Version 2.0 – Garbage
Os Garbage não envelheceram bem, é verdade. Mas esta não é a lista dos discos que envelheceram bem, mas sim a lista dos discos da minha vida e “Version 2.0” tem que constar, porque o pop aveludado, meio decadente e deveras diletante desta banda fazia absolutamente parte da grafonola ideal do fim dos anos 90. E este disco está repleto de malhas, dançáveis e renegadas, que arrendaram para sempre uns milímetros de residência no congestionado e caótico imobiliário da minha memória timpânica. Next.
International Velvet – Catatonia
Entra na discoteca da minha vida a galesa Cerys Matthew, proprietária de uma das mais belas e texturadas vozes dos anos 90. “International Velvet”, o segundo disco dos Catatonia, é completamente um espelho do rock que se fazia na altura: vibrante e sensual, vociferante e confessional, tentando o equilíbrio impossível entre a rebeldia e a fome de fama.
O vigor lírico das cordas vocais e dos poemas de Cerys, e o poder libertador da guitarra de Mark Roberts preencheram uma boa parte da dimensão acústica dos meus dias de fim de século. E é com alguma nostalgia que volto a ouvir estas explosões de talento e energia criativa.
Uma banda muito minha. Que eu adorava.
Prolonging The Magic – Cake
Os croonies do rock and roll atacam pela terceira vez em 1998: “Prolonging The Magic” é um ensaio cool, frank sinatrista, sobre o destino do pop rock alternativo. Uma piada privada, que só consegues entender se perceberes que o maior êxito dos Cake até aqui tinha sido um cover da Gloria Gaynor.
Embora neste caso seja fácil escolher o melhor disco da banda, é porém excruciante eleger uma música para a caixa de comentários, porque este disco encerra uma porrada de temas realmente poderosos, esplendidamente orquestrados e carregadinhos da ironia que é característica desta malta da Califórnia.
Estou a ouvir este magnífico disco e a pensar para comigo que os últimos anos do século XX foram musicalmente riquíssimos. E algo ingénuos. E uma coisa tem a ver com a outra.
Disco iniciático.
Gran Turismo, The Cardigans
Ainda na senda do fabuloso ano de 1998, chamo ao palco uma das minhas bandas pop favoritas de sempre e para sempre: The Cardigans. Se a Suécia foi capaz de parir qualquer coisa de decente depois dos Abba, foram estes cinco magníficos. Nina Persson, a vocalista fatalista, nasceu com o rabiosque virado para a lua, nitidamente, porque, para além de ser um borracho de cair para o lado, e de se apresentar como competente escrevinhadora de rimas, é senhora de uma voz cujo poder imenso está entre o erotismo e o pudor, entre o desespero e o apogeu romântico, num festival lírico capaz de arrepiar os pelos da nuca a qualquer eunuco. Mais a mais, podia contar com uma orquestra de bolso à altura, liderada por Peter Svensson, músico completo, produtor, compositor e géniozinho discreto que se entretém hoje em dia a escrever canções para que certos artistas mainstream, que nem nomeio porque são meio obscenos, ganhem grammys com fartura. Os próprios The Cardigans ganharam 4 destes infames prémios, entre muitos outros prémios de duvidoso mérito, o que constitui talvez o seu único defeito.
“Gran Turismo”, o quarto dos 6 trabalhos de estúdio, é um daqueles discos encantados, abençoados por deus e lindíssimos por natureza, concebidos num máximo momento de inspiração e que vivem, por isso, para sempre. O que não é fácil, considerando que se trata de um trabalho de grande simplicidade, sem pretensões nenhumas nem gorduras de ambição desmedida. “Gran Turismo” é exactamente e apenas aquilo que quer ser: um descomprometido – mas eloquente – exercício de música popular.
E a prova da abismal competência dos The Cardigans é que podemos ouvi-los 22 anos depois sem correr o risco da decepção: continuam tão contemporâneos como eram. E elegantes como sempre foram.
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