As crianças são especialistas em praticar a antecipação.
“Quando eu for grande”, dizem-nos, antes de se lançarem em sonhos elaborados e irrealistas para o futuro. “Quantos dias faltam para fazer 6 anos?”, perguntam, no dia seguinte a fazerem 5 anos. ‘Quantos dias faltam para o Natal?’, perguntam enquanto as casas se enfeitam com luzes e decorações natalícias e o armário da mãe e do pai se torna interdito.
Ainda bem que assim é. Afinal, o objectivo do Advento – as velas, a Árvore, o presépio, a música – é recordar a espera original de séculos pelo Messias.
A maioria de nós, adultos, distraídos com a compra de presentes, com o planeamento das refeições e com as festas de Natal antecipadas durante estas semanas, pode achar que precisa de uma pequena ajuda para entrar no espírito do Advento. Que melhor maneira de o fazer do que explorar algumas dos belos cânticos de Natal dedicadas a esta época? Aqui estão cinco de que talvez não tenha ouvido falar para o ajudar a entrar no espírito da época.
‘Adam Lay Ybounden’
Há algo de maravilhosamente comovente nas canções de Natal simples que recebemos como legado de outras eras. Com as suas grafias peculiares e tendências gramaticais abruptas, o anglo-saxónico “Adam Lay Ybounden” é um desses temas que provoca sempre arrepios.
O tema do hino é simples. Lembra aos ouvintes a transgressão original de Adão no Jardim do Éden, mas termina num tom optimista:
Adão está preso
Preso no seu pecado
Quatro mil invernos
Acreditou que não era muito tempoAbençoado seja o tempo
De quando a maçã foi tomada
Pois por isso cantamos
Graças ao SenhorSe a maçã nunca tivesse sido
Nunca tivesse sido tomada
Nossa Senhora nunca seria
A Rainha do Paraíso
Em apenas algumas linhas, o poeta inglês anónimo consegue captar a compreensão cristã da queda do homem. Sim, a queda de Adão mergulhou o mundo nas trevas durante séculos, mas se ele não tivesse cometido essa primeira transgressão, a abençoada história da salvação não poderia ter ocorrido.
Não haveria profetas, nem reis, nem manjedoura, nem anjos a deslumbrar os olhos de simples pastores naquela noite de Belém. O mundo não teria precisado de um Redentor, e Deus não se tornaria homem na carne de Cristo. Como diz um texto cristão da Páscoa: “Oh feliz culpa que nos mereceu um Salvador assim”.
‘Ó Salvador, rasga os céus’
Por alguma razão, os cânticos de Advento alemães estão entre os mais belos. O hábito luterano de pegar em passagens bíblicas e traduzi-las livremente para alemão antes de as musicar presta-se bem à criação de hinos pungentes que captam eficazmente o espírito da época.
No caso de “Ó Salvador, rasga os céus;”, o autor parece ter-se inspirado no também belo cântico católico de Advento “Rorate Coeli” (tirado de Isaias 48:5). Esse texto diz:
“Que o orvalho caia dos céus, que as nuvens façam chover a justiça; que a terra se abra e dê à luz um Salvador”.
O hino alemão do século XVII parafraseia livremente esse texto original:
Ó Salvador, rasga os céus;
Desce, desce com passo poderoso;
Destranca os portões, as portas arrombadas;
Abre o caminho para a coroa do céu.
Há algo de surpreendentemente violento na ideia do nosso Salvador a rasgar (ou, em algumas traduções, a “abrir”) os céus e a derrubar os portões fechados pela queda de Adão – uma violência que quase parece inapropriada, dado que nos estamos a preparar para a vinda do Príncipe da Paz.
É, no entanto, apropriada, tendo em conta que esta altura do ano não se trata apenas de preparar uma grande festa, mas também de recordar a promessa de Cristo de que voltaria em glória para julgar o mundo.
“Vem o Salvador das Nações”
“Vem o Salvador das Nações” é mais um cântico popular alemão inspirado nos antigos hinos latinos do Advento. É uma versão vernacular de Veni Redemptor Omnium, alegadamente escrita por Ambrósio de Milão no século IV, o que faz dela uma das mais antigas canções de Advento que temos. Martinho Lutero é responsável pela versão alemã, “Nun Komm der Heiden Heiland”.
Tal como o hino original em latim, “Vem o Salvador das Nações” consegue abranger tanto o Advento como o Natal. Começa por se maravilhar com o facto de Deus ter escolhido entrar no mundo através do ventre de uma virgem. Depois, como se o autor estivesse impaciente por partilhar connosco a inevitável boa nova, exclama: “Maravilhoso nascimento, oh maravilhosa criança”, e mais tarde reza:
“Agora a tua humilde manjedoura brilha/ Santifica a noite com luz recém-nascida”.
“Amanhã será o dia da minha dança”
Como muitas canções de Natal inglesas, ninguém sabe exactamente quem escreveu “Tomorrow Shall Be My Dancing Day”, embora a maioria das pessoas concorde que é mais antiga do que o hinário do século XIX onde apareceu pela primeira vez. Uma teoria popular (que vem do texto) é que nos chegou das peças de mistério medievais, que teriam sido apresentadas nas praças das cidades nas semanas que antecederam a festa de Natal.
O Cântico é único, na medida em que é uma narração da vida de Cristo na Sua perspectiva. Enquanto a maioria dos coros não costuma cantar mais do que os versos dedicados especificamente ao mistério da encarnação, o tema percorre o baptismo no Jordão, a paixão, a ressurreição de Cristo e termina com a sua ascensão ao céu.
Talvez inspirado no “Cântico dos Cânticos” ou em místicos como Teresa de Ávila ou Thomas de Kempis, a canção enquadra a história da salvação como um longo namoro do amado pelo Divino Amante.
Amanhã será o dia da minha dança;
Quem me dera que o meu verdadeiro amor tivesse essa oportunidade
Para ver a lenda da minha peça, Para chamar o meu amor verdadeiro para a minha dança;
Canta, oh! meu amor, oh! meu amor, meu amor, meu amor,
isto fiz eu para o meu verdadeiro amor.
“Veni, Veni Emmanuel”
Nenhuma lista de cânticos de Advento estaria completa sem “Veni, Veni Emmanuel”.
O texto deste amado hino é vagamente baseado numa colecção de cânticos entoados durante o Ofício Divino nos dias que antecedem o Natal, que começa a 17 de dezembro. Conhecidas como as “Antífonas do Ó”, estas meditações antigas destinam-se a preparar-nos para a festa iminente.
Ó vem, ó vem, Emanuel,
E resgata o Israel cativo
Que aqui chora no exílio solitário
Até que o Filho de Deus apareça.
Alegrai-vos! Alegrai-vos! Emanuel
Virá a ti, ó Israel.
A melodia assombrosa vem de um missal francês do século XV e destinava-se originalmente a ser utilizada durante as procissões fúnebres (com um texto diferente, claro). Embora seja provavelmente apenas um acidente da história o facto de esta melodia e o texto terem sido combinados, há algo de apropriado no facto de um mundo envolto em morte e escuridão clamar pelo Messias que vem com uma melodia funerária.
É ainda mais apropriado quando se considera que, para que o Messias cumprisse a sua missão salvífica, teve de descer ao túmulo. Mesmo antes de o Divino Menino nascer, começamos a chorar a Sua morte à volta das nossas mesas de jantar, enquanto acendemos velas na ansiosa expectativa daquela noite gloriosa em Belém.
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