O presidente norte-americano Donald J. Trump recusou-se a descartar uma invasão terrestre do Irão, declarando ao New York Post que está aberto ao envio de tropas terrestres caso a situação o exija. Esta declaração surge após o lançamento da Operação Epic Fury, uma missão conjunta EUA-Israel iniciada no sábado com o alegado objectivo de eliminar os principais líderes da República Islâmica do Irão, a sua infra-estrutura nuclear e de mísseis balísticos, bem como valiosos activos militares.
A este propósito, Trump afirmou:
“Não tenho qualquer receio em relação ao envio de tropas terrestres. Todo o presidente diz: ‘Não haverá tropas terrestres.’ Eu não digo isso. Eu digo ‘provavelmente não precisamos delas’.”
Isto representa uma ruptura com o que disse o vice-presidente J.D. Vance, que afirmou que “não havia hipótese” de uma longa guerra no Irão pouco antes do início das operações, e com o secretário da Guerra Pete Hegseth, que insistiu na segunda-feira:
“Isto não é o Iraque. Isto não é interminável… [Trump] chamou os últimos 20 anos de guerras de reconstrução nacional de estúpidas, e tem razão. Isto é o oposto. Esta operação é uma missão clara, devastadora e decisiva: destruir a ameaça de mísseis, destruir a marinha, as armas nucleares”.
Apesar de manter as suas opções em aberto quanto a uma invasão terrestre, Trump enfatizou que a Operação Epic Fury está actualmente “dentro do cronograma, muito adiantada” em termos de eliminação da liderança iraniana, citando “49 mortos” — incluindo o Líder Supremo do país, o Aiatolá Ali Khamenei. Rebatendo as sondagens que sugerem a impopularidade da guerra, o presidente insistiu:
“Acho que as sondagens são muito boas. Mas não me importo com as sondagens.Tenho de fazer a coisa certa. Não se pode deixar o Irão, uma nação governada por pessoas insanas, ter uma arma nuclear.”
Estas declarações de Donald Trump têm várias camadas de grosseira aldrabice. Primeiro: nunca ninguém conseguiu até agora demonstrar que o Irão tem armas atómicas prontas a utilizar, e mesmo que as tenha, em Junho do ano passado o presidente norte-americano declarou ao mundo que tinha destruído completamente a infraestrutura nuclear do Irão, pelo que mentiu na altura ou está a mentir agora.
Depois, com as intercalares em Novembro deste ano, Trump não deve estar a pensar noutra coisa que não sejam as sondagens. Se os democratas recuperarem as maiorias no Senado e na Câmara baixa, não lhes vão faltar razões para um processo de destituição, a começar por ter iniciado esta guerra com o Irão sem autorização do congresso, desrespeitando flagrantemente a constituição americana.
E se o Irão é governado por pessoas insanas, que dizer das pessoas que governam os Estados Unidos, que matam o tédio a traficar e violar menores e a praticar rituais satânicos que incluem homicídio, tortura e canibalismo?
Donald Trump montou a sua carreira política, desde 2015, a criticar as ‘guerras eternas’ dos neoconservadores. Mas agora é de tal forma um falcão que até Jeb Bush, um velho adversário político do Partido Republicano, o aplaude de pé:
I recorded a special video message with @UANI‘s @mark_d_wallace applauding @realDonaldTrump‘s historic Operation Epic Fury and calling on all American leaders from both parties to unite behind a noble cause: freedom for the great people of #Iran. پاینده ایران https://t.co/3zIl4xpDPN
— Jeb Bush (@JebBush) March 2, 2026
E quanto aos apectos práticos de colocar ‘botas no terreno’ iraniano, basta olhar para um mapa, para perceber o carácter suicidário desta missão militar:
Como os EUA não têm acesso ao Irão pelo norte, as suas tropas teriam que entrar pelo ocidente, atravessar a Síria e o Iraque (ou uma boa parte da Turquia) para chegar ao Irão. E depois, ainda teriam que cumprir uma longa travessia em território inimigo para chegar a Teerão. Entrando pelo sul, teriam que enfrentar o fogo de houthis e iranianos no Golfo Pérsico, desembarcar em território inimigo e enfrentar depois um longo percurso, em constante combate, até à capital do país.
Só o apoio logístico a uma missão destas é de complicação transcendente. Principalmente quando os soldados americanos iriam combater a 10.000 quilómetros do seu país. Já para não falar no número de efectivos que teriam que ser recrutados para esta odisseia de trevas (há quem estime em meio milhão), e do correspondente volume de baixas, que seria por certo insustentável.
Qualquer pessoa com um neurónio a funcionar percebe a enormidade deste disparate. Até Alexandre, confrontado com as dificuldades desta missão, pensaria duas vezes. O problema é que Donald Trump não pensa. Há em Telavive quem pense por ele.
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