A revelação chocante no conjunto de 20.000 e-mails do sórdido mundo de Jeffrey Epstein que caíram no domínio público não é a de que estavam a ser cometidos crimes. É algo mais sinistro. As mensagens são perturbadoras porque o que revelam — e, na verdade, comprovam — é que os teóricos da conspiração têm razão. Que as suas teorias de corrupção total nas altas esferas onde reside o poder são válidas. Que a conspiração de interesses políticos e financeiros, aliada à perversão sexual, retratada no filme de Stanley Kubrick de 1999, “De Olhos Bem Fechados”, não é, na verdade, ficção. É a realidade.

Os comissários do regime, que se auto-intitulam “jornalistas”, fazem o que podem para tentar desqualificar as teorias da conspiração que circulam abundantemente sobre este assunto, argumentando que dirigentes políticos, altos quadros corporativos, magnatas da tecnologia e académicos de topo não são tão corruptos como isso e que a perversão é a excepção e não a norma.

Acontece que os e-mails de Epstein sugerem o contrário. Sugerem que, na verdade, existe um código generalizado entre as pessoas com poder e dinheiro que se apoiam mutuamente. São amigos, independentemente da posição política. Estão no clube, independentemente dos pecados dos seus membros — transgressões que são contextualizadas, justificadas, “compreendidas”.

Deixemos de lado, por momentos, o envolvimento de Donald Trump em tudo isto, apesar do seu nome aparecer mais de 1.600 vezes nos ditos e-mails, de acordo com uma análise do Wall Street Journal, e de todos sabemos o quanto lutou (e luta) para impedir a divulgação dos ficheiros retidos no Departamento de Justiça.

A rede vai além do Presidente dos Estados Unidos. Os contactos de e-mail de Epstein abrangem todo o espectro político e transitam pelos sectores empresarial, mediático, tecnológico, académico e social, desde o ex-presidente de Harvard e ex-Secretário do Tesouro dos EUA, Larry Summers, à ex-conselheira democrata da Casa Branca, Kathy Ruemmler. Do líder populista do MAGA, Steve Bannon, aos primeiros-ministros do Norte da Europa e aos dignitários do petróleo do Golfo.

Entre o acervo de comunicações, há conversas amistosas com o guru da saúde New Age, Deepak Chopra, e a assessora de imprensa nova-iorquina Peggy Siegel, com os jornalistas  Landon Thomas Jr. e Michael Wolff – e com a professora de literatura e poetisa de Harvard, Elisa Lew, a quem Epstein doou 500 mil dólares para o seu projecto televisivo, “Poesia na América”.

Num e-mail, ela recomendou-lhe que lesse “Lolita”, de Nabokov, “um homem cuja vida inteira é marcada para sempre pela impressão que teve de uma jovem rapariga”.

As mensagens incluem conversas em tempo real com a congressista das Ilhas Virgens Americanas, Stacey Plaskett, enquanto esta solicitava o testemunho público do ex-advogado de Trump, Michael Cohen, em directo na C-SPAN.

“Óptima indumentária”, escreveu-lhe durante a audiência de 2019, aconselhando mais tarde: “Cohen mencionou RONA — guardiã dos segredos”, referindo-se a Rhona Graff, a assistente executiva de longa data de Trump, antes de a encorajar a perguntar sobre outros “capangas” da organização Trump.

A manipulação da vida política americana, em tempo real, por um pedófilo condenado, está para além de ser escandalosa.

Na altura em que estes e-mails estavam a ser trocados, Epstein já se tinha declarado culpado de aliciar uma rapariga menor de 18 anos para prostituição e sido condenado a 18 meses de prisão (cumprindo apenas parte da pena). Isto foi em 2008. Na década de 2010, estava de volta ao activo, com convites para jantares, voos no seu jacto privado na companhia de grandes figuras da vida pública e política do Ocidente, que contavam assiduamente com o seu conselho e orientação.

Em Março de 2019, Summers queixou-se a Epstein que uma mulher tinha “desmarcado” um plano de fim de semana e queixou-se de “ser o amigo sem benefícios”.

Epstein respondeu com o seu melhor conselho amoroso:

“Ela é inteligente… fazendo-te pagar por erros passados… reagiu bem… ficar irritada demonstra preocupação… não se queixar demonstra força.”

Apenas alguns meses após esta troca de mensagens, Epstein foi novamente detido, desta vez por agentes federais, sob acusações de tráfico sexual. A rusga à sua casa em Manhattan revelou na altura provas de tráfico sexual e “centenas — e talvez milhares — de fotografias sexualmente sugestivas de mulheres totalmente — ou parcialmente — nuas”, de acordo com a acusação. Num cofre trancado, encontravam-se CDs com etiquetas escritas à mão: “Jovem [Nome] + [Nome]”, “Nus diversos 1” e “Fotos de raparigas nuas”.

As actividades nefastas e os crimes horrendos do traficante de menores não importavam realmente para os seus amigos e clientes. Jes Staley, o alto quadro da JP Morgan, contava com a sua rede de contactos para aceder às mais destacadas figuras dos centros de poder no Ocidente e concretizar negócios chorudos, muito tempo depois de todos saberem que Epstein era na verdade um tenebroso pedófilo.

“Tantas pessoas tentaram insinuar-se junto dele”, observou Julie K. Brown, a intrépida jornalista do Miami Herald que primeiro expôs os crimes de Epstein e continuou a investigar a história incansavelmente durante muito tempo depois.

Perguntada se achava que os e-mails davam razão aos que acreditam em teorias da conspiração como a do Pizzagate (em que Hillary Clinton foi acusada de participar numa rede de pedofilia), Brown afirmou:

“O que quer dizer com conspiração? Maxwell e Epstein — isso foi uma conspiração. E é exactamente assim que devem ser vistos. Ele safou-se. E o nosso sistema de justiça criminal está falido. As pessoas com dinheiro e poder safam-se de crimes. Isto é um facto. O acervo de e-mails mostra que as pessoas estão dispostas a ignorar até o pior crime se acharem que, de alguma forma, vão beneficiar. É o que chamam de pântano”.

O pântano é especificamente o que Donald Trump prometeu limpar. Mas ele e Epstein são o pântano. Já conhecíamos o envolvimento de figuras como Bill Gates, Bill Clinton e o ex-príncipe Andrew. Mas estes e-mails sugerem um grupo muito maior de elites que consideravam Epstein uma companhia agradável e um homem influente e sábio, cujos conselhos convinha acatar.

Lembram-se da cena em “De Olhos Bem Fechados” quando Tom Cruise entre naquela estranha mansão que albergava orgias e comportamentos bizarros de gente mascarada? Podemos honestamente argumentar que a Ilha de Epstein era exactamente isso. A rede do Estado profundo no seu ritual luciferino.

Esta é a antítese da democracia. E do comportamento moral que aqueles em quem depositamos capital político devem assumir.

E talvez seja conveniente, neste momento da história, ouvir as vítimas de Epstein e do seu clube de elites: