O Departamento de Justiça norte-americano divulgou na passada segunda-feira imagens chocantes que pareciam retratar o suicídio de Jeffrey Epstein na sua cela na prisão de Manhattan — e que durante breves momentos causaram alvoroço na internet. Até que se constatou que o vídeo era falso.

 

 

O clip, gerado por computador, mostra um homem de cabelo branco a usar um fato-macaco laranja, debatendo-se e abanando a cabeça enquanto ajoelhado na base de um beliche numa cela, e foi publicado sem explicações no site do Departamento de Justiça como parte da divulgação dos ficheiros Epstein — sendo apenas o item mais recente no meio de um conjunto de documentos e imagens a serem revelados após a ordem do Congresso, em Novembro.

O vídeo não sobrevive a uma análise mais atenta, já que a composição evidencia um trabalho de CGI nem por isso muito competente, com objectos sem textura, ambiente excessivamente limpo, movimentos do corpo claramente artificiais e a porta da cela a não corresponder à do compartimento de Epstein.

Um funcionário da administração Trump confirmou posteriormente que o vídeo era falso e estava no YouTube há anos. Foi finalmente removido do site do Departamento de Justiça na segunda-feira.

Mas a sua divulgação já tinha causado grande interesse online, com muitos utilizadores a pensar que as imagens da morte de Epstein tinham finalmente sido reveladas, o que teria contradito a narrativa de longa data dos investigadores de que as câmaras que monitorizavam a cela de Epstein estavam desligadas ou avariadas na noite da sua morte e que não existia qualquer gravação.

A ausência de vídeo de circuito interno tem sido uma das principais fontes de teorias da conspiração em torno da morte de Epstein, com algumas pessoas a usá-lo para alimentar histórias de que o financeiro, outrora poderoso e em desgraça, foi assassinado por forças obscuras.

Estas teorias ganharam força durante a primeira divulgação dos ficheiros Epstein, no início deste ano, quando um vídeo gravado à porta do bloco de celas de Epstein na noite da sua morte foi finalmente libertado — só para se perceber que lhe faltava um minuto, decorrido pouco antes da meia-noite, e que as imagens tinham também sido entretanto manipuladas.

Esta é assim a segunda vez que o Departamento de Justiça e o FBI publicam um documento vídeo falso sobre a morte de Epstein.

Epstein estava sob vigilância para prevenção de suicídio antes de morrer, mas essa vigilância foi retirada e deveria ter um companheiro de cela, que por acaso até foi transferido apenas um dia antes da sua morte.

Os dois guardas que deveriam estar a vigiá-lo também estavam a dormir em serviço na noite em que o pedófilo foi suicidado e, posteriormente, admitiram ter falsificado relatórios para encobrir o erro.

Embora o médico legista tenha determinado que Epstein morreu por enforcamento auto-infligido, uma autópsia independente, patrocinada pelo irmão do criminoso, sugeriu que sofreu uma fractura no pescoço, que tende a ocorrer em assassinatos por estrangulamento.

A divulgação dos ficheiros Epstein começou a 19 de Dezembro e, até à data, muitos milhares de páginas foram publicadas, revelando uns poucos detalhes comprometedores, e dezenas de fotos — incluindo imagens de Epstein em encontros íntimos com raparigas muito jovens – mas que não informam para além do que já todos sabíamos. Cerca de 90% dos documentos publicados pelo DOJ foram rasurados, embora alguns de forma amadora, já que basta fazer copy/paste do texto rasurado para que se torne legível.

 

 

A mistura de ficheiros falsos com documentos fidedignos, a extensão dos ficheiros, as omissões detectadas e a incompetência técnica (excessivamente grotesca para ser palusível) contribuem para que o encobrimento em relação aos implicados nas actividades de abuso sexual de menores do milionário/pedófilo continue a mostrar-se efectivo, mesmo contra um mandato explícito do Congresso.

Entretanto, Donald Trump decidiu que a sua barricada definitiva é a das elites pedófilas, defendendo banqueiros e políticos democratas como Bill Clinton, enquanto condena e insulta Thomas Massie – um dos representantes republicanos responsáveis por obrigar o Departamento de Justiça a divulgar os ficheiros.

 

 

Se Trump tivesse dito isto antes das eleições estaria agora em Mar-a-Lago, a envelhecer tranquilamente.

Crápula.