mais distante da praxis política e bélica, bem como do comportamento satânico, do Regime Epstein a que preside o ensandecido magnata de Queens e o correspondente eixo Washington-Telavive. É completamente herético, aberrantemente herético, pensar que bilionários pedófilos e traficantes de seres humanos, demónios que se deleitam com a tortura e o canibalismo, corretores de Wall Street, trans-humanistas de Silicon Valley e CEOs das indústrias de morte do complexo militar norte-americano seriam eleitos por Cristo seja porque razão for e em nome de que missão se possa inventar. Já para não falar dos fariseus de Telavive.

E fazer uma leitura do Apocalipse de João à luz das ambições imperialistas e genocidas desta gente é precisamente um sinal claro de que quem manipula assim o Novo Testamento está de má fé ou de falida razão moral. Pelo menos. É até duvidoso que estes comandantes, considerando a sua insanidade, estejam aptos a fazer uma interpretação minimamente credível e séria de um dos textos mais complexos e enigmáticos de toda a Bíblia.

Por último: o niilismo supersticioso mais grosseiro que se possa imaginar, que neste comportamento das lideranças militares americanas é manifesto, traduz-se numa intensa e imensa dose de ironia que nitidamente lhes escapa: a de se equipararem, em fundamentalismo religioso, aos teocratas iranianos, que a narrativa ocidental nos ensinou a encarar como tenebrosos precisamente pelo seu espúrio fanatismo.

Tucker Carlson publicou um vídeo ontem que aborda, entre outros assuntos, precisamente este. E parece-lhe esta abordagem “teológica” do aparelho militar norte-americano tão abominável como a nós nos parece, perguntando-se até se esta guerra não terá sido afinal planeada para reconstruir o Terceiro Templo sobre as cinzas do Al-Aqsa, um dos locais mais sagrados do Islão, situado na Cidade Velha de Jerusalém.