O presidente norte-americano Donald J. Trump, falando na conferência de políticas republicanas da Câmara dos Representantes, na terça-feira, enfatizou a importância de manter as maiorias do partido no Congresso nas eleições intercalares de 2026, para evitar uma terceira tentativa de impeachment liderada pelos democratas:

“Vocês têm de ganhar as eleições intercalares, porque se não ganharmos, vai ser… quer dizer, eles vão encontrar um motivo para me destituir. Vou sofrer um impeachment”.

A desfaçatez do magnata de Queens é recordista: depois de ter traído o seu eleitorado, de todas as formas possíveis e imaginárias, no seu primeiro ano de mandato, Donald Trump, como aliás o Contra Já tinha previsto, prepara-se para responsabilizar os republicanos do Congresso pela derrota mais que previsível que vai sofrer este ano, aproveitando para chantagear os eleitores com um velho truque dos tiranos: ‘Eu ou o caos’.

Não que os republicanos do Congresso, na sua esmagadora maioria, também não mereçam justo castigo nas urnas, porque merecem. Não que uma maioria democrata na Câmara dos Representantes e no Senado não possa levar de facto à destituição, ou a uma tentativa de destituição, do presidente em exercício, porque pode. Mas convém recordar que durante a campanha eleitoral de 2024, Donald Trump anunciou uma plataforma populista que está muito longe de ter cumprido, muito pelo contrário. Eis uma breve relação entre as expectativas e os resultados:

– Desenvolvimento de políticas “America First”
O regime Trump passou rapidamente para uma lógica operacional “Israel First” e não se percebe em que é que a maior parte da política externa da Casa Branca tem protegido os interesses americanos;

– Transparência do governo federal
O governo federal norte-americano continua tão opaco como sempre foi. De tal forma que a sua opacidade criou até uma guerra civil na direita americana, que se tem debatido com as narrativas postiças do regime Trump sobre o caso Epstein, o assassinato de Charlie Kirk e até a tentativa de assassinato do próprio Trump, num comício em Butler, Pensilvânia. E isto só para citar os casos mais gritantes.

– Crescimento do emprego e prosperidade económica transversal sobre a sociedade
Apesar da economia americana estar a crescer a bom ritmo, é óbvio para toda a gente que esse crescimento tem apenas enriquecido os suspeitos do costume: as elites industriais ligadas ao armamento e à tecnologia e os senhores do universo de Wall Street. No entretanto, os números do desemprego e da inflação teimam em manterem-se altos. Das classes mais privilegiadas para baixo, os americanos continuam a ficar mais pobres a cada dia que passa.

– Fim das guerras perpétuas e das mudanças de regime patrocinadas pelos EUA
Em 12 meses apenas, Donald Trump bombardeou o Iémen, o Iraque, a Somália, a Síria, o Irão e a Nigéria; raptou o chefe de Estado Venezuelano e pirateou uma autêntica frota de petroleiros, o último dos quais que navegava com bandeira russa, numa operação que pode ser sem grande esforço retórico considerada como um acto de guerra. A prometida paz na Ucrânia, que seria até efectivada em 24 horas, é agora não mais que uma fanfarronice eleitoral. O mandato populista que elegeu Trump foi óbvia e rapidamente esquecido e a agenda neocon, motorizada pelo complexo militar e industrial americano, está literalmente a bombar como nunca.

– Drenagem do pântano de Washington, combate ao Estado profundo  
Dreno nenhum, combate nenhum. Alguns dos personagens mais sinistros do pântano, como por exemplo Lindsey Graham, Susie Wiles e Marco Rubio, são hoje figuras influentes e poderosas do regime. O FBI e a CIA e a NSA continuam a ser agências inimigas da constituição americana e do cidadão comum, tanto como foram nas eras Obama e Biden. Os interesses alienígenas às naturais aspirações do povo americano continuam a reinar em Washington.

– Fazer justiça sobre os crimes cometidos pelo regime Biden, principalmente os que derivaram da perseguição política aos conservadores e ao próprio Trump.
Zero processos, zero condenações e um Departamento de Justiça que parece mais determinado em reprimir o “antisemitismo” e em suprimir a liberdade de discurso consagrada na Primeira Emenda do que em procurar os responsáveis por quatro anos de pidesca perseguição política a que foram submetidos os apoiantes de Donald Trump.

Como é facilmente perceptível, o primeiro responsável pela mais que provável derrota dos republicanos nas intercalares deste ano será Donald Trump. Por muito fracos e incompetentes e corruptos que sejam – e são – os congressistas da direita norte-americana, ninguém trabalhou tanto contra as expectativas do seu eleitorado como o actual inquilino da Casa Branca.

Acresce que algumas iniciativas do regime Trump abrem de facto vias legais para o impeachment. Um exemplo recente: de forma a evitar uma votação no Congresso sobre a intervenção militar na Venezuela, a Casa Branca inventou um cartel de tráfico de droga inexistente, afirmando que Nicolás Maduro seria líder desse cartel, o que permitiria classificar o presidente venezuelano como “narcoterrorista” (o combate ao terrorismo internacional não necessita de aprovação do Congresso). Sabe-se hoje que esta iniciativa foi fraudulenta porque a própria procuradoria federal retirou essa acusação do processo a que está a sujeitar Maduro. Este simples facto pode levar a um processo, legítimo, de destituição do presidente americano.