
Advertência: o que se segue é um exercício da mais grosseira propaganda de Estado que se pode imaginar, apesar de estar a ser disseminada até pela imprensa dita independente como informação factual. Este texto serve para desmontar a falácia, mas ainda assim, o leitor deve manter o seu detector de aldrabice ligado.
A Secretária de Imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, recorreu ao X para apelar aos norte-americanos que “parem o que estão a fazer e leiam” um relato alegadamente “arrepiante” de um segurança alegadamente “leal” a Nicolás Maduro, que descreve forças de elite norte-americanas a utilizar uma arma sónica devastadora durante a operação que capturou o presidente venezuelano.
Stop what you are doing and read this…
🇺🇸🇺🇸🇺🇸🇺🇸🇺🇸 https://t.co/v9OsbdLn1q— Karoline Leavitt (@PressSec) January 10, 2026
O relato, partilhado por Mike Netter no X, foi servido no formato de entrevista (sem que se perceba bem quem é o entrevistador e muito menos o entrevistado). Netter, conhecido por liderar o esforço para destituir o governador da Califórnia, Gavin Newsom, publicou a conversa completa, que retrata um domínio absoluto por parte de uma pequena equipa de forças especiais americanas altamente avançadas.
Eis uma tradução livre e integral do post original:
Segurança: No dia da operação, não ouvimos nada a aproximar-se. Estávamos de guarda, mas de repente todos os nossos sistemas de radar desligaram sem qualquer explicação. A próxima coisa que vimos foram drones, muitos drones, a sobrevoar as nossas posições. Não sabíamos como reagir.
Entrevistador: Então, o que é que aconteceu depois? Como foi o ataque principal?
Segurança: Depois de os drones aparecerem, chegaram alguns helicópteros, mas eram muito poucos. Penso que no máximo oito helicópteros. Destes helicópteros, desceram soldados, mas em número muito reduzido. Talvez vinte homens. Mas estes homens eram tecnologicamente muito avançados. Não se pareciam com nada que já tivéssemos enfrentado antes.
Entrevistador: E depois começou a batalha?
Guarda de Segurança: Sim, mas foi um massacre. Éramos centenas, mas não tínhamos a mínima hipótese. Disparavam com tanta precisão e velocidade… parecia que cada soldado disparava 300 tiros por minuto. Não podíamos fazer nada.
Entrevistador: E as suas armas? Não ajudaram em nada?
Guarda de Segurança: Nem pensar. Porque não eram só as armas. A dado momento, lançaram algo… não sei como descrever… era como se fosse uma onda sonora muito intensa. De repente, senti como se a minha cabeça estivesse a explodir por dentro. Começámos todos a sangrar pelo nariz. Alguns vomitaram sangue. Caímos no chão, sem nos conseguirmos mexer.
Entrevistador: E os seus camaradas? Conseguiram resistir?
Guarda de Segurança: Não, de todo. Aqueles vinte homens, sem uma única baixa, mataram centenas de nós. Não tínhamos forma de competir com a tecnologia deles, com as armas deles. Juro, nunca vi nada assim. Nem sequer conseguíamos ficar de pé depois daquela arma sónica, ou o que quer que fosse.
Entrevistador: Então acha que o resto da região deve pensar duas vezes antes de confrontar os americanos?
segurança: Sem dúvida. Estou a enviar um aviso a qualquer pessoa que pense que pode lutar contra os Estados Unidos. Não têm ideia do que são capazes. Depois do que vi, nunca mais quero estar do outro lado. Não se devem meter com eles.
Entrevistador: E agora que Trump disse que o México está na lista, acha que a situação vai mudar na América Latina?
Segurança: Com certeza. Toda a gente já está a falar nisso. Ninguém quer passar pelo que nós passamos. Agora toda a gente pensa duas vezes. O que aconteceu aqui vai mudar muita coisa, não só na Venezuela, mas em toda a região.
A publicação já contava com 26 milhões de visualizações, na altura em que estas linhas foram redigidas e, aparentemente, há uma quantidade enorme de utilizadores que estão a engolir a rábula como verdadeira.
Até Hollywood era capaz de um melhor guião.
Bom, esta é a história. Que tem mais buracos que um recinto de minigolf.
Em primeiro lugar há que sublinhar o óbvio: o dito “leal” segurança de Nicolás Maduro não é identificado e não temos qualquer prova de que seja quem diz, de que experimentou o que afirma, de que é uma testemunha real dos acontecimentos que envolveram o rapto do presidente venezuelano ou até que sequer existe em formato humano.
Depois, se as forças armadas norte-americanas têm esta arma secreta altamente efectiva e vanguardista, que interesse teria a Casa Branca, pela voz da sua própria secretária de imprensa, em direccionar a atenção do público – e logo – o foco dos seus inimigos ou adversários no mundo – para essa capacidade militar?
Está o regime Trump a incentivar russos e chineses e iranianos a que produzam rapidamente contra-medidas que anulem a tecnologia mais avançada do Pentágono?
E mesmo que esta tecnologia existisse, seria boa ideia utilizá-la num ataque relâmpago desta natureza, contra um inimigo que não é de todo um rival geo-estratégico, possibilitando que as potências que se constituem de facto como adversárias dos EUA fossem alertadas e assim se pudessem preparar para enfrentar esta inovadora arma?
É verdade que o comportamento da Casa Branca é frequentemente errático e funciona mais na base do impulso e do instinto e da fanfarronice e da hubris do que na ponderação racional do quadro político e militar. Mas ainda assim, isto não cabe na cabeça de ninguém.
Acresce que a mensagem do dito “segurança” parece saída de um guião hollywodesco para uma fita de acção de série B (o canhão sónico é uma invenção da Marvel, por acaso), ou de um algoritmo de IA não muito competente, cujo prompt instruía a utilização da operação militar do Pentágono na Venezuela como conto de horror para assustar os adversários dos EUA, integrando tecnologias de guerra assimétrica. Que ser humano, para mais um ser humano cuja profissão era a de guarda-costas de um ditador sul-americano é que, depois de ser atacado e humilhado, diz uma coisa destas:
Estou a enviar um aviso a qualquer pessoa que pense que pode lutar contra os Estados Unidos. Não têm ideia do que são capazes. Depois do que vi, nunca mais quero estar do outro lado. Não se devem meter com eles.
Até dá vontade de rir. Estes são os mesmos soldados que foram corridos da Líbia. Que foram humilhados no Afeganistão e na Somália. Que foram mortos no Iraque. Mas de repente, motivados pelo supremo líder de Queens e motivados pela retórica transcendente de um tipo que há um ano atrás era âncora da Fox News, passaram a super-heróis.
this piece of fantasy was clearly written by a Californian transgender woman.
— d7r (@noD7R) January 10, 2026
Por outro lado, esta narrativa tenta explicar o que não tem uma explicação plausível, na dimensão militar: porque raio é que nem um tiro foi disparado contra as forças americanas enquanto circularam no espaço aéreo de Caracas, de um lado para o outro, oferecendo alvos perfeitamente acessíveis a qualquer sistema de defesa anti-aérea da segunda-guerra mundial? Será que esta tecnologia sónica atingiu todos os efectivos militares da metrópole sul-americana? Mas nesse caso, porque é que não há qualquer relato de civis serem também violentados da mesma forma?
E depois, temos a fonte que publicou o testemunho. Mike Netter é um activista de modesto impacto mediático a nível nacional nos EUA (tem algum peso na Califórnia) que muito está a beneficiar da exposição que esta “revelação” lhe está a oferecer. Completa e acriticamente alinhado com a política externa da Casa Branca e com a agenda sionista, é facilmente recrutável para uma operação de desinformação desta natureza. E tendo ou não conhecimento de que está a ser instrumento de uma psyop.
A verdade é que o regime Trump está a fazer tudo para manter a sua narrativa sobre a operação na Venezuela como uma brilhante e esmagadora acção militar… que não foi. Tratou-se sim, de uma muito bem montada operação de inteligência, que levou a elite política e militar na Venezuela à prossecução de um golpe palaciano, sacrificando o seu líder em função de interesses superlativos, ligados aos negócios do petróleo, em certa medida, mas principalmente às ambições pessoais em Caracas e geo-estratégicas em Washington.
A acção militar americana não encontrou qualquer resistência, porque o trabalho já estava feito. Tudo o resto é propaganda. Do género mais grosseiro que se possa imaginar.
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