Alguns dos defensores declarados do movimento populista America First criticaram duramente o presidente Donald Trump depois do presidente norte-americano ter anunciado que as forças armadas dos EUA atacaram o Irão na madrugada de sábado, com um deles a afirmar que o presidente traiu a sua base MAGA.

Trump anunciou que as forças armadas norte-americanas tinham lançado um ataque “massivo e contínuo” contra a teocracia islâmica, prometendo num vídeo publicado nas redes sociais “destruir os seus mísseis e arrasar a sua indústria”. Horas depois, a ex-deputada republicana da Geórgia, Marjorie Taylor Greene — anteriormente uma aliada acérrima de Trump e porta-voz do MAGA — publicou uma reacção de quase 700 palavras à Operação Epic Fury, na qual afirmou que a iniciativa bélica “parece a pior traição”, iniciando o seu texto com as promessas eleitorais feitas por Donald Trump e JD Vance:

“Dissemos ‘Chega de guerras no estrangeiro, chega de mudança de regime!’ Dissemos isto em comício após comício, discurso após discurso. Trump, Vance, basicamente toda a administração, fez campanha com esta promessa e prometeu colocar a América em primeiro lugar e tornar a América grande novamente.” 

A publicação da ex-congressista inclui uma captura de ecrã de uma publicação de 2024 da conta X do Partido Republicano, que anunciava Trump e Vance como “o mandato pró-paz”.

A republicana da Geórgia demitiu-se do seu cargo na Câmara dos Representantes depois de Trump lhe ter retirado o apoio para as eleições intercalares, em consequência da disputa entre os dois republicanos sobre a divulgação dos ficheiros Epstein. No seu texto, lemos ainda:

“A minha geração foi desiludida, abusada e usada pelo nosso governo durante toda a nossa vida adulta, e a geração dos nossos filhos está a ser literalmente abandonada. Milhares e milhares de americanos da minha geração foram mortos e feridos em guerras estrangeiras intermináveis ​​e sem sentido, e nós dissemos basta. Mas estamos a libertar o povo iraniano? Por favor.”

A ex-congressista afirmou que a declaração de que “o Irão está prestes a ter armas nucleares” é “uma mentira que coloca sempre os Estados Unidos em último lugar”, acrescentando:

“Mas desta vez parece a pior traição porque vem precisamente do homem e da administração em que todos acreditávamos que seriam diferentes. Pensámos que a vitória alcançada em 2024 seria finalmente o momento de colocar os Estados Unidos em primeiro lugar. E pensámos que isso significava o americano comum e os seus filhos. Não as elites. (…) Agora, os Estados Unidos serão obrigados a engolir  todas as razões ‘nobres’ pelas quais o presidente americano da ‘paz’ e o governo pró-paz tiveram de entrar em guerra mais uma vez este ano, depois de apenas um ano no poder. É de enlouquecer, mas é o MAGA”.

 

 

Numa outra mensagem publicada menos de meia hora depois na sua conta pessoal no X, Greene escreveu:

“Não fiz campanha para isto. Não doei dinheiro para isto. Não votei nisto, nas eleições ou no Congresso. Isto é de partir o coração e trágico”.

A publicação inclui um vídeo que mostra os escombros de uma escola bombardeada pelas forças do Eixo-Epstein. Várias fontes (AP, BBC, Al Jazeera, Reuters, IRNA iraniana) referem que um ataque conjunto EUA-Israel atingiu a escola feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irão. O número de mortos na escola é de 40 a 51 crianças, sendo que cerca de 45 a 60 ficaram feridas, segundo as autoridades iranianas (os números estão a aumentar). Green acescentou ainda:

“E quantos mais inocentes morrerão? E os nossos próprios militares? Não era isso que pensávamos que o MAGA deveria ser. Que vergonha!”

 

 

O deputado republicano Thomas Massie, aliado de longa data de Greene no Congresso, escreveu na manhã de sábado no X:

“Sou contra esta guerra. Isto não é ‘América Primeiro’”.

Dado que a Casa branca iniciou esta guerra sem autorização do Congresso, o que vai contra o espírito e a letra da Constituição americana, o republicano do Kentucky acrescentou que, assim que o a Câmara dos Representantes se voltar a reunir, irá trabalhar com o deputado democrata da Califórnia, Ro Khanna — com quem co-patrocinou a Lei de Transparência dos ficheiros Epstein — “para forçar uma votação no Congresso sobre a guerra com o Irão”, enfatizando:

“A Constituição exige uma votação, e o seu representante precisa de tomar uma posição pública contra ou a favor desta guerra”.

Massie é um representante de ideologia libertária, conhecido por combater activamente os interesses do Estado profundo e divergir frequentemente do presidente e do Partido Republicano em votações importantes na Câmara.

 

 

Entretanto, Tucker Carlson classificou a operação de Trump contra o Irão como “absolutamente repugnante e maléfica”, segundo relata Jonathan Karl, da ABC News, num vídeo publicado na manhã de sábado no canal X.

No vídeo, Karl refere que Carlson esteve na Casa Branca de Trump apenas uma semana antes do início das hostilidades e que continua a ser uma figura influente no movimento de Trump, afirmando ainda:

“Este é um passo crucial e potencialmente decisivo, que talvez até redefina a trajectória do presidente Trump. Entrou para a política prometendo acabar com o que chamava de ‘guerras eternas’. Foi extremamente crítico da guerra com o Iraque. Alegou que sempre foi contra essa guerra. E agora vê-se a iniciar o que pode ser um grande conflito com o Irão.”

 

 

Antes do conflito rebentar, Tucker já se tinha manifestado contra essa possibilidade, afirmando que uma guerra com o Irão só cumpria os interesses de Israel.

 

 

Robert Barnes, outro influente populista que apoiou a campanha que fez regressar Donald Trump à Casa Branca, também se tem mostrado crítico desta administração e dos serviços que presta ao regime sionista, sublinhando que as guerras não são historicamente favoráveis aos presidentes que as iniciam.

 

 

Mais a mais, o sentimento anti-guerra nos EUA parece estar a ganhar uma escala inaudita, com pesquisas a mostrarem que três quartos dos americanos observam criticamente a iniciativa do regime Trump.

 

 

E com as intercalares de Novembro no horizonte, a Casa Branca terá mesmo que se sair bem da guerra em que se embrulhou, sem qualquer justificação plausível, para evitar um desastre eleitoral que, caso ocorra, pode até levar à destituição pelo Congresso da actual presidência.