Esta é uma daquelas situações em que não tenho nenhum problema em dizer: I told you so.
Corria o ano de 2018 quando adverti, no Blogville, que o projecto Marte de Elon Musk era um embuste (o post serviu depois de base para um artigo mais extenso publicado no Contra em 2022). Nesse texto de 2018 afirmava:
A SpaceX nunca explicou como é que vai reduzir os custos da aventura cinco milhões de vezes, como afirma que é necessário para que o projecto seja viável. Nunca explicou como tenciona proteger os astronautas da radiação com que vão ser atingidos durante as viagens. Nunca explicou como é que vai criar energia e inventar as estruturas para proteger os colonos das temperaturas extremas do planeta e para criar ambientes pressurizados e ricos em oxigénio onde eles possam viver. Nunca explicou como é que vai alimentar esta gente toda. Como é que vai ter água para dar de beber a esta gente toda. Nunca explicou como é que esta gente toda vai procriar ou sequer sobreviver num ambiente super hostil e com pressões gravíticas radicalmente diferentes das que existem na Terra (ninguém sabe ao certo como se desenrolará um parto num planeta que exerce um terço da pressão gravítica da Terra). Nunca explicou como é que vai conseguir lançar mais de mil missões em cerca de 60 anos. Nunca explicou onde é que vai arranjar o diabo do dinheiro para tudo isto, sendo que esta será, de longe, a mais cara iniciativa da história da humanidade e sendo que nem sequer se percebe quais as riquezas que o planeta oferece para justificar o investimento.
O único trunfo que a SpaceX tem na sua cómico-trágica manga é o facto de ter um foguetão que é capaz de sair da atmosfera e entrar outra vez na atmosfera para voltar a sair dela e regressar outra vez e assim sucessivamente até que entretanto alguma coisa corra mal. O foguetão reutilizável é uma boa ideia. Mas, gentil leitor, não resolve grande coisa se o teu sonho for passar um fim de semana nas montanhas rochosas do Planeta Vermelho. E não resolve mesmo nada se a tua ambição for a que Musk diz ser a dele: a colonização massiva de Marte no espaço de um século.
Na verdade, o projecto Marte de Elon Musk não tem qualquer sustentabilidade técnica, contabilística ou científica. É uma mera manobra publicitária, como a a maior parte das iniciativas empresariais do milionário canadiano. É um belo PowerPoint. Mas é apenas isso.
Pois, bem, o rapaz acaba de mover os postes da baliza espacial para qualquer coisa um bocadinho mais realista: uma missão à Lua. Não tripulada.
Uau, que façanha.
Yeah, yeah, yeah. Yawn. The Lord of Bullshit. It’s Mars, Mars, Mars! No, it’s the Moon. Moon, Moon! No, it’s whatever I think of tomorrow. Just keep the money rolling and the government contracts. I’m a genius, you know. My mother said. https://t.co/oMyuy8HGWd
— David Icke (@davidicke) February 8, 2026
Alguém que diga ao homem que, há quase sessenta anos atrás, 60, com computadores com uma capacidade de processamento muito inferior à de qualquer telemóvel contemporâneo (a chave do teu carro é mais esperta), o programa Apollo transportou seres humanos para o satélite natural da Terra e até os trouxe de volta e tudo (teorias da conspiração não tão malucas como isso à parte).
Então, mas a prioridade não era salvar a humanidade do extermínio, com um colónia no Planeta Vermelho? Então não era tão fácil e exequível e rentável e tudo, despachar a malta para Marte?
Então não íamos colonizar o território, como se do faroeste se tratasse? E as missões tripuladas não iam começar já em 2029?
Afinal não. Não é já e não é tão cedo. Desconfio bem que para Musk será nunca. A não ser que viva uns duzentos anos, ou assim.
Desconfio outrossim que provavelmente até o novo e incomensuravelmente mais modesto projecto Lua vai sair dos carris logo que começar a ser tentado, tal e qual o programa Artemis da NASA e já para nem falar do programa literalmente lunático do regime Trump.
Gave up on Mars, have you? Good luck with this new challenge. You’re going to need it.
— ContraCultura (@Conta_do_Contra) February 8, 2026
É mais que óbvio que Elon Musk não está interessado na Lua nem em Marte nem na sobrevivência da espécie humana em caso de armagedão. É mais que óbvio que está interessado apenas em enganar os crédulos, captar capital, valorizar acções, acumular poder.
Musk não é diferente de qualquer outro bilionário de Silicon Valley. Limita-se a usar métodos diferentes. Mas os objectivos são os mesmos. E as mentiras, e a fraude, e o jogo do faz de conta que é próprio do Regime Pinóquio, de que ele é militante membro, fazem parte do esquema, claro.
Só não vê quem não quer ver.
Paulo Hasse Paixão
Publisher . ContraCultura
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