
“Porque é que há alguma coisa em vez de não haver coisa alguma?”
Gottfried Wilhelm Leibniz
“Gostava de saber o que é pior, ser violado cem vezes por piratas negros, ter uma nádega decepada, sofrer o chicote dos búlgaros, ser açoitado num auto-de-fé, ser esquartejado, remar numa galera, enfim, suportar todas as misérias pelas quais passámos, ou ficar aqui sem fazer nada?
Voltaire . “Cândido” . Capítulo 30 . (tradução livre)
“Candide, ou l’Optimisme” é um conto filosófico em tom jocoso publicado pela primeira vez em 1759 por Voltaire. Foi traduzido em centenas de línguas e, em português, o seu título costuma ser “Cândido ou o Otimismo” ou simplesmente “Cândido”. Reza a lenda que a obra foi escrita em três dias, quando Voltaire ainda estava impressionado com o terremoto de Lisboa, e publicada sob a assinatura de um pseudónimo, “Monsieur le docteur Ralph”, literalmente, “Senhor Doutor Ralph”.

Escrita como manifesto contra a filosofia de Leibniz, que contagiou o pensamento racionalista da época com a ideia de que o homem vivia no melhor dos mundos graças à constante providência divina, esta breve odisseia tenta demonstrar, com satírica eloquência, que o mundo do século XVIII seria tudo menos isso.
Para tal, o herético iluminista coloca com alegria e espírito o seu infeliz herói na roda vertiginosa das calamidades terrenas. Cândido é um ingénuo e bem intencionado adolescente alemão, bastardo de nascimento mas mesmo assim educado nos princípios da Razão Suficiente pelo seu mestre Pangloss, que por razão de saias é escorraçado da casa nobre onde fora até então tolerado e afilhado.
Será a partir daí cruelmente submetido à dura realidade dos factos: atirado à soldadesca búlgara recebe mil vergastadas, depositado por uma tempestade em Lisboa, desembarca em pleno terramoto de 1755, nos escombros do qual quase acaba por perecer, por mãos da Santa Inquisição. Recupera e parte para América do Sul para ganhar o soldo a matar franciscanos e finalmente encontra o El-Dorado, só para que lhe seja espoliado o seu lugar no paraíso.
Entrementes, como bom cristão e esgrimista, vai enviando para o inferno um punhado de infelizes, entre os quais um bispo em Lisboa e um Padre no Paraguai. Assim sucessivamente, Cândido mergulha na efervescência das guerras furiosas, das pestes vorazes, das fomes e das misérias, do caos e da loucura.
Quando a sua viagem termina percebe enfim que Leibniz estava enganado. A não ser, claro, que estivesse certo. Mas nesse caso, e se este é verdadeiramente o resultado de uma preocupada e hiperactiva providência, que diabo, não poderia Deus fazer um melhor trabalho?
Como quase sempre e apesar da sua fama de prodígio intelectual, a análise crítica de Voltaire não consegue passar para além da superfície política e social da realidade. O facto do mal existir e do caos triunfar ocasionalmente, não anula de todo a virtude da providência divina, nem o carácter omnisciente de um hipotético acto de criação.
Na verdade, ciências exactas contemporâneas como a física e a biologia dão mais razão a Leibniz do que a François-Marie Arouet, o enfant terrible do iluminismo que ficou para a posteridade como Voltaire: parece que este universo está de facto rigorosamente afinado para ser assim e não de outra maneira; parece que foi cuidadosamente programado para gerar romancistas e filósofos e cândidos de toda a espécie. Parece que uma qualquer e quântica alteração nas equações que sustentam o firmamento e estabilizam o tecido do espaço-tempo implicaria um outro cosmos, completamente diferente deste. Parece que vivemos, de facto, no melhor dos mundos possíveis, já que as leis que o governam, se fossem apenas ligeiramente diferentes, o impossibilitariam de todo.
E, aprofundando a questão teológica, a presença do mal absoluto não invalida a imanência do bem absoluto, pelo contrário: o mais elementar exercício lógico consegue demonstrar que uma variável valida necessariamente a outra.
Apesar da sua prosápia, Voltaire não estava a ver bem o filme. E não precisava de submeter Cândido a inúmeras desventuras e incontáveis suplícios, só para acabar a sua viagem ainda mais ignorante do que quando a iniciou.
Relacionados
7 Jul 26
Tucídides e a Realpolitik.
A Universidade de Michael Sugrue #02: uma prelecção sobre o iniciático realismo de Tucídides, na "História da Guerra do Peloponeso".
6 Jun 26
A rainha das teorias da conspiração: Será Francis Bacon o verdadeiro autor da obra de Shakespeare?
A questão da autoria da obra de William Shakespeare tem intrigado estudiosos durante os últimos três séculos. E a tese de que terá sido Sir Francis Bacon o autor do legado primeiro da literatura de língua inglesa tem sólidos argumentos a seu favor. Um ensaio que os sistematiza.
8 Mar 26
Lobo Antunes morreu, mas vive no espelho da alma do país que deixou.
Com a morte de António Lobo Antunes, Portugal perde mais do que um escritor. Portugal perde o seu mais arguto intérprete. E a sua obra permanece como um aviso: a memória não se apaga e recalcamento não é solução. Uma elegia de António Justo.
16 Fev 26
Os Nus e os Mortos, de Norman Mailer: a desumanidade e a vulnerabilidade do homem-soldado.
Biblioteca do Contra: retrato graficamente contundente e perturbador da situação do homem comum quando submetido aos rigores do combate militar, este é o romance que pôs a América a pensar duas vezes sobre o entusiasmo com que entregava os seus filhos aos horrores da guerra.
7 Fev 26
Antes e depois da Ilíada:
a tragédia de Agamemnon
A figura mítica de Agamemnon chegou até nós principalmente através da tradição homérica. Mas para além da epopeia, há uma tragédia inerente ao Rei dos Aqueus, que o liberta da condição de vilão unidimensional e que explica muito do seu comportamento na Guerra de Troia.
14 Nov 25
“Romance”, de Hélder Macedo: poesia para redimir amantes.
Poetas clandestinos da Literatura Portuguesa: “Romance” é um poema complexo, cifrado pela erudição e pela ambição lírica de Hélder Macedo. Uma cantiga de amigo de longa duração, que parece ter sido escrita pela salvação de um amor perdido.





