A medida do amor é amar sem medida.
Santo Agostinho . A Cidade de Deus
A Cidade do Natal é bem mais maravilhosa que o país da Alice, até porque dispensa a monarquia das Copas. Foi fundada na Palestina, mas é sempre Inverno e neva constantemente. Apesar disso, as pessoas, que são metade soldadinhos de chumbo, metade budas e estão sempre a apaixonar-se umas pelas outras, não carregam agasalhos, de tão quente que trazem o coração.
A cidade foi construída com peças de lego e guloseimas cristalizadas e não tem semáforos nem engarrafamentos, porque toda a gente anda de rena e as renas dão sempre prioridade ao cervídeo que se apresenta pela direita e não avariam no meio da avenida e não discutem com buzinas. Quem se perde, não precisa de gps: segue a estrela cadente. E como a urbe foi projectada de acordo com o desejo de asas de cada um, não há necessidade de construir um aeroporto no Montijo, ou em Beja ou no Kazaquistão.
A Cidade do Natal não gosta de mapas e não tem registo cartográfico, nem escala, nem topografia, nem comprimento, nem altura e tem oito dimensões, uma para cada sabor da gigantesca máquina de semi-frios instalada na Praça Central. A Cidade do Natal não gosta das leis de Newton, não reconhece os bigodes de Einstein e rejeita a entropia. Anda para a frente e para trás no tempo, ilumina-se sem consumir energia, movimenta-se sem vestígios de inércia.
O comércio prospera, já que o passatempo oficial é o de oferecer prendas que podem ser elefantes de Bombaim, foguetões da NASA, um exército de pinóquios, um concerto de Frank Sinatra ou uma viagem ao centro da Terra.
Na Cidade do Natal ainda não inventaram o Estado, e por isso as pessoas não precisam de pagar impostos para serem generosas umas com as outras.
Na Cidade do Natal as pessoas recorrem apenas à inteligência natural para tarefas mais complicadas e gratificantes, deixando a inteligência artificial para a desinfestação de esgotos, a manutenção de autoclismos e a limpeza de latrinas, que aliás são belas como tronos renascentistas.
Na Cidade do Natal, as famílias falam alto e soltam gargalhadas, os vizinhos trazem uma pinga danada, as cozinhas cheiram a fritos, o celofane machucado é feliz, espalhado pela alcatifa.
A Cidade do Natal vive na memória de um amor realizado ou na celebração de um dia de glória. É uma anarquia de coscorões, um paraíso de rebuçados, um presépio de chocolate, uma procissão de brinquedos, um disparate de confetes e foguetes; uma odisseia no comboio eléctrico da boa vontade.
É uma divertida, espalhafatosa, saborosa e enternecedora promessa de eternidade.
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