No contexto do seu Great Reset, Donald Trump está a tentar substituir a ONU (ou mais especificamente, o Conselho de Segurança da ONU) por uma organização que lhe seja ainda mais obediente, enquanto procura concomitantemente reduzir a influência do BRICS. Para esse efeito, o presidente norte-americano decidiu criar o “Conselho da Paz”, convidando um grupo alargado de líderes políticos no activo e na reforma para o integrarem, embora exigindo um bilião de dólares de caução a cada personalidade que decida aceitar o convite.
Inicialmente focada na reconstrução e gestão da Faixa de Gaza após o cessar-fogo no conflito Israel-Hamas, a ideia transcendeu rapidamente o âmbito da Palestina e tem ambições de actuar em conflitos globais, de acordo com os interesses americanos. Ou seja: será o ‘Conselho da Paz’ em certos casos, será o ‘Conselho da Guerra’ noutros.
De forma deveras característica, Trump autodenominou-se presidente vitalício do órgão, com poder de veto único e autoridade para convidar ou remover membros, e nomeou um Conselho Executivo fundador com figuras como Marco Rubio, o genro Jared Kushner, o amigo feito diplomata Steve Witkoff e Tony Blair, entre outras figuras do estabelecimento globalista.
Na lista de convidados que terão que pagar o tal bilião de dólares para aderir ao clube, encontramos figuras tão diversas como Lula da Silva, Javier Milei, Santiago Peña, Viktor Orbán, quase todos os líderes globalistas europeus, quase todos os líderes políticos do médio-oriente, vários líderes asiáticos (entre os quais Xi Jinping), o Papa Prevost, o presidente da Bielorússia, Alexander Lukashenko e… Vladimir Putin.
Putin, que, como outros convidados, não tem qualquer interesse na iniciativa, mas que também não quer ofender o ego monstruoso do actual inquilino da Casa Branca (há que dizer que o Czar tem no César de Queens o seu calcanhar de Aquiles), afirmou que aceitaria o convite desde que a quota bilionária fosse retirada dos bens russos que foram congelados pelo bloco ocidental.
A resposta do Kremlin é, do ponto de vista diplomático, genial, já que obrigaria os EUA a desbloquearem necessariamente esses activos, abrindo precedente para o seu retorno aos cofres russos. Por outro lado, caso a proposta não seja aceite pela Casa Branca, Moscovo terá sempre uma boa justificação para não fazer parte de uma organização que não foi propriamente criada com os seus interesses em vista.
Entre os convidados há também quem esteja a recusar ou a “avaliar” a proposta, como os chineses (obviamente), o Vaticano, a Espanha, a Alemanha, a França, o Reino Unido, os países nórdicos e os países do Báltico, que já perceberam que a ideia de Trump é substituir a ordem internacional pela desordem da Sala Oval e que são alérgicos a qualquer organização que possa eventualmente incluir Vladimir Putin.
O ContraCultura não tem qualquer simpatia pelas Nações Unidas e pelo seu Conselho de Segurança. Mas sendo até difícil inventar uma organização internacional mais nefasta que a sediada em Nova Iorque, é preciso reconhecer que um Conselho de Segurança alternativo, presidido por Donald Trump e assim completamente dominado pelos interesses luciferinos que representa (globalismo trans-humanista do eixo Wall Street-Silicon Valley, volição predadora do complexo militar e industrial americano, egotismo alucinado e pulsão imperialista do próprio presidente, etc.), seria muito provavelmente ainda mais prejudicial à saúde do mundo.
É até bem ilustrativo dos tempos que vivemos, em que a realidade é invariavelmente virada ao contrário em função das narrativas do poder, que a esta esperteza saloia da Casa Branca tenha sido dada a nomenclatura de ‘Conselho da Paz’. Porque na verdade o dito Conselho será tudo, menos pacífico.
Os dois alexandres do The Duran discutem o assunto, com a sensatez e a pertinência que os caracteriza.
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