Numa operação de pirataria que pode muito bem ser entendida como um acto de guerra, os Estados Unidos apreenderam um petroleiro que navegava com bandeira russa após uma perseguição de duas semanas através do Oceano Atlântico, aumentando as tensões sobre a aplicação de sanções e a segurança marítima. A embarcação, Marinera, foi interceptada quando entrava na zona económica exclusiva da Islândia por volta das 4h da manhã de quarta-feira, hora local, durante uma operação que envolveu as Forças Armadas dos EUA, a Guarda Costeira dos EUA e as autoridades islandesas.

O petroleiro era anteriormente conhecido como Bella 1 e estava a ser monitorizado há semanas depois de ter contornado um bloqueio marítimo dos EUA às exportações de petróleo da Venezuela. Segundo as autoridades norte-americanas, o navio resistiu a tentativas anteriores da Guarda Costeira de o abordar enquanto navegava perto das Caraíbas, antes de mudar o seu nome e bandeira e seguir em direcção às águas do norte.

A propriedade real do navio pertence a uma empresa turca, fazendo parte da chamada “frota sombra” (shadow fleet), usada para transportar petróleo de países sancionados pelos EUA como o Irão, a Venezuela e a Rússia. No entanto, em Dezembro de 2025, o navio mudou de nome para Marinera e foi registado temporariamente no registo marítimo russo (com porto em Sochi), navegando sob bandeira russa.

 

 

Os meios de comunicação social estatais russos informaram que activos navais de Moscovo, incluindo navios de superfície e pelo menos um submarino, estavam a operar nas proximidades durante a apreensão. O Ministério dos Negócios Estrangeiros russo afirmou que o Marinera, agora ostentando a bandeira russa, navegava em águas internacionais em conformidade com a lei marítima e acusou as nações ocidentais de violarem a liberdade de navegação. O ministério exigiu que sejam respeitados os direitos da navegação civil.

O acto de pirataria do regime Trump acontece no contexto de uma expansão agressiva da aplicação de sanções dos EUA contra carregamentos de petróleo ligados à Venezuela. Em Dezembro, Donald Trump anunciou um bloqueio total aos petroleiros venezuelanos sob sanções dos EUA, ordenando a intercepção de embarcações suspeitas de transportar petróleo bruto que financiava o governo do presidente Nicolás Maduro — agora sob custódia dos EUA, depois de ter sido raptado em Caracas, no sábado passado.

As autoridades norte-americanas também interceptaram e piratearam outros petroleiros ligados às exportações de petróleo venezuelano nas últimas semanas.

 

 

Alexander Kots, um comentador russo alinhado com o Kremlin, alertou no Telegram que o incidente poderia ter consequências mais vastas para a posição global de Moscovo.

“Se os americanos apreenderem o nosso navio e nos limitarmos à retórica sobre as ‘linhas vermelhas’, isso convencerá Trump de que somos apenas uma grande Venezuela, e que a Rússia pode ser intimidada sem consequências reais.”

É verdade. E resta saber agora como é que o Kremlin vai reagir a esta provocação, sendo certo que Vladimir Putin está neste momento sob forte pressão de facções nacionalistas russas, que o acusam de se mostrar excessivamente conciliador com Donald Trump e de parecer hesitante e demasiado prudente na forma como tem conduzido a guerra na Ucrânia.

Tanto mais que a presença de embarcações russas nas proximidades do local onde o navio foi apreendido – e que se limitaram a observar a acção de pirataria das forças norte-americanas – consubstancia uma humilhação para a marinha russa que será difícil de gerir internamente.

Não é assim de admirar que comecem a circular, provenientes de Moscovo, afirmações deste género:

 

 

Um deputado nacionalista da Duma, Aleksey Zhuravlyov, sugeriu isto:

 

 

Por outro lado, e se necessário fosse, a Casa Branca, com esta acção, demonstra inequivocamente que não pode ser considerada como mediadora do conflito ucraniano, e que está claramente a esticar a corda de um conflito entre superpotências que nos pode atirar a todos para o apocalipse nuclear.

Quanto a Donald Trump, parece definitivamente embriagado pela hubris neoconservadora que reina em Washington e estará por estes dias a criar anti-corpos na comunidade internacional que dificilmente serão dissipados a curto e médio prazo.

 

Vem a propósito: O Trent Affair

Talvez seja pertinente recordar que um episódio muito semelhante ia conduzindo a uma guerra entre o Reino Unido e os Estados Unidos, no século XIX.

Em Novembro de 1861, um navio da Marinha dos EUA (USS San Jacinto) interceptou o navio britânico de correio RMS Trent em águas internacionais, abordou-o à força e removeu dois enviados confederados (James Mason e John Slidell), considerando-os “contrabando de guerra”. O navio navegava sob bandeira britânica, e a acção foi vista pelo Reino Unido como uma violação grave do direito internacional marítimo.

O incidente causou uma séria crise diplomática: o Reino Unido protestou vigorosamente, exigiu desculpas e a libertação dos prisioneiros, mobilizou tropas para o Canadá e preparou-se para guerra. A opinião pública britânica estava inflamada, vendo a acção como um insulto à sua soberania. O presidente Lincoln optou por recuar, libertando os enviados sem desculpas formais, mas reconhecendo o erro procedimental. A crise foi resolvida diplomaticamente, evitando guerra.