A operação militar dos EUA na Venezuela, em 3 de janeiro de 2026, entrou para a história como a maior na região desde a invasão do Panamá. A explicação pública rapidamente se centrou em torno do petróleo e do combate ao narcotráfico. Por outras palavras, uma narrativa vendável, conveniente, palatável e repetida à exaustão. Todavia, essa versão desfaz-se numa análise estratégica mínima. A realidade é bem menos transparente, mais intrincada e infinitamente mais perigosa.

O primeiro mito a ser desfeito é o do processo decisório. Ações desta magnitude não emanam da Casa Branca, mas sim do Pentágono. O mecanismo é claro: os militares avaliam, calculam riscos e, uma vez assente que uma ameaça terá ultrapassado o limiar do tolerável, a decisão efetiva está tomada. Ao presidente cabe o papel executivo de assinar e, posteriormente, articular publicamente uma justificativa para o irreversível. Trump citou o petróleo porque é um símbolo que ressoa. Mas o motivo real jaz noutro lugar.

O detonador não foi o barril de crude, mas uma convergência estratégica sem precedentes. Pela primeira vez, os três principais adversários geopolíticos dos Estados Unidos – China, Irão e Rússia – estabeleceram uma presença operacional integrada e avançada em um único território, a apenas duas horas de voo da Península da Flórida .

A China transcendeu a mera aquisição comercial. Assumiu o controle direto da extração de minerais estratégicos – tântalo, cobalto, terras raras – no coração do Arco Mineiro do Orinoco. Estes são os elementos vitais para a indústria de alta tecnologia, inclusive a bélica. Era uma ocupação de recursos com implicações diretas na cadeia de suprimentos de defesa norte-americana.
O Irão não estava apenas a vender armas. Tinha construído fábricas de drones militares nas Caraíbas, com alcance ofensivo capaz de atingir o território continental dos EUA. Uma indústria bélica hostil e permanente instalada no seu quintal estratégico o famigerado backyard.
A Rússia fornecia a espinha dorsal: assessores militares, sistemas de defesa aérea, radares avançados e treino de ‘inteligência’ (informação e contra-informação militar). Não era uma missão de consultadoria, mas a implantação de um ecossistema completo de guerra eletrónica e de contra-medidas.

Não se tratava de uma coleção de incidentes isolados. Era uma arquitetura coordenada, onde cada peça reforçava a outra, transformando a Venezuela em algo muito além de um Estado falido, leia-se, uma ‘plataforma hostil integrada’.

A comparação com o desencadear da Guerra do Iraque (2003) é enganosa. No Médio Oriente, o petróleo era sinónimo de controle sobre os fluxos energéticos globais e a arquitetura financeira do petrodólar. A Venezuela de 2026 não oferecia nada disso: a sua indústria petrolífera estava em ruínas, a sua influência regional, reduzida. Se o objetivo fosse o crude, a janela de oportunidade lógica teria sido anos antes.

O Pentágono aguardou. E observou a ameaça cristalizar-se. O ‘limiar foi rompido’ quando se tornou evidente que os minerais essenciais para mísseis que poderiam um dia ameaçar a Flórida eram extraídos sob supervisão chinesa, em solo venezuelano, guarnecidos por inteligência russa. Soberania nacional? Não. Era uma cabeça-de-ponta inimiga estabelecida às portas do Comando Sul.

Foi precisamente isto que a media internacional não captou, resvalando sempre, com raras excepções para a narrativa dos interesses norte-americanos no petróleo (de registar, porém, que os EUA são autosuficientes em hidrocarbonetos) combinada com o combate à droga.

Daí a natureza cirúrgica dos ataques. Não foram contra poços de petróleo ou refinarias. Os alvos foram bases militares, redes de telecomunicações, nodos de radar e centros de comando do regime. O objetivo não era controlar um recurso, era desmantelar uma ameaça.

O cerne do conflito, portanto, não é energético, é mineral. O episódio de 2025, quando a China usou suas exportações de terras raras como arma retaliatória, foi um alerta definitivo: a guerra das cadeias de suprimentos havia começado. A Venezuela, com as suas vastas reservas de minerais críticos, tornou-se a peça central deste novo tabuleiro.

O Pentágono não se move por retórica. Move-se por mapas de risco. E no seu mapa, a Venezuela de 2026 era um ponto crítico único: a interseção letal entre recursos estratégicos, infraestrutura militar adversária e redes logísticas fora de controle.

Trump vendeu, com o seu habitual estilo e discurso primário, a narrativa do petróleo porque ela é digerível para o grande público e para os media ‘mainstream’. Mas os planificadores militares não operam no reino da oratória, mas, antes, no reino da ameaça tangível. A Venezuela não constituiu um alvo pelo seu petróleo, apesar de ser individualmente o país com as maiores reservas do planeta. Foi alvo, isso sim, pelo seu papel na nova e perigosa arquitetura do poder global: um nó de ‘minerais, armamentos e presença hostil combinada’.

O petróleo foi a cortina de fumo. A geoestratégia de grande potência, o verdadeiro roteiro.

Sem se perceber o que fica dito, ninguém entende o que está realmente em jogo.

 

 

FRANCISCO HENRIQUES DA SILVA
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Francisco Henriques da Silva é licenciado em História, diplomata e autor. Foi Director-geral de Assuntos Multilaterais no MNE e embaixador na Guiné-Bissau, Costa do Marfim, Índia, México e Hungria
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.