Na Alemanha, ter filhos está a tornar-se um luxo.
A decisão de ter filhos é profundamente pessoal, mas é também influenciada por fatores estruturais, económicos e ideológicos. Na Alemanha, um país conhecido pelo seu forte sistema de apoio social, observa-se um crescente sentimento de insegurança financeira que está a deixar as famílias em compasso de espera. De acordo com uma pesquisa do instituto Insa, a maioria dos alemães acredita que formar uma família se tornou um luxo inacessível, levantando questões urgentes sobre o futuro do país e as prioridades do Estado.
Segundo a perceção da nova geração “não dá para ter filhos”
Os números da pesquisa são um sinal de alerta claro. Para 55% dos inquiridos pelo Insa, a resposta é taxativa: já não se pode ter filhos devido aos custos envolvidos. Apenas 34% discordam desta afirmação, enquanto 11% se mostram indecisos.
Além de uma mentalidade hedonista transmitida socialmente, o principal motor deste pessimismo é o aumento generalizado do custo de vida. Para 81% dos que veem a família como impraticável, a culpa estaria na escalada de preços em áreas essenciais como habitação, alimentação e energia. Este sentimento atinge o seu pico na faixa etária mais propensa a planear uma família. Segundo o chefe da Insa, na faixa etária entre os 30 e os 49 anos, 60% dos inquiridos consideram que ter filhos é financeiramente inviável.
Um dos fatores ideológicos expressa-se certamente na discussão em torno do aborto. Uma iniciativa civil, constituída por organizações progressistas não governamentais e financiada com dinheiro público, tem pressionado a União Europeia para a criação de um fundo europeu destinado ao aborto. Esse fundo financiaria o acesso ao aborto por cidadãs europeias noutros países-membros, o que, na prática, poderia contornar as diferentes legislações nacionais em matéria de prazos e de aconselhamento obrigatório.
Quanto custa sustentar uma criança?
Esta perceção de “carestia” não é infundada e encontra eco nas estatísticas. Segundo dados do Departamento Federal de Estatística (Destatis), citados por várias análises, o custo médio para criar um filho na Alemanha até aos 18 anos ronda os 164.808 euros. Este valor traduz-se numa despesa mensal média de cerca de 763 euros, que varia consoante a idade, ou seja, 679 euros para crianças dos 0 aos 6 anos, 786 euros para dos 6 aos 12 e 953 euros para adolescentes até aos 18.
É importante notar que este cálculo inclui não só gastos diretos (roupa, comida, brinquedos), mas também os custos indiretos significativos, como a necessidade de uma habitação maior ou o aumento do consumo de energia.
Perante estes números, o Estado alemão disponibiliza um conjunto de apoios. O mais conhecido é o Kindergeld (abono de família), que em 2026 sofreu um ligeiro aumento, fixando-se nos 259 euros mensais por criança. Paralelamente, existe a dedução fiscal por filhos (Kinderfreibetrag), que em 2026 é de 6.828 euros anuais por criança, um mecanismo que tende a beneficiar mais as famílias com rendimentos mais elevados.
Apesar destes apoios, o sentimento de desânimo persiste. A discrepância entre o custo real (679 euros para um bebé) e o valor do abono (259 euros) é evidente, mesmo considerando que o Estado também subsidia fortemente outras áreas, como o custo das creches (Kita), que na Alemanha é um dos mais baixos da Europa, representando apenas 1% do rendimento familiar para famílias com dois filhos.
O paradoxo do investimento e o fantasma do envelhecimento
A Alemanha não é um país que poupe nas famílias. Dados do Instituto Alemão de Economia (DIW) mostram que o país gasta mais de 1.600 euros por habitante em benefícios familiares, um valor que é quase o dobro da média da União Europeia. Então, porque persiste a sensação de que “não dá”?
A resposta pode estar na convergência de várias crises como, a inflação pós-pandemia, a crise energética e o aumento das rendas, que corroem o poder de compra e tornam o planeamento familiar um exercício de alto risco. A confiança no futuro está em baixo, e a perceção é a de que o apoio estatal, embora existenta, não acompanha o ritmo galopante das despesas.
Este cenário é particularmente preocupante num país que enfrenta um acelerado envelhecimento populacional. Tradicionalmente, a imigração tem sido usada como um instrumento para mitigar este desequilíbrio demográfico. No entanto, como os dados da pesquisa Insa sugerem, confiar apenas na imigração é uma estratégica míope se o ambiente para as famílias nativas e imigrantes não for atraente.
Menos armas, mais apoio à vida e menos propagação ideológica
É neste contexto que surge a proposta de uma mudança de paradigma. Se o futuro da sociedade depende das novas gerações, o investimento nelas e na própria cultura deveria ser prioridade absoluta. Tal implica, para muitos, uma redefinição das prioridades orçamentais do Estado, nomeadamente o redireccionamento de fundos massivos, como os que são atualmente canalizados para o setor militar e de armamento, para políticas de apoio à família.
Entre as medidas concretas necessitadas de investigação que poderiam inverter a atual tendência de desânimo, destaca-se a criação de um salário mensal digno para as mães (ou pais) durante os primeiros quatro anos de vida da criança, idade determinante para a configuração da personalidade da criança em relação ao seu equilíbrio futuro. Uma medida desta natureza reconheceria, por um lado o trabalho invisível e essencial do cuidado na primeira infância, por outro compensaria a perda de rendimento num período crítico, onde as despesas com o bebé são altas e, frequentemente, um dos progenitores reduz o seu horário de trabalho ou abandona o emprego e valorizaria a família no seu contributo fundamental para a sociedade, e não como um “problema” ou um “custo” individual.
A Alemanha tem demonstrado, através do seu investimento em creches e abonos, que entende a importância de apoiar as famílias. No entanto, a perceção pública, cristalizada na pesquisa da Insa, mostra que o atual pacote de medidas já não é suficiente, tendo muito embora em conta que o problema não é apenas de natureza económica, mas sobretudo de crise cultural.
O desafio para os governos não é apenas ajustar valores, mas sim criar uma nova arquitetura de suporte que ofereça segurança e estabilidade genuínas aos jovens casais. Se a preocupação com o futuro é real, ele começa a ser construído hoje, não em campos de batalha, mas no berço e na estabilidade financeira de quem ousa, ou gostaria de ousar, ser pai ou mãe.
Conclusão
Um Estado que não garante um espaço livre e de liberdade para as crianças está, na prática, a sufocar o seu próprio futuro e assume uma função redutora. Quando a criança é vista apenas como um fardo financeiro, o Estado falha a sua missão essencial. Ao não reconhecer as crianças como uma fonte de enriquecimento humano e social, acaba por criar um défice bem mais caro a nível económico, demográfico e, acima de tudo, humano. A tendência social para uma vida previsível, organizada e tranquila entra em choque com a natureza da infância. As crianças são criativas, espontâneas e surpreendentes, não se enquadrando nesse modelo rígido. As crianças trazem de volta proximidade, alegria, autenticidade e a capacidade de criar espaços vibrantes de humanidade, valores estes que a rotina adulta organizada perdeu.
ANTÓNIO JUSTO
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António da Cunha Duarte Justo é um pensador e viajante de culturas: filósofo e teólogo de formação, escritor por vocação e comunicador por missão, dedica a sua vida a lançar pontes entre Portugal e Alemanha. Autor do blog Pegadas do Tempo.
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