Pierre-Joseph Proudhon (1809–1865) foi um filósofo, economista, sociólogo e teórico político francês, considerado o pai do anarquismo e fundador do mutualismo. Nascido a 15 deJaneiro de 1809 em Besançon, numa família pobre (filho de um toneleiro e cervejeiro), trabalhou como pastor e mais tarde como tipógrafo, sendo em grande parte autodidata.
Em 1840, publicou a obra “O que é a Propriedade?”, onde lançou a famosa frase “A propriedade é um roubo!”, criticando a propriedade privada capitalista (distinguindo-a da posse legítima resultante do trabalho). Defendia um sistema económico baseado no mutualismo, com trocas justas, crédito gratuito e associações de trabalhadores, sem Estado centralizado nem exploração das classes desfavorecidas.
Autoproclamado anarquista, Proudhon opôs-se tanto ao capitalismo como ao comunismo e, em geral, a qualquer sistema autoritário. Em 1846, o seu “Sistema das Contradições Económicas ou Filosofia da Miséria” foi duramente criticado por Karl Marx em “A Miséria da Filosofia” (1847), marcando o início da cisão entre anarquistas e marxistas.
Durante a Revolução de 1848, foi eleito deputado à Assembleia Nacional, editou jornais radicais e propôs reformas como um banco popular. Foi preso entre 1849 e 1852 por críticas ao governo. Nos anos seguintes, enfrentou censura e exílio na Bélgica, regressando a Paris em 1864.
Outras obras importantes incluem “Da Justiça na Revolução e na Igreja” (1858) e “Do Princípio Federativo” (1863), onde defendeu uma sociedade federativa descentralizada. As suas ideias influenciaram o movimento operário europeu, o sindicalismo e pensadores como Bakunin e Kropotkin.
Morreu a 19 de janeiro de 1865 em Paris, deixando um legado controverso, que agrega o anarquismo revolucionário (se bem que não violento) com valores conservadores, com destaque para a crítica aos abusos tributários, um nacionalismo fundamentalista, a defesa da moral cristã como base ética do indivíduo e das sociedades, e o elogio do patriarcado como elemento fundamental da família tradicional.
Um dos textos mais representativos do seu pensamento dissidente, e uma referência do ContraCultura, é “Ser Governado”.
Este breve manifesto, trecho célebre da sua obra “Ideia Geral da Revolução no Século XIX”, publicada em 1851, é uma crítica feroz ao Estado, aos seus comissários, e à circunstância de qualquer cidadão ser governado por agentes terceiros que não têm os seus interesses, o seu bem-estar e os seus direitos fundamentais em conta. Denunciando a governação dos povos como exploração, opressão e hipocrisia, e contrastando a ideia de governo com a realidade de controlo, roubo e violência, o texto é um apelo genial à liberdade e uma radical rejeição de qualquer autoridade.
A tradução para português que publicamos é da responsabilidade de Júlio Carrapato, e foi publicada no Portal Anarquista em Janeiro de 2014.
“Oh, personalidade humana! Como é possível que durante sessenta séculos tenhas vivido miseravelmente nesta abjecção! Dizes-te santa e sagrada, e não passas da prostituta, infatigável, gratuita, dos teus lacaios, dos teus monges e dos teus soldados de velha guarda. Sabe-lo e sofres com isso!
Ser governado é ser guardado à vista, inspeccionado, espiado, dirigido, legislado, regulamentado, arrumado, doutrinado, pregado, controlado, estimado, apreciado, censurado, mandado, por seres que não têm nem o título, nem a ciência, nem a virtude.
Ser governado é ser, a cada operação, a cada transacção, a cada movimento, notado, registado, recenseado, tarifado, selado, medido, avaliado, patenteado, licenciado, autorizado, apostilado, admoestado, impedido, reformado, reeducado, corrigido. É, com o pretexto de utilidade pública, e em nome do interesse geral, ser pedido em empréstimo, exercitado, espoliado, explorado, monopolizado, abalado, pressionado, mistificado, roubado; e depois, à menor resistência, à primeira palavra de queixa, reprimido, multado, injuriado, vexado, encurralado, maltratado, batido, desarmado, garrotado, aprisionado, fuzilado, metralhado, julgado, condenado, deportado, sacrificado, vendido, traído e, ainda por cima, jogado, escarnecido, ultrajado, desonrado.
Eis o governo, eis a sua justiça, eis a sua moral! E dizer que há entre nós democratas que pretendem que o governo tem coisas boas; socialistas que apoiam, em nome da liberdade, da igualdade e da fraternidade, esta ignomínia; proletários que se candidatam à presidência da República! Hipocrisia!”
Relacionados
30 Ago 26
Hegel Entre a Razão Sistemática e o Mistério do Real
Celebrar Hegel é reconhecer que o seu pensamento continua vivo e em processo. A dialéctica não se esgota na obra do mestre de Estugarda; ela exige ser continuada, repensada, talvez mesmo traída para ser fiel ao seu espírito mais profundo. A revisitação de António Justo.
15 Ago 26
Da Ontologia do Domínio à Ontologia da Relação
A vida não nos entrega um projecto acabado. Entrega-nos relações. E assim, se a antiga ontologia perguntou sobretudo o que é o ser, uma ontologia relacional terá de acrescentar: como é que o ser se torna na relação? Um ensaio de António Justo.
11 Ago 26
Epicteto e a libertação face ao poder da tirania.
O poder é a capacidade de controlo sobre o que valorizamos. Assim, o segredo para nos libertarmos da influência de qualquer tirania é valorizar aquilo que podemos controlar sobre aquilo que não podemos.
7 Jul 26
Filósofo alemão Hans-Eckardt Wenzel: “Estamos às portas do inferno a acreditar que é o paraíso.”
O filósofo, poeta e músico alemão Hans-Eckardt Wenzel enuncia um diagnóstico devastador da sociedade ocidental, iludida e dividida por definição, desprovida de identidade e logos, e convencida de que nada pode ser feito quanto ao seu terminal e sinistro destino.
2 Mai 26
Famosas últimas palavras ou o verbo como Extrema Unção.
As últimas palavras de figuras históricas representam um fascinante vislumbre da mente humana no limiar da morte, reflectindo as crenças profundas e as circunstâncias finais daqueles que as proferem e deixando à posteridade um vestígio eloquente das suas personalidades.
23 Mar 26
Morreu Jürgen Habermas, o filósofo que quis tornar o mundo um pouco melhor.
Jürgen Habermas, filósofo e sociólogo alemão, herdeiro da tradição iluminista de Immanuel Kant, dedicou a sua vida a uma causa tão simples de enunciar quanto difícil de concretizar: tornar o mundo um pouco melhor. A elegia de António Justo.






