Os Estados Unidos realizaram na sexta-feira um ataque aéreo “massivo” contra 70 alvos do Estado Islâmico na Síria, em resposta ao recente assassinato de dois soldados norte-americanos e de um intérprete civil naquele país do Médio Oriente.

O ataque atingiu, segundo os relatos, “alojamentos de combatentes, depósitos de armas e outras infraestruturas”, e foi realizado com o apoio da força aérea da Jordânia.

Pete Hegseth e Donald Trump celebraram rapidamente o sucesso da missão. O Secretário da Guerra tweetou que a operação foi “uma declaração de vingança” e advertiu que “se atacar americanos… passará o resto da sua breve e ansiosa vida sabendo que os Estados Unidos o irão caçar, encontrar e matar impiedosamente”.

 

 

O presidente expressou o mesmo sentimento no Truth Social, escrevendo que qualquer terrorista que ataque os Estados Unidos “SERÁ ATINGIDO COM MAIS FORÇA DO QUE ALGUMA VEZ FORAM ATINGIDOS ANTES”.

Tudo o que Trump faz ou manda fazer é recordista. Tudo é maior, melhor, mais forte, do que alguma vez foi feito antes. Seja um xixi, seja matar pessoas. É bestial.

 

 

Nenhum deles se pronunciou sobre o papel dos EUA na destabilização política e militar do país, apesar de terem sido os primeiros responsáveis pelo golpe que destituiu Assad e colocou no poder um terrorista da Al Qaeda que no Iraque foi responsável por inúmeras baixas no exército americano e que hoje em dia se entretém a perseguir e matar cristãos Sírios.

Este jogo já dura há décadas. Primeiro, os EUA fabricam mudanças de regime em países hostis que não têm qualquer relação com os interesses nacionais da federação. Depois, posicionam as suas tropas em circunstâncias que as tornam alvos fáceis. A seguir, essas tropas são atacadas, Washington faz-se de vítima e usa o episódio como desculpa para lançar novas ofensivas na “Guerra contra o Terror”. Isto leva a mais ameaças terroristas, que os neoconservadores exploram para manter as suas tropas em perigo e perpetuar o estado de guerra que alimenta o complexo militar-industrial americano. O ciclo repete-se indefinidamente.

O regime Trump deveria explicar aos pais e aos filhos dos soldados mortos na Síria, que raio é que eles estavam lá a fazer. O problema é que a explicação seria deveras comprometedora: os americanos morrem no Médio Oriente para enriquecer os accionistas das indústrias petrolíferas e de armamento do país, ou para defender os interesses de Israel.

 

Bombardear a “escória terrorista” na Nigéria.

Aproveitando o balanço bélico dos ataques na Síria, o Pentágono aproveitou para despejar também umas toneladas de bombas na Nigéria, horas depois, alegadamente em nome dos cristãos que estão a ser perseguidos e chacinados neste país africano.

O Presidente dos EUA, que se encontrava na sua residência em Mar-a-Lago, anunciou a intervenção militar no Truth Social, afirmando:

“Esta noite, sob as minhas ordens como Comandante-Chefe, os Estados Unidos lançaram um ataque poderoso e mortal contra a escumalha terrorista do ISIS no noroeste da Nigéria, que tem atacado e assassinado brutalmente, principalmente, cristãos inocentes, a níveis nunca vistos há muitos anos, até mesmo séculos! Já tinha avisado estes terroristas de que, se não parassem com o massacre de cristãos, haveria consequências terríveis, e esta noite, elas chegaram. O Departamento de Guerra executou inúmeros ataques perfeitos, como só os Estados Unidos são capazes de fazer. Sob a minha liderança, o nosso país não permitirá que o terrorismo islâmico radical prospere”.

Há um problema nesta narrativa: No mesmo dia, os EUA bombardearam a Síria para defender do ISIS um regime que mata cristãos e bombardearam a Nigéria para defender os cristãos de um regime que os mata. Em que é que ficamos? Se a ideia é proteger cristãos contra os terroristas islâmicos, porque é que o actual regime sírio, que é liderado por antigos quadros da Al Quaeda, que têm perseguido as populações cristãs como se não houvesse amanhã, está a ser protegido e glorificado pela Casa Branca?

O mínimo que se pode pedir à administração americana é que estabeleça uma narrativa coerente, antes de decidir bombardear dois países diferentes em menos de 24 horas.

Desde que Donald Trump tomou posse, os EUA já bombardearam o Iémen, o Irão, o Iraque, a Somália, a Síria e a Nigéria. Para além de inúmeras embarcações no Caribe. Nada mau, para o ‘Presidente da Paz’.