Alguns candidatos às presidenciais nem sequer conseguiram reunir as assinaturas necessárias e desapareceram discretamente do debate público — e a comunicação social nem um rodapé lhes dedicou. Já outros, que também não apresentaram as assinaturas, mas pertencem a micro-partidos da extrema-esquerda com expressão eleitoral quase irrelevante, aparecem milagrosamente promovidos a “candidatos de prime time”.
É caso para perguntar: qual é o critério — além da simpatia ideológica?
Porque é que uns são varridos para debaixo do tapete e outros, sem cumprirem o mínimo exigido pela lei, são elevados a estrelas de estúdio?
A resposta não é complicada: o país afundou-se num ecossistema mediático que faz lembrar uma mistura de máquina partidária e agência de propaganda. Os mesmos de sempre decidem quem deve ser ouvido, quem deve ser silenciado e que narrativas o público deve engolir — tudo embrulhado em discursos sobre “pluralismo” que já ninguém leva a sério.
A bandalheira está à vista: a televisão transformada em curadoria ideológica, os comentadores alinhados a fingir imparcialidade, e uma esquerda radical que, apesar de não conseguir reunir assinaturas suficientes, já conseguiu reunir aquilo que realmente importa neste país — tempo de antena gratuito e ilimitado.
E depois ainda perguntam porque é que as pessoas desconfiam da comunicação social. Talvez porque já toda a gente percebeu que os debates não resultam de qualquer regra democrática, mas sim do gosto momentâneo dos directores de informação — que tratam o eleitorado como um público infantil a quem se pode servir o menu político do dia, devidamente temperado.
O país merecia transparência. Em vez disso, tem este circo. E ainda querem que batamos palmas.
FRANCISCO HENRIQUES DA SILVA
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Francisco Henriques da Silva é licenciado em História, diplomata e autor. Foi Director-geral de Assuntos Multilaterais no MNE e embaixador na Guiné-Bissau, Costa do Marfim, Índia, México e Hungria
As opiniões do autor não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.
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