Por uma vez, a revista britânica The Economist publicou um artigo assertivo. Na sua mais recente coluna de opinião, James Bennet defende que a queda vertiginosa da popularidade do presidente Donald J. Trump decorre do facto de este ter caído na mesma armadilha que prendeu o seu antecessor, Joe Biden, ao demonstrar insensibilidade em relação às realidades económicas enfrentadas pelo americano médio.

O editor sénior da publicação corporativa afirma que, embora o presidente Trump “tenha maior força como comunicador”, está a perder rapidamente a sua base política e é provável que enfrente um Congresso cada vez mais independente à medida que o seu último mandato entra no segundo ano.

Bennet, num inédito exercício de lucidez, escreve:

“O erro mútuo mais óbvio, como já foi amplamente observado, é a negação da inflação. O Sr. Biden chamou-lhe temporária. Embora o Sr. Trump tenha experimentado em Abril duras verdades sobre as tarifas, dizendo que as crianças devem contentar-se ‘com duas bonecas em vez de 30’, ele geralmente insiste que as tarifas não causam inflação, e que, na verdade, ele derrotou a inflação, os preços estão a cair e ‘temos a melhor economia que já tivemos’. Esta fanfarronice trumpiana costuma resultar. Mas, neste caso, as suas mentiras são desmentidas no quotidiano dos americanos e pelos esforços cada vez mais frenéticos do seu governo para reduzir os preços, incluindo o cancelamento de tarifas.”

Convenhamos, é preciso que um presidente norte-americano seja muito errático e alucinado para que a Economist publique um parágrafo acertado.

Embora um estudo recente do Banco da Reserva Federal de São Francisco tenha alegadamente demonstrado que as tarifas não são inflacionárias, os preços continuam elevados, especialmente o custo da alimentação e da habitação. O último relatório do Índice de Preços no Consumidor (IPC) mostra que os preços da carne de bovino aumentaram quase 15%, enquanto os preços do café subiram 20% e o custo da banana aumentou 7%.

A Casa Branca de Trump parece porém mais preocupada com o aventureirismo na política externa e pode perder a oportunidade, antes das eleições intercalares de 2026, de mudar o foco para a política interna, especialmente em questões económicas que afectam a vida de centenas de milhões de americanos. Ainda mais preocupantes para o infeliz presidente dos EUA são os novos dados que mostram uma desaceleração da produção industrial em Novembro, sobretudo devido aos elevados preços que exercem pressão negativa sobre a procura.

Bennet observa ainda que um sondagem do The Economist mostra que

“a aprovação líquida do Presidente Trump em relação à inflação e aos preços é de 33 pontos negativos”.

Mas não é só em relação à economia que a apreciação que os americanos fazem da actual administração é negativa, como demonstra esta sondagem do RealClearPolitics.

 

 

E também não é só em relação à inflação que o regime Trump está cada vez mais parecido com o regime Biden. O secretismo do governo federal sobre a corrupção das elites e o seu horror à verdade, as falsidades constantes sobre o exercício do poder, a desastrada política externa, de inspiração imperialista e completamente alienada da realidade, a cumplicidade com os crimes cometidos pelos israelitas em Gaza e a influência desmesurada dos interesses sionistas nas decisões políticas em Washington, a tendência imparável para alimentar o complexo industrial-militar com guerras perpétuas, o compadrio corporativo com a big-pharma e o eixo Wall Street/Silicon Valley,  o despesismo obsceno da máquina do Estado, a hubris de uma potência que não convive bem com as suas fragilidades e não consegue entender o mundo multipolar que, ironicamente e por responsabilidade própria, ajudou a criar, são variáveis partilhadas por ambas as administrações.

Até ao ponto que começa a ser difícil perceber as diferenças.

Não admira portanto que as faixas etárias mais jovens, em grande parte responsáveis pela reeleição do actual presidente, estejam descontentes: