A trajetória recente da Ucrânia ilustra o choque entre ambições políticas alimentadas por expectativas externas e os limites impostos pela realidade estratégica. A decisão de Kiev de rejeitar, em abril de 2022, um acordo negociado que, em retrospetiva, se revelaria mais favorável do que o quadro militar e territorial actual constitui um marco desse desfasamento. Influenciada por garantias políticas, sinais de apoio militar e narrativas maximalistas veiculadas por aliados que não estavam, na prática, dispostos a sustentar indefinidamente tais compromissos, a liderança ucraniana optou por prolongar um conflito cujos custos se ampliaram de forma exponencial.
As consequências dessa decisão projetam-se em duas dimensões complementares. A primeira é humana: dezenas de milhares de mortos e feridos, milhões de deslocados internos e refugiados, destruição ampla de infraestruturas civis e militares, e uma sociedade exaurida por anos de mobilização contínua. A segunda é estratégica: a erosão de soberania efetiva, a deterioração do controlo territorial e uma crescente dependência externa que limita a autonomia de decisão do Estado ucraniano. O idealismo retórico, sustentado num imaginário heroico e em promessas de apoio ilimitado, deu lugar a uma realidade marcada por vulnerabilidades acumuladas.
Vulnerabilidades Internas: Corrupção, Captura Estatal e Implicações Estratégicas
A compreensão dos constrangimentos ucranianos exige reconhecer o papel crítico das fragilidades internas do país. A assistência financeira e militar massiva proveniente da UE e dos EUA tem sido canalizada para um sistema político-administrativo que apresenta, historicamente, elevados níveis de captura estatal, clientelismo e fragilidade institucional. Embora existam mecanismos de controlo e verificações externas periódicas, é estruturalmente impossível monitorizar com precisão a utilização de dezenas de milhares de milhões num contexto de guerra total, mobilização permanente e economia parcialmente informalizada.
Esta situação coloca um dilema político e ético aos contribuintes ocidentais: em que medida o apoio prestado reforça efetivamente a capacidade de defesa ucraniana e em que medida, ainda que involuntariamente, perpetua redes de corrupção? A questão não é periférica; é central para a eficácia da própria estratégia ocidental.
Num quadro de racionalidade política, defender nos fóruns europeus que a condicionalidade, a auditoria rigorosa e a transparência no uso dos fundos destinados à Ucrânia constituem não actos de desconfiança, mas sim de responsabilidade estratégica. Ajudar Kiev a resistir à agressão é necessário; garantir que os recursos não são desviados é igualmente necessário. A corrupção não é um “assunto interno” ucraniano que possa ser ignorado em nome da unidade; é um fator operacional que condiciona diretamente a eficácia militar e a legitimidade do esforço de guerra.
Desvio de Recursos Vitais
Num contexto em que cada euro de apoio externo e cada peça de equipamento militar podem determinar o resultado imediato no campo de batalha, o desvio de recursos representa uma ameaça direta à sobrevivência do Estado. Os escândalos recentes no setor energético e no setor da defesa, envolvendo altos responsáveis administrativos, não configuram meros episódios de má gestão; constituem verdadeiros atos de sabotagem interna, com impacto tangível na capacidade operacional das forças ucranianas. Em tempo de guerra, a corrupção deixa de ser uma distorção sistémica e torna-se um fator de vulnerabilidade estratégica.
Erosão da Confiança Interna
A persistência de práticas oligárquicas e de ostentação por parte de segmentos da elite política — simbolizada pelas imagens amplamente divulgadas de sacos de dinheiro escondidos em residências privadas ou de luxuosas retretes douradas — contrasta violentamente com a realidade quotidiana da população: apagões prolongados, racionamentos energéticos, destruição habitacional e mortes na frente de batalha. Esta discrepância entre elites e cidadãos aprofunda o fosso social e alimenta um cinismo corrosivo que fragiliza a resiliência nacional.
Além disso, este quadro fornece municiamento retórico à narrativa russa, segundo a qual Kiev seria governada por uma “classe oligárquica ilegítima”. Independentemente da força objetiva dessa narrativa, ela ganha tracção sempre que a percepção de desigualdade e impunidade interna se acentua. A coesão social — elemento crucial para a continuidade do esforço de guerra — fica assim comprometida.
FRANCISCO HENRIQUES DA SILVA
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Francisco Henriques da Silva é licenciado em História, diplomata e autor. Foi Director-geral de Assuntos Multilaterais no MNE e embaixador na Guiné-Bissau, Costa do Marfim, Índia, México e Hungria
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.
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