
O caso Epstein tornou-se, na última década, sinónimo de abuso de poder, manipulação e impunidade. Mas a insistência em tratá-lo como um fenómeno isolado, quase uma aberração individual, obscurece a genealogia estrutural que o antecede. Antes de Epstein existir como figura pública, existia Robert Maxwell. Antes do escândalo, existia um sistema. É nessa continuidade que a história ganha profundidade.
Robert Maxwell tornou-se um dos maiores proprietários de media do Ocidente, mas o seu papel ultrapassava largamente o empresarial. Funcionou como interlocutor político, mediador entre capitais rivais e colaborador de diferentes serviços de inteligência. Essa combinação de funções deu-lhe um estatuto peculiar: não integrava qualquer aparelho de Estado, mas era recebido como se o fizesse. A facilidade com que se movimentava entre Washington, Moscovo, Londres e Jerusalém ajuda a compreender a influência que detinha.

A 5 de Novembro de 1991, Maxwell desapareceu do seu iate, o Lady Ghislaine. Foi encontrado morto horas depois. A versão oficial, acidente, sempre conviveu com dúvidas. Maxwell estava sob investigação por fraude, acumulava dívidas significativas, enfrentava pressão de bancos internacionais e, alegadamente, detinha documentos sensíveis. A situação tornou-se mais opaca quando agentes israelitas entraram no iate para recolher material não identificado, antes mesmo de concluídas as formalidades legais. A intervenção não foi explicada e não gerou qualquer relatório público.
Maxwell foi sepultado em Jerusalém, no Monte das Oliveiras, um local habitualmente reservado a figuras de relevância histórica. Para um empresário britânico, a escolha já seria invulgar; a lista de presenças tornou-a ainda mais significativa. O funeral contou com Yitzhak Shamir, Shimon Peres, Yitzhak Rabin e várias figuras de topo dos sectores militar e de inteligência. Nas intervenções públicas, Shamir afirmou que Maxwell serviu Israel de formas que não podem ser descritas, e Peres referiu que a sua contribuição nunca seria esquecida. A dimensão da homenagem sugere um papel que excedia o empresarial e confirma a perceção existente nos bastidores de que Maxwell funcionava como activo de Estado.

Com a morte de Robert Maxwell, Ghislaine perdeu o império empresarial, mas manteve algo mais relevante: a rede de relações construída ao longo de décadas. Herdou capital social, contactos políticos, diplomáticos e mediáticos, legitimidade em círculos restritos e conhecimento sobre o funcionamento dessas estruturas. Foi durante esse período de reconfiguração da esfera Maxwell, após a ausência do seu principal operador, que Jeffrey Epstein entrou na sua vida. A coincidência temporal é discutível; o padrão estrutural, menos.
Se Maxwell ajuda a compreender o acesso social de Epstein, Leslie Wexner explica a base financeira da sua ascensão. Fundador da L Brands e um dos bilionários mais influentes dos Estados Unidos, Wexner era conhecido pela reserva, pelo controlo rigoroso das suas empresas e pela relutância em delegar decisões estratégicas. É por isso particularmente difícil de explicar a confiança que depositou em Jeffrey Epstein, um homem sem licenciatura concluída, sem certificações financeiras, sem histórico de operações complexas no sector e cujo percurso profissional incluía uma passagem breve por um banco de investimento e um emprego como professor substituto. Nada no currículo de Epstein o qualificava para gerir fortunas pessoais de um bilionário. Ainda assim, Wexner concedeu-lhe poderes extraordinariamente amplos: uma procuração que lhe permitia movimentar contas e património, autoridade fiduciária invulgar no universo dos grandes investidores e a administração de propriedades pessoais, incluindo a mansão de Manhattan. A ausência de explicações convincentes para esta delegação, aliada ao perfil reservado de Wexner, continua a alimentar dúvidas consistentes. O ponto essencial, no entanto, é claro: sem Wexner, Epstein dificilmente teria adquirido a posição financeira e a credibilidade pública que exibiu durante anos.

No conjunto, os elementos permitem identificar uma sequência coerente. Maxwell estabeleceu o modelo de operação e abriu portas para o universo das elites internacionais. A sua morte deixou uma rede sem operador; Ghislaine preservou o acesso e a legitimidade social dessa estrutura. Epstein tornou-se o beneficiário funcional desse legado, enquanto Wexner lhe garantiu a plataforma financeira que transformou utilidade em poder. Nada disto reduz a responsabilidade pelos crimes de Epstein, mas ajuda a explicar porque conseguiu atuar durante tanto tempo e com tanto alcance. Epstein não surgiu no vazio: foi a continuação, imperfeita e oportunista, de um sistema que o antecedia.
A análise habitual do caso Epstein privilegia o escândalo imediato e ignora o sistema que o antecedeu. A morte de Robert Maxwell não marcou um desfecho; inaugurou uma nova configuração numa rede que continuou activa. Os contactos, a influência e a estrutura que Maxwell consolidou fornecem o contexto necessário para compreender a amplitude e a duração com que Epstein operou. Para explicar o caso, é essencial regressar ao início. E esse início passa inevitavelmente por Robert Maxwell.
SILVANA LAGOAS
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Silvana Lagoas é mãe a tempo inteiro, autodidata, livre pensadora.
As opiniões da autora não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.
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