Os mercados de gás natural em toda a Europa sofreram uma forte subida de preços na segunda-feira, após a notícia de que o Qatar suspendeu as operações na principal instalação de gás natural liquefeito do mundo (GNL), responsável por 20% da produção global. Os líderes da UE já estavam a preparar-se para um cenário de crise caso a guerra se prolongue, devido às baixas reservas de gás nos maiores estados-membros, principalmente a Alemanha e a França.
Os preços subiram até 50% antes de estabilizarem a 43%, no momento da redacção deste artigo, resultando no preço actual de 46 euros por megawatt-hora. Aumentos de preços semelhantes foram observados no índice de referência NBP do Reino Unido.
Para agravar a potencial crise, os níveis de armazenamento da UE caíram para menos de 30% da capacidade no final do Inverno, significativamente abaixo dos 40% registados no mesmo período do ano passado. No entanto, alguns dos maiores países enfrentam reservas ainda mais baixas. A Gas Infrastructure Europe mostra que o armazenamento alemão está nos 20,5% e as reservas francesas nos 21%. Estes baixos stocks tornam o bloco cada vez mais susceptível a oscilações de preços e à escassez de oferta, caso a crise do GNL se agrave.
Agora, a UE já está a considerar cenários em que a guerra se pode prolongar por um longo período. Embora o presidente norter-americano Donald Trump tenha mencionado o prazo de “quatro semanas” para o fim do conflito, ainda não é claro quanto tempo o conflito poderá durar.
Escusado será dizer que foram os esforços da UE para se “libertar da dependência” do gás e do petróleo russos que criaram este “momento de pânico”.
Ana Maria Jaller-Makarewicz, analista-chefe de energia do Instituto de Economia Energética e Análise Financeira, afirmou a este propósito:
“Para a Europa, penso que isto cria um momento de pânico. Há quatro anos, já enfrentávamos estes problemas. Mas agora não estamos apenas preocupados com a Rússia, mas também com o Qatar, os EUA… por isso, penso que, como aumentámos a nossa dependência de outras fontes, também aumentámos a nossa vulnerabilidade.”
Este parágrafo diz tudo, sobre a estratégia energética da União Europeia.
Assinalando o papel do Qatar como o segundo maior fornecedor de GNL do mundo, Jaller-Makarewicz salientou que, se o Qatar não conseguir fornecer gás natural de forma eficiente e pontual, “a Rússia poderá ser a grande beneficiária”, tanto mais que
“Poderemos também ver a energia russa a fluir para outros países. Poderá haver uma oportunidade para a Rússia se o projecto de GNL do Qatar for interrompido.”
A crise energética intensificou-se após os ataques militares dos EUA e de Israel contra o Irão, que aumentaram a instabilidade regional. Em resposta a um ataque às suas infraestruturas, a QatarEnergy confirmou a suspensão da produção relacionada com o reservatório de gás do Campo Norte, apesar de não ter divulgado a extensão dos danos. Embora a empresa tenha reconhecido a suspensão, não forneceu mais detalhes sobre o estado da infraestrutura e das suas operações.
O mundo está actualmente a concentrar a sua atenção no Estreito de Ormuz, um ponto de estrangulamento marítimo vital, em grande parte sob influência iraniana.
Após os recentes ataques, o Irão tomou medidas para obstruir o tráfego através da estreita passagem, que serve de artéria principal para o GNL do Qatar e para boa parte do petróleo global, cuja grande maioria se destina aos mercados asiáticos. No entanto, a energia é um mercado mundial, e um estrangulamento num local leva a um aumento dos preços em todo o lado.
O aumento dos preços pode ser apenas temporário, mas os especialistas alertam que qualquer encerramento prolongado do Estreito pode levar a uma explosão dos preços da energia. Alguns chegaram a alertar para uma possível subida do preço do petróleo para os 120 dólares por barril, enquanto a maioria acredita que preços entre os 80 e os 90 dólares são uma possibilidade mais realista.
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