A progressiva evolução dos sistemas políticos europeus para modelos tendencialmente tripartidários deixou de ser uma hipótese académica para se afirmar como uma realidade empírica. França, Reino Unido, Alemanha, Itália, Áustria, Países Baixos, Chéquia, Portugal e, mais recentemente, Espanha (de acordo com as sondagens de opinião) ilustram este fenómeno, ainda que em diferentes estádios de consolidação. Em alguns casos, o processo permanece incompleto ou instável; noutros, começa já a desenhar um novo equilíbrio estrutural.
O elemento comum subjacente a esta transformação é o descontentamento popular. Porém, reduzir este mal-estar a um mero reflexo conjuntural de crises económicas, sanitárias ou geopolíticas seria um erro de análise. O que está em causa é mais profundo: a incapacidade persistente das elites políticas tradicionais — quer no poder, quer nas principais forças da oposição — para responder aos desafios estruturais das sociedades ocidentais contemporâneas.
Durante décadas, o centro-direita e o centro-esquerda governaram sob uma lógica de gestão minimalista do presente, marcada por um laissez faire, laissez aller politicamente confortável, mas estrategicamente estéril. Governa-se para gerir o imediato, responder ao urgente e adiar sistematicamente o essencial. Falta, de forma gritante, qualquer estratégia de longo prazo digna desse nome. Esta situação acabou por produzir um vazio político que não tardou em ser ocupado.
Neste contexto, a emergência de forças políticas situadas à direita do espectro tradicional — muitas vezes classificadas como populistas ou antissistémicas — não é tanto a causa da crise do sistema, mas a sua consequência direta. O eleitorado não “fugiu” para a direita por capricho ideológico súbito, mas porque o centro falhou reiteradamente em oferecer respostas credíveis, coerentes e duradouras.
A agravar este cenário estão fatores exógenos e endógenos de enorme peso: guerras prolongadas em solo europeu e no Médio Oriente; instabilidade social associada à imigração descontrolada e ao multiculturalismo mal gerido; envelhecimento demográfico acelerado; precariedade laboral; corrupção endémica e uma crescente ansiedade coletiva perante o futuro. A isto soma-se a imposição de um wokismo pseudo-progressista, frequentemente desligado das preocupações reais da maioria da população e sustentado sobretudo por minorias urbanas altamente mobilizadas.
O resultado é previsível: rejeição, reação e deslocação eleitoral.
Importa sublinhar que esta deslocação não corresponde, na maioria dos casos, a uma adesão à extrema-direita clássica, autoritária ou totalitária. Trata-se, antes, de uma direita radical no sentido etimológico do termo — isto é, que procura ir à raiz dos problemas — mas que é rotulada como “extrema” por conveniência retórica e má-fé política. Esta estratégia de deslegitimação, longe de conter o fenómeno, apenas o reforça.
O tripartidarismo que emerge não é, portanto, um movimento pendular temporário, destinado a corrigir excessos antes de regressar ao equilíbrio anterior. É um fenómeno estrutural, com bases ideológicas, sociais e culturais profundas. Os casos da Hungria e da Argentina, por razões distintas, demonstram que estas transformações podem estabilizar-se no tempo, ainda que sujeitas, como todas as democracias, ao escrutínio periódico das urnas.
Em Portugal, este processo assume contornos particularmente relevantes. O Chega não pode ser analisado seriamente como um simples epifenómeno nem como uma força marginal de extrema-direita. Representa, antes, uma tentativa concertada de ruptura com o status quo, um movimento antissistémico que capitaliza o desgaste acumulado do sistema político e a frustração de uma parte significativa do eleitorado. Ignorar esta realidade ou reduzi-la a caricaturas morais é, mais uma vez, um exercício de negação política.
A recomposição dos sistemas partidários no Ocidente é, assim, menos um desvio perigoso do que um sintoma claro de falhas acumuladas. A questão central já não é se o tripartidarismo veio para ficar — porque veio — mas se os atores políticos tradicionais serão capazes de compreender as razões profundas desta mudança e responder-lhe com algo mais do que rótulos, alarmismo e gestão do imediato.
FRANCISCO HENRIQUES DA SILVA
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Francisco Henriques da Silva é licenciado em História, diplomata e autor. Foi Director-geral de Assuntos Multilaterais no MNE e embaixador na Guiné-Bissau, Costa do Marfim, Índia, México e Hungria
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.
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