Donald Trump anunciou em Janeiro que as taxas de juro dos cartões de crédito nos EUA se devem limitar a 10%, no período mínimo de um ano. A medida devia ser implementada para todo o sempre, mas ainda assim, não deixa de ser assertiva.
O anúncio que o presidente norte-americano publicou nas redes sociais afirmava que a restrição entraria em vigor a 20 de Janeiro, mas não fornecia detalhes sobre como o governo a implementaria ou garantiria que as empresas a cumpririam, rezando assim:
“Por favor, estejam cientes de que não permitiremos mais que o público americano seja ‘explorado’ por empresas de cartões de crédito que cobram taxas de juro de 20% a 30%, ou até mais, que se alastraram sem impedimentos durante a administração de Joe Biden. A data de 20 de Janeiro coincidirá com o primeiro aniversário da histórica e muito bem-sucedida administração Trump.”
O texto seria verdadeiro se a medida não fosse restringida a um ano apenas, e seria muito menos constrangedor se não tivesse enxertada de egotismo.
Durante campanha presidencial de 2024, Trump prometeu que iria implementar este limite, mas sem prazo temporal, uma vez que a dívida de cartão de crédito nos Estados Unidos atingiu uns impressionantes 1,17 triliões de dólares no terceiro trimestre de 2024, crescendo exponencialmente de 770 biliões de dólares no primeiro trimestre de 2021.
Depois de não terem visto esta promessa de campanha ser cumprida, os senadores Bernie Sanders e Josh Hawley apresentaram um projecto de lei bipartidário em Fevereiro de 2025 para limitar as taxas de juro dos cartões de crédito a 10% durante os próximos cinco anos.
Os legisladores escreveram na altura, num comunicado que anunciava o projecto-lei:
“Quando as grandes instituições financeiras cobram juros acima de 25% nos cartões de crédito, não estão no negócio de disponibilizar crédito. Estão a praticar extorsão e agiotagem. Não podemos continuar a permitir que os grandes bancos lucrem enormemente explorando o povo americano. Esta legislação proporcionará às famílias trabalhadoras que lutam para pagar as suas contas o alívio financeiro de que tanto necessitam.”
Com forte oposição dos congressistas financiados pela mafia de Wall Street, o projecto não avançou.
Apenas um dia antes do anúncio de Trump, Sanders criticou o presidente por não cumprir a sua promessa de campanha.
“Trump prometeu limitar as taxas de juro dos cartões de crédito a 10% e impedir que Wall Street saísse impune. Em vez disso, desregulamentou os grandes bancos que cobram até 30% de juros nos cartões de crédito.”
Horas depois, o presidente fez o anúncio, atraindo críticas do gestor de fundos e apoiante de Trump, Bill Ackman. Ackman publicou inicialmente, e depois apagou, um tweet a chamar o anúncio de Trump “um erro” e a alertar que as empresas de cartões de crédito poderiam cancelar os cartões dos consumidores se não conseguissem cobrar taxas “suficientemente adequadas para cobrir as perdas e obter um retorno adequado do capital próprio”, acrescentando:
“Penso que o objectivo do presidente Donald Trump de reduzir as taxas de juro dos cartões de crédito é válido e importante. A minha preocupação com o limite de 10% é que levará inevitavelmente ao cancelamento de milhões de cartões de crédito dos americanos, uma vez que as empresas de cartões de crédito perderão a capacidade de compensar adequadamente o risco de crédito subprime.”
Tal como aconteceu com a proposta de Sanders e Hawley, a oposição veio também do Bank Policy Institute, da American Bankers Association, da Consumer Bankers Association, do Financial Services Forum e da Independent Community Bankers of America, que emitiram uma declaração conjunta sobre o anúncio:
“Partilhamos o objectivo do presidente de ajudar os americanos a terem acesso a crédito mais acessível. Ao mesmo tempo, as evidências mostram que um limite de 10% na taxa de juro reduziria a disponibilidade de crédito e seria devastador para milhões de famílias americanas e proprietários de pequenas empresas que dependem e valorizam os seus cartões de crédito, precisamente os consumidores que esta proposta pretende ajudar. A ser aprovado, este limite apenas levaria os consumidores a procurar alternativas menos regulamentadas e mais dispendiosas.”
A preocupação dos senhores do universo com as famílias americanas e as pequenas empresas é de facto comovedora.
Cambada de sanguessugas.
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