Afigura-se-me necessário analisar as contradições estruturais da política europeia face à guerra na Ucrânia, evidenciando o fosso entre a retórica normativa da União Europeia (UE) e a sua prática estratégica.

Argumenta-se que a UE, ao denunciar a Rússia pela violação do Direito Internacional, simultaneamente sustenta materialmente o esforço de guerra de ambas as partes, configurando uma incoerência política que compromete a credibilidade europeia e alimenta a perpetuação do conflito. A análise insere-se no quadro teórico da realpolitik, convocando a distinção clássica entre idealismo moral e pragmatismo estratégico.

À laia de introdução, saliento que a invasão russa da Ucrânia trouxe à superfície uma série de ambiguidades e inconsistências que há muito atravessam a política externa europeia. A UE reivindica para si a condição de actor normativo por excelência — defensor do Direito Internacional, dos direitos humanos e da ordem multilateral. No entanto, a sua actuação no presente conflito revela tensões profundas entre princípios declarados e comportamentos adoptados.

Pretendo brevemente analisar a mais evidente dessas tensões: a condenação pública da Rússia coexistindo com práticas económicas e diplomáticas que, directa ou indirectamente, contribuem para a continuação da guerra.

 

A Lógica Argumentativa da UE: Entre o Normativismo e o Pragmatismo Inconfessado

A posição oficial da UE assenta em duas afirmações fundamentais:

1. A Rússia violou flagrantemente o Direito Internacional através da invasão da Ucrânia.
2. A UE apoia a Ucrânia enquanto vítima dessa agressão.

Todavia, a coerência desta narrativa é minada por uma realidade dificilmente compatível com tais declarações: a Europa continua, directa ou indirectamente, a alimentar economicamente a máquina de guerra russa, especialmente através da aquisição de hidrocarbonetos — prática que representa, simultaneamente, uma dependência estrutural e uma contradição política.

Esta dinâmica produz o que vários analistas classificam como dupla face estratégica: condena-se Moscovo no plano discursivo, mas contribui-se para o financiamento do seu esforço militar no plano económico. O quadro anexo é bem explícito.

 

 

A Contradição Fundamental: Financiar Ambos os Lados do Conflito

Mais grave ainda é que essa incoerência duplica-se:

• A UE financia a Rússia, ao continuar a adquirir energia proveniente do seu território.
• A UE financia a Ucrânia, através de apoio orçamental, militar e logístico.

Esta situação, dificilmente justificável sob qualquer doutrina estratégica coerente, constitui uma forma de cinismo político que fragiliza a posição europeia — tanto perante os seus cidadãos como no cenário internacional.

O argumento segundo o qual estas medidas seriam inevitáveis ou “tecnicamente necessárias” revela-se insuficiente. Trata-se de um raciocínio especioso, que procura revestir de inevitabilidade aquilo que é, em grande medida, um impasse institucional e uma incapacidade de redefinir prioridades geopolíticas.

 

Implicações Geopolíticas e Éticas

A manutenção desta ambiguidade tem custos claros, a saber:

1. Credibilidade internacional deteriorada: a UE perde autoridade para criticar violações de normas quando, simultaneamente, alimenta economicamente o agressor.
2. Prolongamento do conflito: ao subsidiar ambos os lados, a Europa contribui, ainda que não intencionalmente, para a perpetuação da guerra.
3. Inconsistência estratégica: a ausência de uma visão clara sobre os objectivos finais conduz a políticas fragmentadas e contraditórias.

Não basta proclamar princípios; é necessário garantir que as práticas políticas lhes correspondam.

 

Em suma:

As contradições examinadas indicam que a política europeia em relação à guerra na Ucrânia encontra-se num limiar crítico entre idealismo retórico e pragmatismo mal assumido. É insuficiente, e intelectualmente insustentável, condenar a Rússia enquanto se mantém uma dependência energética que financia a mesma agressão. Igualmente inconsistente é apoiar a Ucrânia militar e financeiramente sem definir um horizonte político plausível para o fim do conflito.

A Europa precisa, com urgência, de clarificar prioridades, abandonar ambiguidades e assumir uma estratégia verdadeiramente coerente. Persistir neste duplo jogo — criticar e simultaneamente financiar — é um exercício de dissonância política que nenhum rigor académico, diplomático ou ético pode justificar.

 

 

FRANCISCO HENRIQUES DA SILVA
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Francisco Henriques da Silva é licenciado em História, diplomata e autor. Foi Director-geral de Assuntos Multilaterais no MNE e embaixador na Guiné-Bissau, Costa do Marfim, Índia, México e Hungria
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.