Tucker Carlson foi detido ontem em Israel, depois de gravar uma entrevista com o embaixador dos EUA em Telavive, Mike Huckabee, dentro do Aeroporto Ben-Gurion e sem passar pelo controlo de passaportes. Poucas horas depois, tanto o governo israelita como a Embaixada dos EUA negaram veementemente o sucedido. O mesmo incidente, dois relatos completamente opostos. Eis o que se sabe nesta altura.

 

A visita de Carlson foi breve, tensa e deliberadamente contida. Não saiu do terminal do aeroporto. A sua entrevista com o embaixador dos EUA em Israel, Mike Huckabee — ex-governador do Arkansas nomeado pelo presidente Trump — decorreu inteiramente dentro do complexo do Aeroporto Ben-Gurion, numa sala VIP. Tratou-se de uma conversa que as autoridades israelitas aparentemente queriam monitorizar de perto o suficiente para confiscar o passaporte de Carlson e enclausurar o seu produtor executivo numa sala privada…

Se isto se qualifica como uma detenção é agora o ponto central da disputa — e está a desenrolar-se em tempo real nos media americanos e israelitas. A história é importante porque envolve um embaixador dos EUA em funções, um jornalista americano de alto perfil e um pretenso aliado dos Estados Unidos que, segundo os críticos, ultrapassou um limite significativo.

 

 

A versão de Tucker Carlson 

Carlson disse ao Daily Mail que os homens que se identificaram como seguranças do aeroporto israelita confiscaram os passaportes da sua equipa logo à chegada. O seu produtor executivo foi posteriormente levado para uma sala separada. Os oficiais exigiram então um relato completo do que foi discutido durante a entrevista com Huckabee antes de os passaportes serem devolvidos.

Carlson classificou a situação de “bizarra”. Não usou a palavra detenção, mas a sequência que descreveu — confisco do passaporte, isolamento de um membro da equipa, interrogatório sobre o conteúdo jornalístico — corresponde ao que os advogados de direitos civis e as organizações de liberdade de imprensa normalmente classificam como detenção, segundo os padrões internacionais.

Carlson e toda a sua equipa já deixaram Israel, mas o jornalista continuou a falar publicamente sobre o incidente, classificando-o como uma tentativa das autoridades israelitas de vigiar ou controlar o conteúdo de uma entrevista jornalística envolvendo um diplomata norte-americano de alto nível.

 

 

Israel e a Embaixada dos EUA afirmam que se tratou de um procedimento de segurança de rotina.

A Autoridade Aeroportuária de Israel emitiu uma negação formal poucas horas depois. As autoridades afirmaram que Carlson e a sua equipa não foram detidos, não sofreram atrasos para além dos procedimentos padrão e não foram interrogados. Segundo esta Autoridade, Carlson foi “educadamente questionado sobre algumas questões de rotina” numa sala reservada dentro do lounge VIP — um isolamento que, segundo eles, foi feito unicamente para proteger a sua privacidade enquanto figura pública.

A Embaixada dos EUA em Israel corroborou esta versão. Os funcionários da embaixada confirmaram que Carlson passou pelo mesmo processo padrão de controlo de passaportes que qualquer outro visitante, incluindo o próprio embaixador Huckabee. Sem tratamento especial. Nenhuma medida extraordinária. Procedimento de entrada de rotina.

Será que é rotineiro em Israel que os jornalistas seja interrogados pelas autoridades sobre o conteúdo das suas entrevistas? Se tal princípio operacional for verdadeiro, trata-se da confirmação de que o país não compagina com as normas mais básicas da liberdade de expressão e do Estado de direito. Se não for, é mais que óbvio que Carlson está a ser visado e intimidado pelo governo israelita por causa das suas opiniões políticas.

 

 

Porque é que Tucker Carlson estava em Israel?

A visita não aconteceu isoladamente. Semanas antes do incidente no aeroporto, Carlson e o embaixador Mike Huckabee tinham travado uma acesa discussão pública sobre o tratamento dado por Israel aos cristãos — tanto na Terra Santa em geral como em termos de acesso concedido a jornalistas e comentadores cristãos.

Carlson, que construiu uma audiência significativa entre os cristãos conservadores e que tem acusado o regime sionista de perseguição da comunidade cristã, pressionou Huckabee directamente sobre se a Embaixada dos EUA estava a fazer o suficiente para proteger os interesses cristãos na região. Huckabee desafiou Carlson a ir ver com os seus próprios olhos. Carlson aceitou e a entrevista foi marcada e realizada. Mas as autoridades israelitas já estavam a avaliar se permitiriam a entrada de Carlson. Deliberações internas do governo israelita, posteriormente divulgadas pelos meios de comunicação locais, revelaram que as autoridades consideraram seriamente negar a entrada de Carlson por completo (talvez por isso, Tucker nem saiu do Aeorporto, evitando até passar pelo controlo de vistos). A visita acabou por ser permitida — especificamente porque impedir a entrada de um jornalista americano de alto perfil desencadearia um incidente diplomático e prejudicaria a imagem pública do país, num momento delicado das relações entre os EUA e Israel.

O incidente com Carlson já está a chamar a atenção dos defensores da liberdade de imprensa. A questão central é simples: se um governo democrático — ainda por cima um alegado aliado próximo dos EUA — confisca os passaportes da equipa de um jornalista e exige saber o que foi dito numa entrevista com um alto funcionário americano, isso representa um desafio directo às normas de liberdade de imprensa.

As posições políticas de Carlson são irrelevantes para esta questão. O princípio aplica-se independentemente de quem seja o jornalista. 

Mas é do Estado sionista que estamos a falar. Uma entidade que consistentemente se coloca acima da lei, da moral e dos bons costumes.