No tempo em que acreditávamos no futuro éramos capazes de grande aparato filarmónico, com uns quantos acordes apenas. A inocência da segunda metade do século XX não deixa de me surpreender e comover, mesmo apesar do que sei hoje sobre os seus frágeis alicerces.

 

 

Há muito particularmente na música do fim dos anos 70 e princípio dos 80 uma euforia de delírio romântico e entusiasmo filosófico que me deixa invariavelmente nostálgico, por muito que não seja dado a invejas do passado.

A música ligeira desses dias é ligeira mesmo, literalmente – não está preocupada com Schopenhauer e é ignorante, felizmente, do que nos vai acontecer trinta ou quarenta anos mais à frente.

De tanto em tanto que em plena Guerra Fria, a pior tragédia do rock era a dor de corno:

 

 

E mesmo quando mergulhávamos na penumbra da solidão, da depressão, da alienação, dessas trevas saía um triunfo:

 

 

A alegria era mascarada de sátira, o optimismo já vinha, de vez em quando, marcado pela dúvida, existiam dissidentes profetas que suspeitavam do progresso e interrogavam a glória tecnológica da televisão a cores, mas, de todo em todo, esta gente tinha fé no porvir.

 

 

E sempre que recuo na cronologia (a música é uma máquina do tempo) e oiço estas bandas – na verdade despidas da sofisticação que hoje procuro equivoca e desvairadamente – consola-me a sua ingenuidade bonita, não tanto pelo reflexo do presente que experimentavam, mas pela certeza de um amanhã que cantava mais alto e mais afinado e tudo.

No tempo em que acreditávamos no futuro, existiam bandas que o tempo não consome.