Godofredo de Bouillon na Conquista de Jerusalém pelos Cruzados, 15 de Julho de 1099 . Emile Signol . 1847 . Britannica.com

 

“O nome e a natureza de uma guerra santa exigem um escrutínio mais rigoroso; não podemos acreditar precipitadamente que os servos do Príncipe da Paz desembainhariam a espada da destruição, a não ser que o motivo fosse puro, a disputa legítima e a necessidade inevitável. 

Edward Gibbon . Declínio e Queda do Império Romano

 

Um dos mitos mais poderosos da nossa era é que as Cruzadas foram pouco mais do que um ataque não provocado de uma Europa bárbara contra um mundo islâmico tranquilo e civilizado. De acordo com as ideias convencionais, os séculos VII e VIII constituem a grande era da expansão islâmica. Por volta do século XI — época da Primeira Cruzada — somos informados de que o mundo islâmico estava estabilizado e que, por implicação, os cruzados foram os agressores. De facto, os Cruzados são rotineiramente retratados como uma horda de bárbaros de uma Europa atrasada e supersticiosa que irrompe no mundo culto e cosmopolita do Próximo Oriente do século XI.

Esta é a narrativa frequentemente propagada na televisão, em artigos de jornais e até nas academias. Porém, há cada vez mais historiadores a considerarem o seu conteúdo deveras ficcional. O Contra já documentou um desses esforços de revisão, o de Raymond Ibrahim, e da sua obra Defenders of the West, onde o autor demonstra que as Cruzadas não só foram moralmente justificáveis como em última análise necessárias para a sobrevivência do Ocidente, já que ocorreram em três frentes diferentes e vitais para a Europa: a guerra pela Terra Santa e Bizâncio, a Reconquista na Península Ibérica e a defesa dos Balcãs contra os turcos otomanos.

Também John J. O’Neil, no seu livro, Holy Warriors: Islam and the Demise of Classical Civilization, mostra que, antes do advento do Islão, os cristãos não tinham qualquer conceito de ‘Guerra Santa’ e que foi dos próprios muçulmanos que os europeus adoptaram esta ideia. As Cruzadas, longe de serem um acto de agressão não provocado por parte da Europa cristã, fizeram parte de uma acção de retaguarda destinada a conter o avanço muçulmano que, no início do século XI, ameaçava, como nunca antes, dominar toda a Europa.

 

Preconceito e omissão.

Apesar das evidências apresentadas por estes e outros autores inconformados com a narrativa dominante, o consenso entre a maioria dos historiadores medievais é que a ameaça do Islão tinha muito pouco, ou nada, a ver com as Cruzadas; os muçulmanos eram simplesmente alvos convenientes de uma Europa selvagem e brutal, atolada numa cultura de violência e rapina. As “energias” da classe guerreira europeia, afirma-se, foram simplesmente dirigidas pelo Papado, afastando-as da destruição interna e dirigindo-as para alvos convenientes do mundo islâmico. Esta é, por exemplo, a linha adoptada por Marcus Bull na sua análise das origens das Cruzadas em The Oxford History of the Crusades. Num artigo de quase dez mil palavras, Bull não considera a ameaça muçulmana. Na verdade, ele menciona-a apenas para a descartar:

“A perspectiva de uma luta em todo o Mediterrâneo [entre o Islão e o Cristianismo] era visível apenas para as instituições, em particular o papado, que possuíam as redes de inteligência, o conhecimento da geografia e o sentido de longa tradição histórica para ter uma visão ampla da cristandade e da sua situação ameaçadora, real ou suposta. Este é um ponto que precisa de ser enfatizado porque a terminologia das cruzadas é frequentemente aplicada de forma imprecisa a todas as ocasiões nas décadas anteriores a 1095 em que cristãos e muçulmanos se encontraram em conflito. Uma ideia que sustenta o uso impreciso é que a Primeira Cruzada foi o culminar de uma série de guerras no século XI que tiveram um carácter de cruzada, efectivamente ‘testes’ que introduziram os europeus às características essenciais da cruzada.”1

Com que justificação, poderíamos perguntar, Bull dissocia os anteriores conflitos cristãos-muçulmanos do século XI na Peninsula Ibérica, na Sicília e na Anatólia da Primeira Cruzada? A resposta dificilmente pode ser descrita como convincente. “Há muitas provas”, diz, “que sugerem que as pessoas consideraram o apelo transversal do Papa Urbano II de 1095-1096 como um choque para o sistema comunal: foi considerado eficaz precisamente por ser diferente de tudo o que tinha sido tentado antes.” (Ibid.)

Claro que era diferente: o Papa convocara uma reunião de todos os potentados e prelados da Europa para instar a assembleia de uma força poderosa a marchar até Constantinopla e, eventualmente, retomar a Terra Santa. Isto era algo de inédito devido à sua escala e ambição. Mas descartar assim a ligação com o que ocorreu antes em territórios europeus e no próximo oriente conquistados pelos muçulmanos é ridículo. Tal afirmação só pode derivar de uma mentalidade que, de alguma forma, necessita de ver os cruzados como agressores e, assim, afastá-los das guerras defensivas legítimas que os cristãos vinham travando na Península Ibérica e em todo o Mediterrâneo, nas décadas imediatamente anteriores a 1095.

 

O Papa Urbano II na Praça de Clermont a Pregar a Primeira Cruzada . Francesco Hayez . 1835 . Wikipedia

 

A ameaça turcomana.

O facto é que, nos vinte anos anteriores à Primeira Cruzada, a Cristandade perdera toda a Anatólia, uma área maior do que a França e uma região mesmo às portas da Europa. Em 1050, o líder seljúcida Togrul Beg empreendeu a Guerra Santa contra os cristãos da Anatólia, que até então tinham resistido ao poder dos califas. Consta que 130.000 cristãos morreram na guerra, mas que, com a morte de Togrul Beg em 1063, os cristãos reafirmaram a sua independência e liberdade. No entanto, estas tréguas foram de curta duração e, assim que o sobrinho de Togrul Beg, Alp Arslan, foi proclamado sultão, a guerra recomeçou. Em 1064, a antiga capital arménia de Ani foi destruída; e o príncipe de Kars, o último governante arménio independente, “entregou alegremente as suas terras ao imperador bizantino em troca de propriedades nas montanhas do Tauro. Um grande número de arménios acompanhou-o até à sua nova casa.”2 De facto, nesta época, toda a nação arménia foi efectivamente transplantada centenas de quilómetros para sul e oeste.

Mas os ataques turcos continuaram. A partir de 1065, a grande fortaleza fronteiriça de Edessa foi atacada anualmente. Em 1066, ocuparam a passagem dos Montes Amanus e, na Primavera seguinte, saquearam a metrópole capadócia de Cesareia. No Inverno de 1067, os exércitos bizantinos foram derrotados em Melitene e Sebastea. Estas vitórias deram a Alp Arslan o controlo de toda a Arménia e, um ano depois, invadiu o Império, chegando a Neocesareia e Amório em 1068, a Icónio em 1069 e, em 1070, a Chonas, perto da costa do Mar Egeu.

Estes acontecimentos deixam perfeitamente claro que os turcos ameaçavam agora todas as possessões asiáticas do Império, sendo a própria posição de Constantinopla cada vez mais insegura. O governo imperial foi obrigado a agir. Constantino X, cuja negligência para com o exército foi em grande parte responsável pelas catástrofes que agora assolavam o Império, morreu em 1067, deixando um filho jovem, Miguel VII, sob a regência da imperatriz-mãe Eudócia. No ano seguinte, Eudócia casou com o comandante-chefe, Romano Diógenes, que foi elevado ao trono. Romano era um soldado distinto e um patriota sincero, que via que a segurança do Império dependia da reconstrução do exército e, por fim, da reconquista da Arménia. (Ibid.) Quatro meses após a sua subida ao trono, o general feito rei reuniu uma força numerosa, mas pouco fiável, e partiu para enfrentar o inimigo. “Em três laboriosas campanhas”, segundo escreve Gibbon, “os turcos foram expulsos para além do Eufrates; na quarta e última, Romano empreendeu a libertação da Arménia.”3 Aqui, porém, na batalha seminal de Manzikert (1071), foi derrotado e capturado, e toda a Anatólia foi irremediavelmente perdida.

Qualquer leitura honesta destes acontecimentos não nos deixa dúvidas de que o agressor foi Alp Arslan e os seus turcos, e que a marcha de Romano Diógenes para a Arménia foi um contra-ataque de última hora dos Bizantinos para evitar a perda de toda a Anatólia. No entanto, repare-se como a batalha é descrita no recém-publicado Dicionário Chambers de História Mundial:

“O imperador bizantino, Romano IV Diógenes (1068/71), tentou estender o seu império à Arménia, mas foi derrotado em Manzikert, perto do Lago Van, pelos turcos seljúcidas sob o comando de Alp Arslan (1063/72), que lançou então uma invasão em grande escala da Anatólia.”4 

Vemos no texto acima um exemplo gráfico da desinformação disseminada pela mentalidade do politicamente correcto, onde a vítima é transformada em agressor e o agressor retratado como vítima.

Alp Arslan foi morto um ano depois, e a conquista da Ásia Menor, praticamente tudo o que restava das possessões asiáticas de Bizâncio, foi concluída pelo seu filho Malek Shah (1074-1084). Estas conquistas deixaram os turcos na posse da fortaleza de Niceia, na costa sul do Mar de Mármara, e Constantinopla, a capital lendária do que restava do Império Romano, à beira do colpaso civilizacional.

 

Representação da Batalha de Manzikert . Museu Militar de Istambul

 

Do Cabo da Roca à costa ocidental da Índia.

Estes são, então, os principais acontecimentos políticos que prefiguraram a Primeira Cruzada. Num espaço de trinta e cinco anos, os turcos tomaram o controlo de territórios cristãos maiores do que toda a área de França e estavam agora posicionados às portas da Europa. Estamos habituados a pensar nas Cruzadas como, antes de mais, uma tentativa dos cristãos de retomar a Terra Santa e Jerusalém; mas isso é um erro. O Imperador Aleixo Comneno fez então o seu famoso apelo ao Papa, não para libertar Jerusalém, mas para expulsar os Turcos das suas portas, para libertar os enormes territórios cristãos na Ásia Menor, que tinham sido tão recentemente devastados e anexados pelos seguidores do crescente. É certo, naturalmente, que os turcos, que também tinham assumido o controlo da Síria/Palestina, impuseram um regime bárbaro naquela região; e que os sofrimentos dos peregrinos cristãos, bem como das populações cristãs nativas, descritos de forma tão expressiva por Pedro, o Eremita, e outros, proporcionaram um poderoso ímpeto emocional ao movimento cruzado entre os europeus comuns; mas o alívio dos peregrinos não era — pelo menos para começar — o principal objectivo dos cruzados. No entanto, a natureza bárbara das acções turcas na Palestina era um microcosmo do seu comportamento em todas as regiões cristãs que conquistaram, e a natureza do seu domínio em todo o Próximo Oriente é descrita por Gibbon com a sua característica eloquência:

“Os cristãos orientais e os peregrinos latinos deploravam uma revolução que, em vez do governo regular e da antiga aliança dos califas, impunha sobre os seus pescoços o jugo de ferro dos estrangeiros do norte. Na sua corte e acampamento, o grande sultão tinha adoptado em algum grau as artes e costumes da Pérsia; mas o corpo da nação turca, e muito especialmente as tribos pastoris, ainda respirava a ferocidade do deserto. De Niceia a Jerusalém, os países ocidentais da Ásia eram um cenário de hostilidade estrangeira e doméstica; e os pastores da Palestina, que detinham um domínio precário numa fronteira duvidosa, não tinham tempo nem capacidade para aguardar os lentos lucros da liberdade comercial e religiosa. Os peregrinos, que, através de inúmeros perigos, chegaram às portas de Jerusalém, foram vítimas de rapina privada ou de opressão pública, e muitas vezes sucumbiram à pressão da fome e da doença, antes mesmo de lhes ser permitido saudar o santo sepulcro. Um espírito de barbárie nativa, ou de zelo recente, levou os turcomanos a insultar o clero de todas as seitas; o patriarca foi arrastado pelos cabelos pela calçada e atirado para uma masmorra, para extorquir um resgate do seu rebanho; e o culto divino na Igreja da Ressurreição foi frequentemente perturbado pela rudeza selvagem dos seus senhores.”(Declínio e Queda, Ibidem)

Os camponeses comuns da Europa podem não ter tido plena consciência do perigo vindo do Oriente, mas as classes dominantes e a Igreja não podiam deixar de estar alarmadas. No entanto, mesmo que os camponeses e artesãos da Europa pouco soubessem sobre a Anatólia, teriam certamente algum conhecimento da ameaça muçulmana. A sugestão de Marcus Bull de que não sabiam de nada é insustentável. Os avanços de Abderramão III e Almançor pelo norte de Espanha nos últimos anos do século X terão enviado uma enxurrada de refugiados cristãos para o sul de França; e os ataques, que se prolongaram até ao século XI, terão levado refugiados para o centro e norte do reino dos francos. Estas pessoas teriam disseminado o conhecimento desse avanço por toda a Europa Ocidental. É certo que os camponeses e os trabalhadores manuais teriam uma compreensão muito imperfeita do islamismo e daquilo em que os muçulmanos realmente acreditavam; mas não é esse o ponto: eles sabiam o suficiente para perceber que o islão era inimigo do cristianismo; que travavam guerras contra os não combatentes e escravizavam mulheres e crianças, e que tinham conquistado quase toda a Península Ibérica e ameaçado a França, já para não falar no comércio do Mediterrâneo, que era perturbado todos os anos por piratas e guerreiros originários do Levante.

E este é um ponto que é necessário sublinhar vezes sem conta: a realidade é que, longe de ser pacífico, nos últimos anos do século X o Islão estava novamente em marcha. Os exércitos muçulmanos travaram guerras de conquista contra os infiéis de uma ponta à outra do mundo islâmico; do Cabo da Roca à costa ocidental da Índia.

 

 

Uma estranha repetição de eventos e protagonistas.

Os reinos cristãos da Arménia, Geórgia e Bizâncio estavam ameaçados de extinção, e os exércitos muçulmanos lutaram com os cristãos na Sicília e noutras terras mediterrânicas. Muitos aspectos deste novo impulso islâmico, particularmente os que ocorreram por volta do início do século XI na Península Ibérica e na Índia, lembram estranhamente a expansão islâmica anterior, do século VIII, de tal forma que poderiam até levar o observador casual a perguntar-se se o nascimento do islamismo foi de alguma forma mal datado e movido vários séculos para o passado. Assim, por exemplo, somos informados de que a principal invasão islâmica da Índia começou com as conquistas de Mahmud de Ghazni, um príncipe de língua turca radicado no Afeganistão, que lançou uma série de 17 campanhas no norte da Índia. Estas tiveram início em 1001 e terminaram em 1026, apenas quatro anos antes da sua morte; uma série de campanhas, devemos observar, que provocaram imensa destruição e perda de vidas no país. Na década de 1020, Mahmud governou um império que incluía grande parte do Vale do Indo, do Afeganistão e da Pérsia. No entanto, estas conquistas, no início do século XI, parecem fazer eco das de Muhammed bin Qasim, três séculos antes, que criou um Império Islâmico aproximadamente na mesma região (por volta de 710).

É também estranho que o nome de Mahmud de Ghazni pouco difira do do seu antecessor. Apenas o “n” em Ghazni o diferencia de Qasim, palavra que poderia ser igualmente escrita como Qasmi.

No extremo ocidental do mundo islâmico, encontramos o mesmo fenómeno. “No século X”, diz Runciman, “os muçulmanos de Espanha representavam uma ameaça muito real para a cristandade”.5 Sob Abderramão III (912-961), os seguidores de Maomé encontraram um líder que prometia repetir os sucessos do século VIII. Como fundador do Califado de Córdova, presidiu a uma nova era de esplendor e poder militar. As suas forças combateram os cristãos a norte, e a fronteira entre as duas religiões foi marcada pelas batalhas que travou. A mais decisiva delas foi em Simancas (939), entre Salamanca e Valladolid, no rio Douro, onde foi detido. Estas eram áreas que tinham sido invadidas pelos muçulmanos dois séculos antes, embora os cristãos aparentemente as tivessem retomado entretanto. Em muitos aspectos, Abderramão III assemelha-se ao seu antepassado e homónimo Abderramão I, que conquistou estas áreas no século VIII. E este novo impulso conquistador continuou com Almançor (980-1002), cuja trajectória levaria o poder muçulmano a envolver novamente toda a Espanha, incluindo o extremo norte. Incendiava Leão, Barcelona e Santiago de Compostela e, imitando os seus antecessores muçulmanos quase três séculos antes, avançava sobre os Pirenéus. Dizem-nos que, na época de Almançor, “nunca os cristãos se encontraram numa posição tão crítica”.6

Foram os ataques de Almançor que finalmente incitaram a Europa cristã a empreender a Reconquista, iniciada com as campanhas de Sancho III (chamado ‘o Grande’) de Navarra e do barão normando Roger de Tony na década de 1020. No entanto, estes acontecimentos fazem lembrar o início da Reconquista, com a vitória de Dom Pelayo em Covadonga por volta de 718.

O leitor poderá perguntar-se por que razão este “renascimento” da conquista islâmica no século XI parece tão estranhamente semelhante às conquistas islâmicas dos séculos VII e VIII. Este é, de facto, um ponto que deve ser discutido, mas não aqui e agora. Porque o que este artigo pretende realçar é que, ao contrário do que se pensa, os séculos X e XI constituem um período de expansão em grande escala do Islão, uma expansão sentida ao longo de toda a fronteira com a Cristandade. As Cruzadas fizeram claramente parte de uma tentativa de conter esta agressão.

 

 

__________________
1 Marcus Bull, “Origins”, in Jonathan Riley-Smith (org.) The Oxford History of the Crusades, p. 19
2 Steven Runciman, The History of the Crusades Vol. 1 (Cambridge, 1951) p. 61
3 Edward Gibbon, Declínio e Queda, Cap. 57 (Difusão Cultural)
4 Bruce Lenman (org.) Chambers Dictionary of World History (Londres, 2000) p. 585
5 Runciman, op cit. p. 89
6 Louis Bertrand, The History of Spain (2ª ed. Londres, 1945), p. 57