O presidente dos EUA, Donald J. Trump, estabeleceu na quinta-feira um prazo para que os negociadores do governo iraniano cheguem a um acordo com a sua administração para desmantelar os programas de armas nucleares e mísseis balísticos da República Islâmica. Discursando na reunião inaugural do Conselho de Paz em Washington, D.C., Trump deu ao regime iraniano dez dias para fechar um acordo, enquanto as forças armadas dos EUA continuam o seu fortalecimento no Médio Oriente, com a presença aérea a rivalizar com a da véspera da invasão do Iraque pelos EUA, em 2003.

“Talvez tenhamos de dar um passo em frente, ou talvez não. Talvez cheguemos a um acordo. Vão descobrir provavelmente nos próximos dez dias.”

 

 

De referir que o grupo de ataque do porta-aviões USS Gerald R. Ford deixou as Caraíbas no início de Fevereiro rumo ao Mediterrâneo Oriental e deverá chegar dentro de poucos dias. A chegada do Gerald R. Ford elevará para dois o número de porta-aviões norte-americanos próximos do Irão, enquanto a Força Aérea dos EUA deslocou um número significativo de recursos para a região nas últimas semanas.

Embora as autoridades iranianas afirmem ter chegado a um entendimento preliminar com os Estados Unidos, os enviados do regime Trump parecem menos entusiasmados com a possibilidade de um acordo. A divergência só confirma a suspeita de que estas negociações serão mais uma manobra de diversão de Washington, que tem como intenção ganhar tempo até que todas as forças estejam reunidas para um ataque militar que é agora mais que provável e que objectiva claramente a mudança de regime em Teerão, a mando de Telavive. A Casa Branca pode também estar a jogar com o factor surpresa, atacando o Irão enquanto ainda se senta à mesa das negociações, como aliás aconteceu em Junho de 2025.

Como o ContraCultura já alertou, um ataque convencional contra o Irão, sustentado por bombardeamentos aéreos, poderá ser muito mais complicado do que parece, já que o regime iraniano dispõem de mísseis hipersónicos, difíceis de interceptar (ou mesmo impossíveis de interceptar), que podem afundar contratorpedeiros e porta-aviões com relativa facilidade, sendo que as forças iranianas contam com o apoio tecnológico de inteligência e navegação por satélite de russos e chineses.

Na verdade, a segurança da frota americana centra-se nesta questão: terá o regime iraniano coragem para matar 5.000 americanos (a tripulação de um porta-aviões) com um ataque apenas, dada a provável reacção americana a esse ataque poder ser absolutamente esmagadora?

Por outro lado, no caso da triste ideia de um uma invasão terrestre, convém sublinhar que o Irão tem um território três vezes maior que a Ucrânia (e três vezes a sua população), com um perfil acidentado e inóspito, em que será muito complicado manobrar. Mais a mais, Teerão é acessível pelo Mar Cáspio, região dominada pelos russos, e onde os americanos não têm qualquer base militar. Movimentar um exército do Mediterrâneo oriental para o norte do país dos aiatolás, através da Síria e do Iraque, é um verdadeiro pesadelo logístico, com muito poucas hipóteses de sucesso.

 

 

Para percebermos a magnitude da tarefa e o grau de preparação dos americanos para uma operação desta escala, basta pensar que o Pentágono combateu durante vinte anos no Afeganistão para acabar por entregar o país precisamente ao inimigo que foi lá combater. E o Irão, não é o Afeganistão.

Nem pouco mais ou menos.