Dale Earnhardt Sr. e Michael Waltrip em 1999.

 

A realidade supera não raras vezes a imaginação dos romancistas. Eis uma rábula que é viva ilustração dessa premissa.

Esta é a história de uma das amizades mais comoventes e trágicas da NASCAR, que enreda um laço incrível entre uma lenda da competição automóvel norte-americana, Dale Earnhardt Sr, e um rapaz talentoso, mas azarado, Michael Waltrip, que ao fim de centenas de corridas sem ganhar uma, vence as 500 milhas de Daytona, só para experimentar, instantes depois de cortar a meta, um dos maiores desgostos da sua vida.

Dale Earnhardt Sr., o heptacampeão da Winston Cup apelidado de Intimidador, dominou a NASCAR com um estilo agressivo, um quase sinistro Chevrolet preto e uma intensidade competitiva incomparável. No final da década de 1990, com muitos títulos somados na sua conta corrente, o piloto já era um empresário extremamente bem sucedido, que comandava a sua própria equipa, a Dale Earnhardt Inc.

No apogeu do seu sucesso, Earnhardt desenvolveu uma amizade genuína e improvável com Michael Waltrip, o irmão mais novo de um outro campeão da NASCAR, Darrell Waltrip, e um piloto simpático e trabalhador, mas sem “estrelinha de campeão”, que se tornou o detentor da maior sequência activa sem vitórias na NASCAR — 0 vitórias em 462 corridas da Cup Series até ao ano 2000. Michael era conhecido pelo seu humor, humildade e resiliência – um tipo rijo, que sobrevivia incólume a maus resultados e acidentes arrepiantes, persistindo empenhadamente em competir no infernal e alucinante e arriscado circo dos stock cars norte-americanos.

A ligação entre ambos começou em meados do final da década de 1990. Earnhardt, geralmente reservado e de carácter altivo, viu algo de especial na garra e na personalidade de Waltrip. Admirava como Michael continuava a aparecer, corrida após corrida, competindo com garra e mantendo o optimismo, apesar das constantes desilusões. Earnhardt, um mentor de muitos pilotos e figura influente na orgânica da NASCAR, mas pouco dado a grandes manifestações fraternas, acolheu Waltrip com afecto e sob o olhar público. Partilharam férias e pescarias tanto como experiências de corrida, enquanto Michael bebia todos os conselhos que o campeoníssimo veterano lhe podia oferecer. Earnhardt brincava com Michael sobre a sua série de derrotas, mas acreditava mesmo nele.

 

Os dois amigos, depois de um dia de pesca no iate de Earnhardt.

 

No final de 2000, aconteceu o inevitável: Earnhardt contratou Waltrip para conduzir o Chevrolet nº 15 da sua equipa a partir de 2001. Era um sonho para o azarado piloto — correr para o seu mentor e amigo, o próprio Intimidator, num carro de topo. Waltrip descreveu a circusntância mais tarde como uma experiência transformadora: o mestre não lhe tinha dado apenas um carro capaz de vencer, deu-lhe confiança e um sentimento de pertença. Se era piloto de uma equipa de topo era porque o merecia.

 

Os carros nº3, 8 e 15 da equipa Dale Earnhardt Inc., nas 500 milhas de Daytona de 2001.

 

Apesar do profissionalismo e espírito ganhador da equipa, a sua estrutura era familiar: Earnhardt Sr. corria no nº 3, o seu filho Dale Jr. no nº 8 e agora Michael, que já fazia parte do círculo íntimo do patrão, conduzia o nº15. E a verdade é que Earnhardt não estava enganado sobre o potencial do seu discípulo, porque logo a 18 de Fevereiro de 2001, na primeira prova que disputou pelas cores da sua nova equipa, Waltrip venceu as 500 milhas de Daytona, a mais importante prova do calendário NASCAR e um clássico do automobilismo mundial. Acontece que minutos depois de cortar a linha de meta, em plena euforia da sua primeira vitória em quase 463 corridas, Waltrip recebeu a notícia mais dolorosa que naquele momento lhe podiam dar: Dale Earnhardt Sr. tinha perdido a vida, na última curva da última volta da prova.

Enquanto Waltrip cruzava a bandeira de xadrez, Earnhardt estava a bloquear alguns adversários que tentavam ganhar momento para atacar o seu amigo, que liderava, e o seu filho, que seguia em segundo lugar. Nessa missão sempre complicada, perdeu o controlo do Chevrolet nº 3 e embateu de frente no muro lateral, a quase 320 km/h, sofrendo ferimentos fatais na cabeça e no pescoço. O grande ícone dos stock cars tinha morrido enquanto lutava para que Waltrip vencesse.

 

Momento em que Dale Earnhardt Sr. colide com o muro lateral de Daytona, a mais de 300 kms/h

 

Quando chegou ao pódio, feliz da vida, Waltrip não sabia do acidente e estranhou até que o seu patrão não estivesse presente. Logo que foi informado da tragédia, o triunfo transformou-se em devastação. Perdeu o seu amigo íntimo, mentor e patrão, precisamente porque este quis garantir o seu triunfo. A culpa do sobrevivente atingiu-o com violência indizível e Waltrip nunca recuperou psicologicamente do trauma.

O piloto processou o luto em privado num primeiro momento, mas a profundidade da amizade acabou por transparecer depois nas suas reflexões públicas, confessando recorrentemente o afecto, o encorajamento e a crença de Earnhardt, que transformaram a sua carreira. A vitória de 2001, agridoce para sempre, simbolizou o vínculo entre eles: Dale Earnhardt Sr. proporcionou condições a Michael Waltrip para quebrar o enguiço, mas pagou o preço máximo por ter desfeito a maldição.

Dois anos depois destes dramáticos acontecimentos, Waltrip honrou a memória de Dale Earnhardt Sr. vencendo de novo em Daytona, em 2003, ao volante da mesma equipa.

A incrível história foi contada no livro que Waltrip publicou dez anos depois, “In the Blink of an Eye: Dale, Daytona, and the Day that Changed Everything” (escrito em coautoria com Ellis Henican), que detalha a relação com o seu mentor, a preparação para Daytona, a corrida e o impacto emocional das consequências da tragédia. A adaptação para documentário de 2019 levou a história a um público mais vasto.

O documentário está hoje disponível no Youtube. E percebe-se bem que Waltrip, duas décadas depois do dramático evento, ainda não conseguiu ultrapassar a dor, o choque e a perda.

A vida é uma viagem de roteiro difícil e imprevisto. E quando a cumpres a 300 à hora, tudo pode acontecer. Na última curva da última volta.