
Qualquer pessoa que defenda uma guerra de mudança de regime com o Irão deve lembrar-se que os Estados Unidos têm um historial terrível com projectos semelhantes. O que está a acontecer na Síria comprova isso mesmo.
Washington passou anos a insistir que o presidente sírio, Bashar al-Assad, tinha de sair, pintando falsamente a deposição do médico que se tornou político como um interesse fundamental dos Estados Unidos. Assad tinha uma relação próxima com Vladimir Putin, pelo que os neoconservadores ansiavam pela sua saída.
O estabelecimento imperialista norte-americano conseguiu o que pretendia em 2024, quando os rebeldes sírios, auxiliados pela CIA e outros agentes destabilizadores estrangeiros, afastaram Assad do poder.
A operação de decapitação foi celebrada como uma vitória gloriosa; uma vitória para os amantes da democracia e para os combatentes pela liberdade em todo o lado. O tirano caiu.
Restava saber o que iria acontecer a seguir. Quem ocuparia o lugar de Assad? A resposta foi o ex-terrorista da Al-Qaeda, Ahmed al-Sharaa. Ou seja: A “vitória” dos Estados Unidos foi a instalação de um seguidor de Bin Laden.
Como imagina que as coisas tenham evoluído desde que Sharaa assumiu o cargo? Os EUA e a Síria tornaram-se subitamente aliados na luta pela verdade e pela justiça? É aí que entra a notícia desta semana.
O senador Lindsey Graham e o falcão Mike Pompeo vieram a público afirmar que os Estados Unidos devem “proteger os curdos”.
Mas deviam proteger os curdos contra quem e por que razão isso é importante? Porque os curdos, um grupo étnico iraniano sediado na Síria, cuja segurança importa mais a Washington do que a fronteira dos EUA com o México, estavam em sério perigo de serem exterminados por… Ahmed al-Sharaa. O antigo terrorista, que foi recebido na Casa Branca no ano passado com o tapete vermelho e a pompa e circunstância exclusiva dos grandes estadistas, ordenou recentemente ao seu exército que conquistasse o território controlado pelas Forças Democráticas da Síria, aliadas dos EUA e lideradas pelos curdos.
É assim que a máquina de guerra norte-americana funciona. Primeiro, os Estados Unidos precisam de intervir na Síria porque Bashar al-Assad é um vilão inominável. Depois, quando o vilão sai do poder, a CIA coloca no trono um vilão ainda pior, para que o senador Graham e os seus aliados do Estado profundo e do complexo militar-industrial insistam em novas intervenções no território. Washington apoia Sharaa porque não é Assad, mas agora precisa de lutar contra ele porque se opõe aos curdos, que são um povo impoluto que é preciso salvar. Até que não sejam e um dia vamos ver Mike Pompeo a afirmar que esta tribo também precisa de ser combatida em nome sabe-se lá de que argumentos pseudo-morais ou pseudo-estratégicos. Aconteça o que acontecer, a conclusão é sempre a mesma: os Estados Unidos precisam de continuar a envolver-se em conflitos no estrangeiro. Num movimento perpétuo.
Qualquer pessoa lúcida consegue perceber que esta é a estratégia do caos. Um dia os EUA estão do lado X, no outro, do lado Y, e antes que nos apercebamos, todo o Médio Oriente está armado até aos dentes para lutar entre si e até contra os Estados Unidos, por razões que nada servem o interesse do povo americano (nem dos povos do Médio Oriente, já agora).
Esta história é relevante para a questão iraniana porque mostra a obscena complexidade de uma mudança de regime. Tanto mais que o Irão não é a Síria, não é o Afeganistão, nem é o Iraque. É a grande potência do Médio Oriente, um país cujo acidentado e inóspito território é três vezes maior do que França, albergando quase 100 milhões de habitantes. Não há forma de saber como terminaria a deposição do aiatolá, por mais confiante que Washington se mostre. E se a nova liderança da República Islâmica se revelar pior do que a actual, como aconteceu com a Síria? Os neoconservadores estão a arriscar, para além de um desastre militar, para além de uma crise petrolífera, um futuro ainda mais incerto.
Ah, e os curdos? Parece que vão ficar bem. Chegaram a um acordo esta manhã para se unirem ao governo sírio. Agora, Lindsey Graham pode dormir descansado. Embora o mais certo é que tenha insónias, a pensar qual será a sua próxima desculpa para mandar americanos morrer no estrangeiro.
AFONSO BELISÁRIO
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Oficial fuzileiro (RD) . Polemista . Português de Sagres
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.
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