O regime Trump não poderia ter oferecido aos democratas um caminho mais fácil para uma vitória nas eleições intercalares deste ano do que a forma como tem gerido o escândalo Epstein, mas a prestação da Procuradora-Geral Pam Bondi na quarta-feira da semana passada, quando foi chamada ao Comité Judiciário da Câmara dos Representantes, rebentou com a escala da idiotia e da desfaçatez.

Bondi entrou repetidamente em conflito com os representantes democratas durante a tensa audiência, recusando responder a perguntas incisivas sobre a actuação do Departamento de Justiça em relação aos ficheiros Epstein, antes de a sessão se transformar numa discussão acesa com o representante Thomas Massie (Republicano – Kentucky) sobre as rasuras nos ficheiros que divulgou por mandato do Congresso, que evidenciam uma clara cumplicidade com criminosos por parte do Departamento de Justiça.

A discussão começou quando o deputado Jerry Nadler (D-NY) pressionou Bondi sobre se o Departamento de Justiça tinha acusado ou estava a investigar algum dos alegados cúmplices de Epstein, citando o que chamou de “evidências concretas de criminalidade repugnante” em ficheiros recentemente divulgados. Bondi tentou esquivar-se da pergunta; quando Nadler a repetiu, ela elevou a voz e insistiu que “responderia à pergunta da forma que quisesse”. À medida que a troca de farpas se intensificava, Bondi desviou completamente o assunto Epstein, mencionando disparatadamente a alta conjuntural dos índices Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq, afirmando que era desses índices que deviam estar a falar, embora a senhora seja procuradora e não economista e estivesse ali precisamente para falar sobre o caso Epstein e não sobre mercados financeiros.

Mas mesmo que esta reacção da procuradora fosse legítima o que ela está a dizer é que

a) As pessoas que violaram crianças estão a dar-se muito bem na bolsa de valores;
b) Desde que a bolsa de valores esteja em alta, as crianças podem ser violadas impunemente.

 

 

Os democratas mantiveram a pressão. O deputado Ted Lieu (D-CA) acusou Bondi de perjúrio depois de esta ter citado um memorando do Departamento de Justiça de Julho de 2025 que afirmava não haver provas que justificassem investigações de “terceiros não acusados”. Lieu apontou para imagens do ex-príncipe Andrew e, de seguida, mostrou um vídeo de Donald Trump com Epstein, perguntando se havia raparigas menores de idade presentes. Bondi respondeu atacando os democratas e elogiando Trump, dizendo que “não havia provas de que Donald Trump tivesse cometido um crime”. Quando Lieu citou uma denúncia do FBI e o testemunho de uma vítima, instando o Departamento de Justiça a interrogá-la, Bondi retorquiu de forma tresloucada:

“Nunca mais me acusem de um crime!”

 

 

Trocas semelhantes ocorreram com a Deputada Zoe Lofgren (D-CA) e o Deputado Jamie Raskin (D-MD), com Bondi a desviar-se repetidamente para ataques pessoais e assuntos irrelevantes em vez de responder às perguntas colocadas.

A certa altura deu a sensação que se alguém perguntasse a Pam Bondi sobre a filosofia de Platão ela responderia:

“Sim, fui ao cabeleireiro hoje, porquê, tem alguma coisa contra o meu penteado?”

 

 

O momento mais explosivo da audiência ocorreu quando Massie, co-patrocinador da Lei de Transparência de ficheiros Epstein, confrontou Bondi com documentos do DOJ e do FBI que mostram os nomes das vítimas enquanto os nomes dos alegados abusadores foram ocultados – e um arquivo do FBI de 2019 que listava o confidente de Epstein, Les Wexner, como um “co-conspirador”, uma designação que Massie disse ter sido rasurada no comunicado do DOJ. Enquanto Massie perguntava quem tinha autorizado as rasuras e porquê, Bondi interrompeu-o repetidamente, insistindo que o problema tinha sido “corrigido em 40 minutos” e acusando Massie de agir como se houvesse um encobrimento. Quando Massie observou que a alteração só ocorreu depois de ele a ter alertado, a discussão acirrou-se, com Bondi a desvalorizar as críticas com uma gargalhada e a atacar Massie pessoalmente.

“Quem é o responsável?”, perguntou Massie. “Consegue rastrear quem na organização cometeu este erro crasso e divulgou os nomes das vítimas?” Bondi retorquiu, chamando Massie de “político falhado” e “hipócrita”.

Massie exibiu então o testemunho do director do FBI, Kash Patel, que disse ao Congresso que não havia “nenhuma informação fidedigna” de que alguém, para além de Ghislaine Maxwell, tivesse assistido Epstein no tráfico de mulheres e raparigas, e perguntou a Bondi se era essa a sua posição. Bondi não respondeu directamente, encorajando, em vez disso, as vítimas a ligar para o FBI e tentando desviar a culpa para as administrações anteriores, incluindo o ex-procurador-geral Merrick Garland. Quando Massie retomou a sua linha de inquérito e apresentou o escândalo como um fracasso de décadas que se estendeu por várias administrações, Bondi gritou que o representante tinha esgotado o seu tempo e recusou-se novamente a abordar o mérito da questão.

 

 

No final da discussão, Bondi não tinha respondido  a questão alguma. Continuamos sem perceber por que raio é que ninguém está a ser investigado e acusado, dada a abundância incomensurável de indícios de crimes múltiplos e tenebrosos. Continuamos sem saber como é que o Departamento de Justiça considera que “não há informações fiáveis” sobre os co-conspiradores, por que razão um documento que listava o poderoso bilionário Les Wexner como co-conspirador foi censurado ou quem aprovou a divulgação dos nomes das vítimas enquanto os alegados abusadores eram ocultados. A audição terminou com perguntas sem resposta — e um forte contraste entre as disputas iniciais dos democratas sobre as evasivas e uma posterior ruptura bipartidária que colocou a actuação do Departamento nos ficheiros de Epstein no centro da controvérsia.

A desfaçatez, a fanafarronice, a má educação, a insensibilidade política e a falta de vergonha na cara que Pam Bondi manifestou nesta audiência do Congresso não têm paralelo e fazem prova de que o Regime Trump entrou em definitivo num ciclo autista e alienado que vai chocar de frente com o cimento da realidade, quando os americanos forem às urnas em Novembro. A actual administração americana não só não tem interesse em investigar um dos maiores escândalos de que há memória no Ocidente, e que inclui – para além de crimes financeiros e de espionagem – homicídio, violação de menores, tráfico de carne humana e canibalismo, como nem sequer finge que está interessada.

 

 

Neste podcast, o comentador libertário Dave Smith, que apoiou a candidatura de Donald Trump em 2024, trata a procuradora-geral como ela deve ser tratada: abaixo de retardada.