Nota prévia: Em geral, evito reagir de forma imediata e emocional aos acontecimentos. No entanto, no contexto atual de escalada bélica, e face à absoluta carência de informações consistentes e fiáveis — imersos como estamos num mar de especulações e incertezas —, vejo-me forçado a uma reação se bem que cautelosa e moderada. A razão é simples: torna-se praticamente impossível, neste momento, traçar um quadro analítico rigoroso e objetivo, isento de calor emocional, sobre os factos e as suas potenciais consequências.

 

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A escalada do conflito no Médio Oriente, culminando no ataque coordenado de Estados Unidos e Israel ao Irão em 28 de fevereiro de 2026, representa um ponto de inflexão crítico na geopolítica global. Longe de ser um evento isolado, este ataque é o desdobramento de tensões prolongadas, designadamente a “Guerra dos 12 Dias” de junho de 2025, e levanta a questão fundamental se estamos ou não à beira de uma conflagração global. A análise dos objetivos declarados e latentes, do timing estratégico, do status nuclear iraniano e da estrutura interna do Irão revela uma complexidade que exige uma avaliação rigorosa e objetiva, afastada de vieses emocionais ou de paixões irrealistas.

 

Análise do ataque de 28 de fevereiro e contexto imediato

O ataque conjunto, batizado pelas forças israelitas como “Operação Leão que Ruge” e “Operação Escudo de Judá”, e pelos EUA como “Operação Fúria Épica”, foi precedido por uma “Guerra dos 12 Dias” em junho de 2025. Naquele conflito, Israel visou instalações militares e nucleares iranianas, resultando em 638 mortos e quase 8 mil feridos. Embora espetacular, a “Guerra dos 12 Dias” não se mostrou conclusiva, com o Irão mantendo aparentemente a sua capacidade de enriquecimento de urânio.

A retaliação iraniana ao ataque de fevereiro de 2026 foi imediata e abrangente, incluindo mísseis contra bases americanas no Bahrein, Catar, Kuwait e Emirados Árabes Unidos. A Jordânia e o Reino Unido ativaram defesas aéreas, com os jatos britânicos em prontidão. Uma alegação de Israel sobre a morte do Líder Supremo Aiatolá Ali Khamenei nos ataques aéreos foi contestada pelo Irão, embora fontes ocidentais e iranianas subsequentes tenham reportado o seu falecimento, com o corpo supostamente encontrado sob os escombros. De registar, que esta morte, pode ter profundas implicações para a sucessão, gestão e continuidade do regime iraniano.

 

Motivações e objetivos reais do ataque preventivo

Os objetivos declarados por Washington e Telavive para o ataque de 28 de fevereiro foram multifacetados:

Destruição do programa nuclear militar iraniano: em resposta à percepção de uma ameaça existencial.
Eliminação de mísseis de longo alcance: maxime mísseis balísticos intercontinentais.
Desmantelamento de grupos apoiados pelo Irão, considerados terroristas por EUA e Israel.

 

Os objetivos declarados correspondem aos objetivos reais?

Para além da retórica oficial, parece haver um objetivo subjacente de “mudança de regime”, embora frequentemente colocado em segundo plano ou negado publicamente pela administração Trump. O apelo direto de Donald Trump às Forças Armadas iranianas para “deporem as armas” em troca de imunidade, e seu incentivo ao povo iraniano para “assumir o controle do país”, sugerem uma intenção mais profunda de desestabilização interna. Esta ambivalência reflete uma abordagem deliberada de Washington, que usa a pressão externa para catalisar uma insurgência interna. A história, como demonstram as negociações de Istambul entre a Rússia e a Ucrânia em 2022, revela como forças externas podem intervir para prolongar conflitos, com a intenção de usar conflitos regionais para enfraquecer rivais estratégicos.

A distinção entre atacar instalações militares e visar estruturas de comando e liderança política é crucial. O ataque às instituições e à cúpula do regime sinaliza claramente a intenção de “decapitar” a liderança, o que vai além da mera contenção de capacidades militares. A brutalidade da repressão a protestos anteriores em fevereiro, que resultou em dezenas de milhares de mortos, serve como um sombrio prenúncio para qualquer tentativa de insurreição popular fomentada externamente.

 

A questão crítica do timing: porquê agora?

A decisão de Israel e dos EUA de atacar o Irão é de sublinhar considerando que o MNE de Omã, um mediador entre os EUA e o Irão, havia declarado que um acordo sobre o programa nuclear seria “alcançável” e poderia ser assinado em dias. Cinco razões estratégicas são elencadas para explicar o timing do ataque:

1. Impedimento de um recuo vexatório: A mobilização de uma força aeronaval desproporcionada não poderia terminar sem uma ação significativa, sob pena de desprestígio para Washington.
2. Necessidades eleitorais: Tanto o Primeiro-Ministro israelita Benjamin Netanyahu (com eleições em outubro) quanto o Presidente Donald Trump (com eleições de meio de mandato – ‘midterm elections’ em novembro) confrontam-se com índices de baixa popularidade e buscam não só mostrar capacidade de liderança, mas obter resultados para unificar as respectivas bases eleitorais. A ação militar externa serve, pois, de distração para crises internas.
3. Janela de oportunidade estratégica: A manifesta debilidade interna do Irão, com inflação descontrolada e protestos antigovernamentais, criou uma “janela de oportunidade” para uma ação externa.
4. O relativo fracasso da “Guerra dos 12 Dias” e o avanço nuclear: A percepção de que a “Guerra dos 12 Dias” não atingiu os seus objetivos e que o Irão acelerava o enriquecimento de urânio para uma capacidade nuclear iminente (talvez semanas). Israel argumenta que o Irão utiliza as negociações para ganhar tempo e que as “cláusulas de caducidade” (sunset clauses) apenas adiam o problema.
5. Doutrina israelita de ataque preventivo: Israel concede prioridade de ataques preventivos contra ameaças existenciais, divergindo da preferência dos EUA pela contenção diplomática. O ataque, assim, pode ter visado alterar os termos de um acordo em negociação, impedir concessões excessivas e criar fatos consumados antes de um eventual entendimento.

 

O programa nuclear iraniano: o fator decisivo

O programa nuclear iraniano é central para a justificação dos ataques. Para a produção de energia, o urânio é enriquecido a 3-5%; para reatores de pesquisa, até 20%. Acima de 20%, é considerado “altamente enriquecido”. Armas nucleares requerem 90% de enriquecimento, mas o ponto crítico é que 80-90% do esforço técnico total para atingir 90% já é realizado ao se alcançar 20%.

O Irão detinha 184 kg de urânio enriquecido a 20% e 441 kg a 60%. Teoricamente, para produzir uma arma nuclear, seriam necessários 42 kg de urânio re-enriquecido de 60% para 90%. Com 441 kg a 60%, o Irão teria material suficiente para várias armas se enriquecesse o material. Embora isso não constitua um programa de armamento operacional, indica uma capacidade de “ruptura” iminente.

 

Estrutura interna do Irão: componentes de poder e vulnerabilidades

A estrutura militar iraniana é dual:

Artesh (Forças Armadas regulares): Com 350.000 homens e reservas de mesma dimensão, é uma força convencional.
Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC/Pasdaran): Criada após a Revolução de 1979, é uma força paralela ideologicamente leal ao regime, com forças terrestres, aeroespaciais (mísseis balísticos) e marinha próprias, além da milícia Basij. Com 190.000 homens, o IRGC responde diretamente ao Líder Supremo. No total, o Irão possui entre 900.000 a 1 milhão de combatentes potenciais.

Estamos perante um Estado multiétnico e multirreligioso, embora predominantemente persa (60-65% da população) e xiita (85-90%). Os turco-azeris (15-20%) são integrados; os curdos, maioritariamente sunitas, almejam a independência na região ocidental, onde se encontram sediados e estão em conflito quase permanente com Teerão. Outros grupos minoritários incluem mores, árabes e balúchis. Essa diversidade étnica e religiosa, combinada com a centralização política e a primazia do xiismo duodecimano, cria um ambiente de potencial instabilidade interna, especialmente face a perturbações externas.

 

Projeção de escalada: do regional ao global

A retaliação iraniana, que se estendeu a bases americanas em países como Bahrein, Catar, Kuwait e Emirados Árabes Unidos, demonstra a capacidade e a vontade do Irão em ampliar o teatro de operações. A intercepção de mísseis iranianos pela Jordânia e a participação de aviões britânicos em esforços defensivos sublinham a rápida expansão regional do conflito.

O encerramento do Estreito de Ormuz é uma ramificação crítica e imediata. Por esta rota estratégica passa aproximadamente 20% do petróleo mundial. Qualquer interrupção prolongada no fluxo de petróleo através do estreito teria um impacto devastador nos preços globais de energia e na economia mundial, com repercussões sentidas por todos os países importadores de petróleo, incluindo a China, cuja segurança energética depende fortemente desta via (Pequim importa 60% do petróleo iraniano).

 

Implicações económicas e a volatilidade dos mercados de risco

O encerramento do Estreito de Ormuz já resultou numa forte pressão sobre os preços do petróleo e de outros hidrocarbonetos. Esta volatilidade estende-se a outros mercados. Ativos de risco, como o Bitcoin, demonstraram uma resposta mista: enquanto o Bitcoin se manteve em patamares relativamente estáveis, ocorrendo um fluxo de capital de 300 milhões de dólares e registando saídas de criptomoedas iranianas (nomeadamente, da exchange Nobitex) que aumentaram 700% minutos após os ataques iniciais. Isso indica que, embora alguns investidores busquem criptoativos como refúgio, a incerteza também pode levar à sua liquidação em regiões afetadas. A atuação da OPEP, neste cenário de aumento de preços e potencial escassez, torna-se crucial para a estabilização do mercado global de energia.

A transição de um conflito regional para uma guerra global dependerá da intensidade e duração das retaliações, da capacidade das partes de controlar escaladas e da intervenção de outros atores globais. Contudo, os elementos presentes – estatuto nuclear, objetivos políticos profundos, vulnerabilidades internas e a potencial interferência no fluxo energético global – apontam para um risco significativo de alastramento e consequentes ramificações planetárias.

 

 

FRANCISCO HENRIQUES DA SILVA
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Francisco Henriques da Silva é licenciado em História, diplomata e autor. Foi Director-geral de Assuntos Multilaterais no MNE e embaixador na Guiné-Bissau, Costa do Marfim, Índia, México e Hungria
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.