A chefe de gabinete da Casa Branca, Susie Wiles, admitiu que Donald Trump aparece nos ficheiros Epstein, numa reportagem reveladora e surpreendente, que lhe está a trazer muitas dores de cabeça.

Presume-se que numa operação de gestão de danos (ou sob o efeito de narcóticos), a patroa da Casa Branca disse à Vanity Fair:

“[Trump] está nos ficheiros. Sabemos que ele está nos ficheiros. Mas não está a fazer nada de horrível.”

Wiles acrescentou ainda:

“[Trump] estava no avião [de Epstein]… está na lista de passageiros. Eram, sabe, meio jovens, solteiros, enfim… eu sei que é uma expressão antiquada, mas eram jovens solteiros e playboys”.

Sim, claro: como eram jovens e solteiros e playboys percebe-se perfeitamente que dormissem com escravas sexuais menores de idade. Não há nada de “horrível” para ver aqui.

Na verdade, a notícia não é a confirmação do que já se sabia, porque já há uns tempos que era público o facto de Trump aparecer nos registos de voo do jacto de Epstein, principalmente em voos domésticos entre Palm Beach e Nova Iorque, no início da década de 1990. E porque os democratas do Congresso já tinha revelado outros dados comprometedores.

 

Foto de Donald Trump acompanhado por vítimas do tráfico sexual de Epstein, segundo imagens divulgadas pelo Comité de Supervisão Democrata da Câmara dos Representantes na semana passada

 

A notícia é mesmo o posicionamento draconiano e cínico da chefe de gabinete, tanto como o facto de ter concedido a um título da imprensa inimiga privilégios de acesso à sua praxis quotidiana e ao seu pensamento político absolutamente inauditos.

Wiles está agora a enfrentar uma repercussão negativa, após a publicação dos artigos da Vanity Fair, no qual fez várias declarações polémicas, incluindo comparar o actual presidente norte-americano ao seu pai porque ambos têm em comum uma “personalidade alcoólica”, repreender loucamente a procuradora federal Pam Bondi, e chamar “teórico da conspiração” ao vice-presidente JD Vance.

A chefe de gabinete pareceu, estranhamente, apanhada de surpresa, reagindo assim no X:

“O artigo publicado esta manhã é uma peça difamatória e tendenciosa contra mim e contra o melhor presidente, equipa da Casa Branca e gabinete da história. Um contexto significativo foi ignorado e muito do que eu, e outros, dissemos sobre a equipa e o presidente foi omitido da matéria”.

 

 

A razão pela qual Susie Wiles decidiu conceder um exclusivo à Vanity Fair, a mais liberal e espúria das revistas americanas, será sempre misteriosa, mas a decisão nunca poderá ser qualificada como inteligente. Tanto mais que se tratou de um trabalho de longa duração: Chris Whipple, o “jornalista” encarregado desta missão de longo prazo, acompanhou a senhora e a sua equipa desde que a administração se preparava para tomar posse e o trabalho foi publicado em dois extensos ensaios.

Susie Wiles deu-se ao trabalho de conceder 11 entrevistas, onze, ao comissário da Vanity, durante o período em que ele foi autorizado a seguir e reportar a actividade do círculo interno da actual presidência americana.

Se Willes queria ser retratada e inquirida neste formato de “grande reportagem” tinha escolhido uma publicação minimamente séria e de âmbito político. Até o New York Times seria uma melhor opção, mesmo considerando o inerente banditismo editorial. Escolheu o glamour de plástico. Correu mal. É espantoso que esteja admirada.

Durante a entrevista, Wiles aproveitou o balanço para responsabilizar a Procuradora-Geral Pam Bondi pela condução desastrosa que o regime Trump tem feito do caso Epstein, afirmando:

“Acho que ela falhou completamente ao não perceber que este era o grupo-alvo que se preocupava com isto. Primeiro, ela entregou-lhes pastas cheias de nada. E depois disse que a lista de testemunhas, ou a lista de clientes, estava na sua secretária. Não existe uma lista de clientes e, com certeza, não estava na sua secretária.”

Há que sublinhar que é praticamente unânime em Washington que Pam Bondi foi escolhida para procuradora, não por Trump, mas pela sua chefe de gabinete.

É verdade que Pam Bondi meteu os pés pelas mãos como gente grande na gestão do delicado dossier. Em Fevereiro, distribuiu pastas intituladas “Os Ficheiros Epstein: Fase 1” a um grande grupo de influenciadores conservadores, na Casa Branca.

Os influenciadores exibiram orgulhosamente as pastas, em frente à imprensa mainstream, após a reunião com Bondi. Havia apenas um problema: não continham qualquer informação nova sobre o pedófilo suicidado e, em vez disso, continham apenas a agenda telefónica e os contactos de Epstein com endereços ocultados.

Dias depois desta operação de relações públicas ao contrário, Bondi afirmou que tinha a “lista de clientes” de Epstein na sua “mesa para analisar”. Mais tarde, negou a existência desses documentos.

Mas não parece muito correcto (será dizer pouco) que a chefe de gabinete da Casa Branca use a sua procuradora como bode expiatório do banho de lama que cai sobre Donald Trump, que também negou a existência dos ficheiros que todos sabemos que existem, que nunca admitiu o envolvimento com Epstein, que qualificou repetidamente o escândalo como uma “fraude dos democratas”, que se insurgiu contra toda a gente que lhe perguntou sobre o caso, e que fez de alguns dos seus mais leais aliados, inimigos, como a representante da Georgia, Marjorie Taylor Green, por exemplo, muito simplesmente por exigirem aquilo que ele próprio tinha prometido em campanha eleitoral: total transparência sobre o assunto.

A influente assessora de Trump, apelidada de “Donzela de Gelo”, criticou também Bondi e o seu vice-procurador-geral, Todd Blanche, por transferirem a amante de Epstein, Ghislaine Maxwell, para uma prisão de segurança mínima, afirmando que Trump não ficou satisfeito quando soube desse desenvolvimento.

Em Julho, o Departamento de Justiça divulgou um memorando onde alegava que Epstein não tinha uma lista com os nomes de amigos ricos e poderosos que abusavam de crianças. Dias depois, Blanche viajou para a Florida para se encontrar com Maxwell, que cumpria uma pena de 20 anos de prisão por tráfico sexual.

Wiles afirmou que a reunião foi uma ideia de Blanche e que Trump não tinha conhecimento nem foi consultado sobre a transferência de Maxwell para uma nova prisão no Texas. A transferência terá irritado o presidente. A este propósito, a gélida donzela afirmou:

“O presidente ficou furioso. O presidente ficou muito insatisfeito. Não sei porque a transferiram. Nem o presidente sabe.”

É mais que provável que Susie esteja a mentir com quantos dentes tem, já que, sempre que perguntado sobre a hipótese de perdoar Maxwell, Donald Trump tem-se mostrado receptivo e é mais que evidente que Maxwell está a chantagear, através do Departamento de Justiça, o Presidente americano, prometendo silêncio sobre o seu envolvimento com Epstein em troca de favores, como a transferência para uma prisão mais aprazível e, em última análise, a liberdade por perdão presidencial.

Wiles optou por defender os dois desgraçados que têm sido infame e penosamente leais a Donald Trump neste caso, enquanto aproveitou para disparar uma farpa ao vice-presidente:

“As pessoas que realmente compreenderam a importância disto são o director do FBI, Kash Patel, e Dan Bongino. Eles viviam neste mundo, mas já o vice-presidente [JD Vance], é um teórico da conspiração há uma década… Durante anos, Kash dizia: ‘Temos de libertar os ficheiros, temos de libertar os ficheiros’. E dizia-o com base numa visão do que achava que estava nesses ficheiros, que acabou por se revelar incorrecta.”

Bom, sendo certo que não podemos acusar Wiles de deslealdade com Donald Trump, podemos porém acusá-la, sem problemas de consciência, de tudo o resto: aldrabona, cínica, intriguista, manipuladora, desbocada, traidora, enfim… É só escolher um insulto ao calhas, que a lei das probabilidades vai funcionar em desfavor desta sinistra senhora, sobre a qual o Contra publicou recentemente a devida advertência.

Bondi não emitiu uma resposta pública às críticas de Wiles desde a divulgação da entrevista.

Todos os ficheiros de investigação e depoimentos do grande júri relacionados com Epstein deverão ser divulgados pelo Departamento de Justiça ainda esta sexta-feira.