
“O papel natural do homem do século XX é o da ansiedade.”
Norman Mayler

Na sua essência, o romance explora temas como o poder, o conflito de classes e os efeitos desumanizadores da guerra moderna. Mailer utiliza a hierarquia militar como um microcosmo de estruturas sociais mais amplas, ilustrando como a ambição e a ideologia se confrontam numa luta darwiniana pela dominância. Personagens como o intelectual Hearn representam ideais liberais em contraposição às tendências autoritárias personificadas por Cummings, enquanto os soldados rasos lidam com os seus próprios ressentimentos e aspirações, frequentemente enraizados nas suas identidades civis como trabalhadores ou intelectuais. O próprio título evoca a vulnerabilidade (“os nus”) e a mortalidade (“os mortos”), sublinhando como a guerra despoja os indivíduos de ilusões, expondo os instintos primordiais e as desigualdades sociais que persistem mesmo no caos da batalha. O estilo naturalista de Mailer, influenciado por escritores como William Faulkner e Hemingway, enfatiza o determinismo ambiental, onde o cenário da selva se torna uma metáfora para as forças incontroláveis que moldam o destino humano.
Retrato graficamente contundente e perturbador da situação do homem comum quando submetido aos rigores da batalha em território hostil, publicado em 1948, enquanto os Estados Unidos ainda experimentavam o doce sabor da vitória, este romance lapidar, que pôs a América a pensar duas vezes sobre o entusiasmo com que entregava os seus filhos aos horrores da guerra, é uma obra-prima, talvez a única, de Norman Mailer. O livro não tem mais que cinquenta páginas dedicadas à acção de combate, mas é devastador. Os personagens vivem mergulhados num inferno indescritível e entre os rigores da selva equatorial e o desespero da condição humana, odeiam-se furiosamente e odeiam a criação.

Cruzando os pontos de vista de um General (Cummings), brilhante comandante da invasão, e de um rude sargento (Croft), que chefia uma reduzida patrulha de reconhecimento, Mailer não cede à tentação facilitista de condenar ou salvar os seus personagens em função da hierarquia: em ambos os casos o poder, imenso sobre todo um exército ou limitado a um pequeno pelotão, é incompatível com qualquer filosofia humanista. Para além de uma análise do poder em situação de guerra, e da correspondente desumanização do soldado, Mailer disseca com profundidade outros temas inerentes à existência como a solidão, a morte, a camaradagem e a sexualidade.
A obra, que é um ponto de convergência entre Dos Passos e Tolstoi, integra para cima de 16 personagens principais e os seus labirínticos e abissais diálogos interiores chegam a ser excruciantes. A leitura deste livro é simultaneamente dolorosa e gratificante.
Mailer escreveu esta sua primeira, visceral e aterradora novela com 25 anos de idade, logo depois de ter voltado do Pacífico, onde cumpriu serviço militar durante a II Grande Guerra, como cozinheiro. Embora nunca tenha disparado um tiro, conseguiu transportar o pesadelo da guerra para dentro destas angustiadas páginas.
Aclamado pelo público e pela crítica e considerado um dos mais importantes livros escritos em língua inglesa no século XX, “Os Nus e os Mortos” foi adaptado ao cinema em 1958 por Raoul Walsh.
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