ConnectedStereo MC’s

1992 é o ano de “Connected”, um disco que tem mesmo que constar desta discoteca, nem que seja porque alegrou loucamente as minhas noites entre o Bairro Alto e o Incógnito.
Os Stereo MC’s não são uma banda para levar muito a sério. Na verdade, o projecto nasce mais a propósito de uma editora que pretendia dar espaço ao hip hop barra house londrino – a Gee Street – do que outra coisa qualquer e podemos até chegar à conclusão de que é o acaso misturado com alguns ácidos e com algumas raves que correram menos mal que conduz à superficial glória de “Connected”. Ainda assim, o improviso de Rob Birch e companhia marcou uma época intimamente ligada à pista de dança e à pastilha alucinogénica e estes são afinal os mestres de cerimónias de uma noite sem cerimónias nenhumas. De uma noite volátil e interminável – feliz em certo sentido – mas que fazia da subsequente manhã um miserável inferno.

 

Dummy – Portishead

Não deixa de ser super porreiro reservar um bocadinho de cada dia para voltar a estas bandas todas e ouvir um bocadinho das suas óperas. E escrever um bocadinho sobre elas.

Exemplo máximo disto: Portishead. Ponho a tocar “Wandering Star” e fico logo todo arrepiado. Apetece-me logo fazer a estrada toda da madrugada com um disco apenas no cartão SD: “Dummy”, o primeiro da banda, saído à rua em 1994.

Na altura chamavam a isto Trip Hop, mas eu, que nunca fui grande fã de outras bandas de Trip Hop, desconfio que os Portishead não gostavam desse lugar no catálogo da cultura popular. Desconfio até que se estavam um bocado nas tintas para o catálogo. É que este disco é daqueles que, quando o ouves pela primeira vez, percebes rapidamente que estás perante qualquer coisa de fundamentalmente novo. Algo nunca experimentado. E que funciona, ainda por cima, mesmo que seja difícil de alinhar com as colunas que tens em casa porque os graves de estúdio dos Portishead são praticamente impossíveis. Também assinalavelmente improvável é a voz fantasmática de Beth Gibbons, que é capaz de te colocar numa câmara de tortura só para anunciar enfim, o paraíso ao condenado. Num caso como noutro, são exercícios praticados no gume afiado dos limites técnicos e criativos, onde só as obras de arte conseguem sobreviver.

Definição de disco de culto.

 

Yes – Morphine

Coliseu dos Recreios, algures na derradeira década do século passado. Estão uns quatro ou cinco amigos razoavelmente bebidos e fumados e apertados num camarote que ocuparam sem pagar. O concerto implica uma banda grande e dura de que já nem me lembro. Mas a banda de suporte e a razão de estarmos ali razoavelmente bebidos e fumados num camarote abusivamente ocupado é Morphine. Como os senhores chegam ao palco e desatam a fazer aquilo que fazem bem, explode uma moche gigantesca lá em baixo, na plateia. Em consequência, outra moche espoleta cá em cima no camarote, para que aconteça nos cinco minutos seguintes um momento épico e inesquecível na minha história universal da música ao vivo.

Os Morphine são uma espécie de meteoro juliano. Chegaram, estabeleceram o seu som e venceram. Ninguém estava a fazer nada parecido com o que eles faziam em 1992. Nem em 1993. Nem em 95, quando saiu o disco que é o meu preferido da banda: “Yes”. O cool jazzístico que vivia do criativo saxofone de Dana Colley e do baixo com super poderes de Billy Conway, é impossível de imitar (ou excessivamente arriscado) e o palco sonoro resultante não tem família na história do pop, se não me engano. Mais uma banda de três fulanos apenas, que fez música como se de uma orquestra se tratasse. Mas não: era só talento concentrado. E uma vontade minimal de fazer as coisas bem feitas. “Yes” é por isso, no meu juízo de amador, um disco muito próximo da perfeição. Next.

 

More of Everything… For Everybody – Freak Power

Que género de barulho faziam os Freak Power? Funk? Trip Hop? Acid Jazz? Who Cares?
“More of Everything… For Everybody”, de 1996, é um monte evereste de energia e criatividade, de cool e de groove; de espontaneidade e apuro de produção. É uma coisa prolixa e policromática que vem com um balanço desgraçado e que nos deixa num estranho estado de espírito que se situa algures no estreito trilho entre a exaustão e a paz.
Norman Cook (o futuro Fatboy Slim), Ashley Slater e Jesse Graham não são propriamente pessoas conhecidas por terem medo de arriscar e os Freak Power debitavam coisas inéditas a um ritmo assustador, mesmo quando respeitavam cânones jazísticos e preceitos rítmicos bem antigos. A filosofia de fusão psicadélica dessas referências todas, que a banda perseguia com determinação obsessiva, e o rigor técnico do embrulho, permitiram-lhes mergulhar nas mais ousadas aventuras. E torná-las parte integrante da cultura pop.
Agrupamentozinho do caraças.

 

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