A Institucionalização de um poder sem rosto.
Vivemos um tempo que não é apenas de mudança histórica, mas de mutação ontológica. Aquilo a que se chama “nova era” ou “nova ordem” não se anuncia apenas por rearranjos geopolíticos, mas por uma transformação radical da forma como o homem se compreende a si próprio, ao poder, à técnica e à guerra. Como diria Martin Heidegger, não estamos perante uma simples crise política, mas perante o “esquecimento do Ser”, em que tudo passa a valer apenas enquanto recurso disponível, incluindo o homem, os povos e a própria paz.
A União Europeia apresenta-se como um projeto moral, herdeiro do humanismo cristão e da razão iluminista, mas tornou-se, na prática, um espaço dominado pelo que Romano Guardini já pressentia como o advento de um “poder sem rosto”, tecnicamente eficiente e espiritualmente vazio. O discurso oficial invoca valores universais, direitos e progresso; contudo, nos bastidores decisórios, o critério último é económico-financeiro e estratégico. A linguagem ética funciona como véu, não como fundamento e o povo é tratado de forma cínica.
Esta dissociação entre palavra e realidade constitui uma das formas mais sofisticadas de niilismo contemporâneo. Como alertou Joseph Ratzinger, quando a razão se separa da verdade e se reduz a racionalidade instrumental, ela deixa de libertar e passa a dominar. O bem torna-se aquilo que é funcional; o mal, aquilo que resiste. Assim, a guerra pode ser progressivamente encenada como meio legítimo, necessário e até “humanitário”, desde que integrada numa narrativa moralmente aceitável.
Eric Voegelin descreveu este processo como a “imanentização do eschaton”, isto é, a tentativa de realizar, por meios políticos e técnicos, uma redenção que pertence à ordem espiritual. Quando a política assume funções salvíficas, ela exige inimigos absolutos e conflitos permanentes. A guerra deixa então de ser uma tragédia a evitar e passa a ser apresentada como instrumento pedagógico da História, como mecanismo de purificação ou de avanço civilizacional.
É neste contexto que devemos compreender a crescente normalização do discurso bélico no espaço europeu. A guerra não é apenas preparada nos arsenais, mas sobretudo nas consciências. Os meios de comunicação, os centros de produção académica, os discursos institucionais e até certas aplicações da inteligência artificial contribuem para moldar uma perceção da realidade em que o conflito aparece como inevitável, ou pior, como desejável. A técnica, que deveria servir o homem, passa a formatar o seu horizonte moral.
Também a inteligência artificial, enquanto espelho ampliado da racionalidade dominante, está naturalmente dependente dos bastidores ideológicos: ela reproduz padrões, narrativas e prioridades inscritas nos sistemas de poder que a alimentam. Não cria o mal, mas acelera e torna mais eficaz aquilo que já está decidido a montante. O perigo não está na máquina, mas na visão do homem que a orienta, um homem reduzido a consumidor, produtor ou dano colateral.
Paralelamente, assiste-se à erosão deliberada da cultura humanista europeia. Não se trata de abertura ao outro, mas de desintegração do próprio. Tradições espirituais, religiosas e culturais são relativizadas ou instrumentalizadas conforme conveniências geopolíticas. Religiões deixam de ser compreendidas como caminhos espirituais e passam a ser tratadas como forças políticas ou demográficas, peças num tabuleiro de poder global. O problema não é a fé, mas a sua captura pela lógica imperial, seja ela religiosa, tecnocrática ou financeira.
A Europa, ao renegar as suas raízes espirituais em nome de uma neutralidade impossível, torna-se incapaz de verdadeiro diálogo e vulnerável a todas as formas de colonização ideológica. Sem uma metafísica do limite, resta apenas a expansão indefinida do poder. Sem transcendência, tudo se torna negociável, inclusive a vida humana, por isso fomentam a agressividade e a incompreensão relativamente ao cristianismo para não terem um espelho metafísico que os reflita nem quem esteja do lado do povo nem expresse a sua voz.
Talvez por isso a verdadeira resistência, hoje, já não possa ser militar nem ideológica. Essas linguagens pertencem ao mesmo horizonte que pretendemos questionar. A resistência terá de ser cultural, ética e espiritual, uma recusa silenciosa mas firme de aceitar a mentira como norma e a guerra como destino. Resistir será preservar a memória, a consciência e a pergunta pelo sentido, num mundo que prefere respostas rápidas e funcionais.
Como advertia Romano Guardini, o futuro não pertence aos sistemas mais poderosos, mas aos homens interiormente livres. E, como lembrava Joseph Ratzinger, uma Europa que perde a sua alma perde inevitavelmente também a capacidade de gerar paz. Se ainda existir uma saída para este tempo sombrio, ela não nascerá dos centros de poder nem das engenharias institucionais, mas da fidelidade à verdade do ser humano, esse mistério irredutível que nenhuma técnica, nenhuma ideologia e nenhuma guerra conseguem esgotar.
Essa fidelidade exige um despertar da consciência coletiva, a redescoberta de que o homem não está só nem abandonado à lógica da força, mas permanece situado numa ordem mais alta de sentido. Dito de outro modo: só um povo que reconhece que Deus caminha com ele pode resistir à absolutização do poder terreno. Recordo, a este propósito, a voz do meu pai ao repetir o antigo adágio “a voz do povo é a voz de Deus”.
Mas importa acrescentar: essa identificação só permanece verdadeira enquanto a voz do povo não se deixa capturar, manipular ou substituir pelas narrativas de um poder que, precisamente por isso, se arroga cada vez mais uma pretensão de omnipresença e omnipotência.
ANTÓNIO JUSTO
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António da Cunha Duarte Justo é um pensador e viajante de culturas: filósofo e teólogo de formação, escritor por vocação e comunicador por missão, dedica a sua vida a lançar pontes entre Portugal e Alemanha. Autor do blog Pegadas do Tempo.
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