Num desenvolvimento não totalmente surpreendente, uma conversa telefónica que caiu no domínio público revelou que os líderes europeus consideram que Washington está a tentar “trair” o Presidente Zelensky ao tentar um acordo de paz que acabe com a guerra na Ucrânia.
O Presidente francês, Emmanuel Macron, expressou durante a conversa a sua opinião de que existe “um grande perigo” para Zelensky, acrescentando:
“Existe a possibilidade de os Estados Unidos abandonarem a Ucrânia em questões territoriais sem fornecer clareza sobre as garantias de segurança.”
No entanto, o gabinete de Macron procurou esclarecer posteriormente que “o presidente não usou essas palavras”.
A transcrição que foi divulgada da conversa entre os líderes europeus sobre as estratégias para proteger o governo de Zelensky e os interesses de Kiev, contrariando a agenda da Casa Branca, foi publicada na quinta-feira passada pela revista alemã Der Spiegel.
UKRAINE: Leaked call shows EU leaders fighting to block Trump’s peace talks. Merz, Macron, Stubb, and Rutte all pressured Zelensky to avoid any US brokered deal. Europe is 100% against peace because they want the war to drag on.
Der Spiegel obtained notes from a confidential… pic.twitter.com/PzADrFQXNj
— @amuse (@amuse) December 4, 2025
Na conversa participaram também, segundo consta, o ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Friedrich Merz, o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, o presidente finlandês, Alexander Stubb, e, claro, Zelensky.
Merz concordou, durante o diálogo, que Zelensky deveria ser “extremamente cauteloso nos próximos dias” e avisou o líder ucraniano de que “estão a brincar consigo e connosco”.
O presidente finlandês Stubb acrescentou:
“Não podemos deixar a Ucrânia e Volodymyr sozinhos com estes tipos.”
Depois, o secretário-geral da NATO, Rutte, concordou:
“Concordo com Alexander. Devemos proteger Volodymyr”.
O contexto desta parte da conversa é particularmente interessante, dado que parece centrar-se nos enviados de Trump, Steve Witkoff e Jared Kushner, que estiveram recentemente em Moscovo reunidos com Putin e estão a liderar os esforços para aprovar o plano de paz de 28 pontos de Trump (ou 19 pontos, com base em relatos de uma versão revista).
Seja como for, não deixa de ser cómico que o chefe civil da NATO esteja a conspirar contra a estratégia do presidente dos Estados Unidos, considerando que a existência da NATO se deve quase exclusivamente à América.
A revista Der Spiegel admite na sua reportagem que
“Estas e outras declarações reproduzidas nas notas da conversa ilustram a profunda desconfiança dos europeus em relação aos dois confidentes de Trump”.
Michael Weiss, um dos autores da reportagem, mostrou o seu rigor jornalístico e objectividade inatacável quando enquadrou tudo isto assim:
“Trata-se de combater as artimanhas sujas americanas para acabar com a guerra”.
Os esforços de Washington para alcançar rapidamente, se bem que atabalhoadamente, a paz, constituem uma espécie de batota imoral, à luz do pensamento de Weiss, que fica nitidamente horrorizado com a hipótese de alguém “acabar com a guerra”. É espantoso. A posição do “jornalista”, por si só, liberta a hipótese de que a fuga de informação tenha partido das próprias autoridades europeias.
Um aspecto relevante da conversa foi o consenso entre os líderes sobre a questão dos activos russos congelados detidos em bancos da UE, que consideram ser uma prerrogativa puramente europeia, no contexto de relatos recentes de que os EUA estão prontos para os devolver a Moscovo como parte de um acordo de paz finalizado com a Ucrânia.
O gabinete de Zelensky, por sua vez, não confirmou nem negou a veracidade da transcrição que foi divulgada. Um diplomata ucraniano, que preferiu não ser identificado, respondeu assim, quando questionado sobre o assunto:
“Em geral, apenas os russos beneficiam de qualquer divisão entre a Europa e os Estados Unidos, pelo que a nossa posição consistente é que a unidade transatlântica deve ser mantida.”
Mas a realidade é que Zelensky tem resistido constantemente à ideia de forjar a paz sem a supervisão e participação directa da Ucrânia, recusando em simultâneo e consistentemente concessões territoriais, e os seus apoiantes europeus também se têm oposto a esta parte fundamental do plano de Trump. O Kremlin insiste actualmente que o seu controlo sobre o Donbass e a Crimeia não só seja considerado factual e inegociável, como exige o pleno reconhecimento jurídico internacional de que estes territórios estão sob a jurisdição da Federação Russa.
Aliás e de qualquer forma, as tentativas da Casa Branca para alcançar um acordo de paz serão infrutíferas. Depois de dez meses de diplomacia errática da Casa Branca e de bem sucedidas operações de sabotagem a qualquer iniciativa de paz, por parte do aparelho globalista europeu, o conflito na Ucrânia vai resolver-se no terreno, com argumentos militares.
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