Nota prévia: paixão em vez de pretensão.

Iniciou aqui a publicação de uma série de artigos sobre simulação de corridas, que não têm qualquer pretensão a servirem de guia ou referência de como ser mais rápido ou mais imersivo na competição virtual. Para isso, não faltam canais de pilotos virtuais e virtuosos como por exemplo este, ou este, ou ainda este, que é de loucos.

Estes conteúdos servem apenas como partilha de uma paixão antiga, e também como pretexto para falar de automóveis e de competição automóvel, já que, como é o caso deste artigo, aproveitarei sempre para dar o devido contexto real, ao fingimento digital.

Os jogos que mais frequento são o Gran-Turismo 7, o “velhinho” Assetto Corsa, o Assetto Corsa Competizione, o Dirt Rally 2.0 e o EA Sports WRC. O equipamento que uso é integralmente o da linha básica da Fanatec: A wheel base CSL Elite, dois volantes dos mais baratos, uns pedais também de preço popular (que têm aliás que ser substituídos em breve), o shifter e o travão de mão. A consola é a PS5 e até o banco é um Playseat vulgaríssimo.

Ninguém está aqui armado em mestre, ok?

 

 

Ainda assim, esta série também serve para provar que pilotos virtuais muito amadores e já na faixa etária dos veteranos, podem, fazendo uso da experiência e da carolice, em certos casos, mostrarem-se razoavelmente competitivos, principalmente nas modalidades de contra-relógio.

Alguns dos conteúdos desta série, que irei publicar este ano, principalmente os relacionados com os ralis, foram gravados em 2022, pelo que as classificações obtidas na altura podem estar desactualizadas, já que outros pilotos fizeram com certeza tempos inferiores entretanto. Não é o caso deste artigo, cuja performance foi gravada na semana passada,

 

Grupo B: o trágico apogeu do Mundial de Ralis.

Apesar do WRC ser uma competição automóvel relativamente recente – a primeira época data de 1973 – foi logo entre 1983 e 1986 que assistimos ao apogeu desta modalidade automobilística. Nesses 4 insanos anos, de que as pessoas com menos de 45 ou 50 aniversários cumpridos provavelmente não guardam memória mas que é um momento sagrado para todos os amantes do automobilismo, correram os carros mais potentes da história dos ralis, conduzidos por alguns do mais hábeis e corajosos pilotos de sempre, verdadeiras lendas como Walter Rohl (o meu favorito de sempre), Markku Alén, Ari Vatanen, Hannu Mikkola, Michelle Mouton, Henri Toivonen e Stig Blomqvist, entre outros. Estou, claro, a falar do épico Grupo B.

Os automóveis desta era eram bólides assustadores, com 400 a 800 cavalos de potência, turbo-compressores sem restrições, electrónica incipiente e com pesos entre os 900 e os 1200 quilos. Eis alguns deles:

 

Audi Quattro S1
Porsche 911 SC RS
Renault 5 Turbo
Lancia 037
Peugeot 205 Turbo 16 E2
Metro 6R4
Ford RS200

 

Para além de serem belas e potentes, estas máquinas infernais produziam um som apocalíptico que só quem as viu passar ao vivo consegue realizar. Se um automóvel já foi um instrumento de intimidação, foi de certeza um automóvel Grupo B do mundial de ralis.

Apesar disso – e porque vivíamos tempos muito menos securitários do que vivemos hoje (nem se compara, na verdade), os ralis desta época eram uma espécie de tourada radical: as multidões juntavam-se no limite das estradas e, muitas vezes, ocupavam-nas completamente, afastando-se in extremis para que estes monstros passassem a velocidades estonteantes. Escusado será dizer que o Rali de Portugal Vinho do Porto era o máximo exemplo desta loucura suicidária. Em Sintra como em Fafe, em Arganil como em Lousã, a malta desafiava o bom senso como se amanhã fosse um dia que não valia a pena viver. Este eloquente documento vídeo retrata bem o que se passava na altura:

 

 

É claro que esta mistura explosiva de automóveis dantescos e multidões ensandecidas, ainda que consubstanciando um espectáculo absolutamente inigualável, não podia acabar bem. Em 1985 Attilio Bettega não sobreviveu à colisão do seu Lancia 037 com uma árvore, num troço do Rali da Córsega. Um ano depois, na Lagoa Azul, em Sintra, Joaquim Santos, ao tentar evitar um grupo de fãs que pulavam alegremente no meio da estrada, perde o controlo do RS200 e acaba por atropelar dezenas de pessoas, ferindo mais de trinta e matando 3 (eu estava lá, 4 curvas mais à frente). Ainda em 1986 e outra vez no rali da Córsega, o grande Henri Toivonen e o seu co-piloto são projectados por uma ravina a baixo. O carro parou virado ao contrário, já meio destruído, incendiou-se e matou os dois. Era o fim do Grupo B.

Mas enquanto durou, foi glorioso. Até porque sem risco não há glória, como parecem ignorar hoje em dia os patrões da FIA e não só. E é para celebrar estes heróis e as suas espantosas máquinas, que me lembrei de incluir uma revisitação do Grupo B neste primeiro episódio de uma série relacionada com os ralis, no contexto da simulação de corridas.

 

Em Fafe, com o Audi Quattro: um Avé Maria em cada curva, um Pai Nosso em cada salto.

Para dar uma ideia o mais realista possível do que é conduzir um Grupo B, escolhi o icónico Audi Sport Quatrro S1 (E2) de 1986, incluído no EA WRC, muito parecido com o automóvel com que Stig Blonqvist foi campeão do mundo dois anos antes.

 

 

E o palco eleito é o mítico troço de Fafe, do Rali de Portugal, que termina neste icónico salto, que ainda hoje é cumprido, mas sem seres humanos a servirem de rails:

 

 

O EA WRC dá-nos o troço integral, tal e qual ele é sem tirar nem por, na sua extensão de 11,3kms. Os primeiros sectores são mais rápidos, de gravilha civilizada, quase como uma pista de terra batida, embora a estrada esteja quase toda rodeada por muros e taludes, pelo que se cometeres um erro, já foste. Nesta fase, o ritmo é muito importante, pelo que convém uma condução fluída, de forma a manter a velocidade e o controlo. A segunda parte da prova é mais técnica, com ganchos, breves transições em asfalto, ravinas no limite da estrada e dois saltos enormes.

Seja como for e índices de dificuldade à parte, fazer este troço de Fafe é um prazer grande para quem gosta da simulação de corridas (já nem falo para quem o pode fazer na vida real) e um dos mais célebres troços do Mundial de Ralis, seguramente, dado o seu perfil alucinante e o seu venerando registo histórico.

 

 

Nem é preciso dizer que os carros do Grupo B são os mais difíceis de conduzir de todos os que são disponibilizados pelos jogos de ralis. O controlo de tracção é incipiente ou nulo; apesar das 4 rodas motrizes, temos sempre a sensação de que os travões não travam, de que as suspensões não suspendem, de que o motor destas bestas está ali para nos fazer sair da estrada o mais depressa possível. Para levar um troço até ao fim sem grandes e terminais incidentes temos que fazer um uso bastante parcimonioso do acelerador, começar a travar muito antes do que estamos habituados e, ainda assim, manter as rotações altas, para que o lag destes turbos de primeira e segunda geração não nos deixe a pastar na estrada. É complicado.

Mesmo na minha melhor tentativa, parece em certos momentos que vou devagar, outras vezes parece que estou aos comandos de um foguetão. O Audi Quattro, que não gosta muito do uso do travão de mão, sobrevira agora para subvirar depois. Erro trajectórias, hesito, arrisco, travo em excesso e cedo de mais, travo menos do que devia e demasiado tarde, é a loucura total do improviso, num constante rezar aos santos, embora consiga, por milagre, um troço limpo (ou quase limpo, porque no último gancho, já no derradeiro sector, meto a roda traseira direita fora da estrada), e acabo até por fazer, surpreendentemente, uma marca (6:34:325) que me coloca entre os 170 melhores do mundo.

Dadas as características da besta alemã e da pista a ultrapassar, tanto como o excelente trabalho que a CodeMasters desenvolveu para a EA Sports, a imersão é total, até porque, mesmo sabendo que estamos a brincar ao faz de conta, passei por momentos neste troço em que me assustei mesmo.

Boa viagem.