Andamos há anos a falar do caso Epstein. Tráfico humano, tortura, abuso, canibalismo. A enumeração cresce como um catálogo de horrores premium. Em paralelo, pessoas são presas por ideias delirantes e inofensivas. Não é um paradoxo; é um padrão.

Todo o padrão exige uma narrativa que o torne suportável.

Para sustentar tudo isto, Epstein teria de ser o maior génio maligno da história. Um vilão absoluto, omnipresente, capaz de concentrar em si todo o mal do mundo contemporâneo. Conveniente, não é?

O lançamento de ficheiros, afinal, parece mais um experimento sociológico do que um ato de justiça. Era suposto haver detenções, investigações sérias, consequências reais. Mas isso não acontece. Tudo permanece rigorosamente igual, com uma diferença essencial: o público vai-se habituando à barbárie.

Enquanto isso, outras dinâmicas continuam a operar sem pedir licença. Guerras transformam-se em conflitos de desgaste, já não como escândalo moral, mas como rotina industrial. Orçamentos militares crescem, contratos são assinados, economias reorganizam-se em torno da guerra permanente. Não é o fim do conflito que está em jogo, é a sua normalização.

Essa normalização não é abstrata. Tem geografia, cronologia e efeitos concretos.

No Médio Oriente, a destruição em Gaza dá lugar ao reposicionamento diplomático. O horror já cumpriu a sua função simbólica; agora discutem-se alianças, linhas vermelhas e custos políticos aceitáveis. No Mar Vermelho, ataques a navios comerciais alteram rotas marítimas, encarecem fretes e repercutem-se silenciosamente no preço da energia e dos bens essenciais. O impacto não surge em imagens de devastação, mas no custo final das coisas mais banais. O caos torna-se técnico, invisível, administrável.

As grandes decisões não vêm acompanhadas de choque. Chegam embrulhadas em linguagem económica, em ajustes “necessários”, em medidas “inevitáveis”. Bancos centrais normalizam juros elevados, Estados acumulam dívida e empurram problemas para a frente. Em paralelo, avança uma desdolarização discreta, feita de acordos bilaterais, liquidações fora do dólar e reconfiguração silenciosa das reservas. A austeridade não é anunciada, é introduzida por osmose.

O poder desloca-se silenciosamente para estruturas financeiras e corporativas que não concorrem a eleições, mas condicionam governos inteiros. Crises deixam de ser exceção e passam a ser método. Cada choque concentra mais capital, reduz mais escolhas, elimina mais alternativas. Nada disto exige espetáculo. Pelo contrário, funciona melhor longe dele.

É neste contexto que Epstein cumpre o seu papel perfeito.

A elite é obrigada a admitir que frequentou Epstein. O que não admite é ter visto, sabido ou participado em qualquer horror. Nenhum percebeu nada. Nenhum suspeitou. Nenhum esteve envolvido. Um milagre estatístico de cegueira coletiva.

Epstein torna-se assim uma personagem ideal. Morto, silencioso, incapaz de se defender, serve de recipiente para tudo o que nos choca e indigna. Cabe nele o tráfico humano global, as elites corruptas, os rituais obscuros, as perversões inimagináveis. Quanto maior o horror, mais sólida parece a narrativa. E quanto mais sólida a narrativa, menos necessidade há de olhar para os sistemas que a permitem e que continuam intactos.

Até Peter Thiel o consultou sobre negócios e economia. Perante isto, Epstein deixa de ser apenas criminoso: transforma-se em génio, estratega, oráculo, uma figura tão extraordinária que parece explicar tudo sozinha e, por isso mesmo, não exige mudanças estruturais.

O horror já não convoca responsabilidade; exige consumo. Quando já não perguntamos “como isto foi possível?”, mas apenas “que detalhes ainda não conhecemos?”. O mal transforma-se em conteúdo. O sofrimento vira matéria-prima.

As pessoas pedem mais. Querem os pormenores, as descrições, os bastidores. Não para interromper nada, apenas para ver melhor. Não é indignação moral; é voyeurismo com verniz de consciência social. Um verdadeiro show de horrores, com episódios, temporadas e cliffhangers.

Multiplicam-se podcasts, vídeos, threads intermináveis, revelações recicladas, listas misteriosas que nunca produzem consequências reais. O choque substitui a análise. A repulsa vira adrenalina. A sensação de “acesso à verdade” ocupa o lugar de qualquer ação concreta.

Entretanto, decisões irreversíveis passam sem ruído. Conflitos redefinem fronteiras económicas. Sistemas de vigilância e controlo expandem-se. O mundo fragmenta-se em blocos incompatíveis. Mas isso exige atenção prolongada, pensamento frio, cansaço cognitivo. O horror espetacular é mais fácil de consumir.

A banalização do mal revela-se altamente proveitosa para o sistema. As pessoas estão ocupadas demais, saturadas, exaustas. Não há tempo para questionar. E, mesmo que houvesse, tudo parece permanecer igual. No fim, habituamo-nos.

Talvez o verdadeiro escândalo não seja o horror existir. A história humana nunca foi propriamente um conto de fadas. O escândalo é termos transformado o horror em entretenimento. E ainda pedirmos mais.

Consumir tudo isto com avidez e chamar-lhe consciência talvez seja o verdadeiro sintoma. O problema não é a falta de informação. É o excesso de apetite.

 

 

SILVANA LAGOAS
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Silvana Lagoas é mãe a tempo inteiro, autodidata, livre pensadora.
As opiniões da autora não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.