Pergunto-me, com alguma ironia e nenhuma ingenuidade: onde está, afinal, a famigerada “extrema-direita”? Quem a inventou, quem a define e com que autoridade moral? O que se vê não é um monstro saído dos anos 30, mas uma força que ousa defender valores patrióticos, tradicionais e identitários — precisamente aquilo que o globalismo amorfo e o relativismo militante da esquerda, do centro-esquerda e dos eternos progress-wokes não toleram porque lhes quebra o monopólio moral.
Durante mais de meio século vivemos numa paz podre, confortável, marcada pela alternância mecânica entre PS e PSD. O resultado está à vista: não foi apenas medíocre, foi desastroso. Não nego que houve algum crescimento, todavia anémico, sobretudo nos últimos anos, mas claramente insuficiente senão, mesmo, regressivo: a estagnação, o marasmo foi sempre a nota dominante. Um país sem ambição, sem rasgo e sem futuro, sempre adiado. Em vez de mudar o sistema, limitaram-se a geri-lo — e mal. Agora que se fala em ruptura, grita-se “perigo”.
Aqui surge a ironia maior: o povo português, tão desconfiado de aventuras, tornou-se refém do status quo. Não se mexe, não se arrisca, não se perturba. Mal por mal, que fiquem os mesmos. A aura mediocritas transformou-se em virtude cívica — e o PS, curiosamente, é o seu guardião mais zeloso.
Entramos, assim, numa campanha previsível e suja: de um lado, o candidato virtuoso, sereno, quase seráfico, símbolo do Portugal dos Pequenitos desde Abril; do outro, o demónio absoluto, encarnação de todos os males passados e futuros. Contra Ventura não haverá debate — apenas rótulos repetidos à exaustão: fascista, extremista, xenófobo, racista, antidemocrata. O objetivo não é convencer; é exorcizar. Portugal só poderá continuar tranquilo, medíocre e moralmente confortável depois de obliterado o “mal”.
Mas esta coreografia revela mais medo do que força. Não há hoje debate político normal em Portugal. Há a defesa cerrada de um regime que se sente ameaçado. Ventura não é tratado como adversário — é tratado como heresia. Não porque ponha em causa a democracia, mas porque expõe a nudez de um sistema feito de dependência, conformismo e silêncio.
Votar num candidato não equivale a subscrever uma ideologia cerrada nem a aceitar, sem reservas, a narrativa construída pelos seus adversários. Na maioria dos casos, o voto é uma opção imperfeita, tomada entre alternativas limitadas, guiada por prioridades concretas, descontentamento ou simples rejeição do que existe. Transformar esse gesto num rótulo de extremismo político é um exercício de preguiça intelectual.
A leitura que opõe “democratas esclarecidos” a “perigosos autoritários” é uma caricatura conveniente, não um retrato da realidade. Portugal não está cindido entre fascistas e antifascistas, nem a democracia depende, em estado de suspense, do voto de uma parcela do eleitorado.
Portugal não virou à direita; deslocou-se tanto para a esquerda que perdeu a noção de centro e até de bom senso. Defender regras, autoridade do Estado, controlo da imigração ou responsabilidade individual passou a ser “extremismo”. Já manter um Estado obeso, impostos sufocantes, salários baixos e uma economia dependente chama-se “moderação”.
O PS é o eixo deste regime; o PSD, o seu pilar alternante; a Iniciativa Liberal, uma promessa de disrupção que preferiu o conforto; o CDS, uma irrelevância cúmplice. Siglas diferentes, mesma lógica. Quando o sistema se sente ameaçado, juntam-se todos — não por patriotismo, mas por autopreservação. E isso não passa despercebido ao eleitor comum, que estranha ver figuras incompatíveis unidas no mesmo coro moralista.
Chamar “extrema-direita” a Ventura não é análise — é estratégia. Serve para interditar perguntas incómodas: quem vive do Estado? quem ganha com a imigração desregulada? quem paga a fatura? A acusação de fascismo é o cúmulo da ironia: fascismo é Estado total, censura e submissão do indivíduo — exatamente o que este regime foi construindo, em nome do bem.
A experiência italiana desmontou a farsa. Giorgia Meloni foi anunciada como catástrofe democrática. Governa. Nada aconteceu. Não houve ditadura, nem colapso. Houve autoridade política. E é isso que assusta.
No fim, a grande inversão é esta: quem calou durante décadas fala agora em liberdade. Os arquitetos da censura, do pensamento único e da perseguição ao dissenso descobrem subitamente a liberdade de expressão — não por convicção, mas por instinto de sobrevivência. O monopólio acabou, e o medo tornou-se visível.
E quando um regime responde com insultos em vez de argumentos, com rótulos em vez de debate, não demonstra virtude. Demonstra pânico.
FRANCISCO HENRIQUES DA SILVA
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Francisco Henriques da Silva é licenciado em História, diplomata e autor. Foi Director-geral de Assuntos Multilaterais no MNE e embaixador na Guiné-Bissau, Costa do Marfim, Índia, México e Hungria
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.
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