Donald Trump, no fundo da sua característica inconsciência de tudo, teve um ataque de lucidez na semana passada, e deu sinais de perceber enfim que a Ucrânia nunca vai ganhar a guerra, ordenando a Witkoff que chegasse a um acordo de paz a qualquer custo, sobre o fogo do inferno ou as enchentes do dilúvio, para não ficar mal na fotografia, quando o regime Zelensky cair de podre e os russos começarem a entrar no coração do território ucraniano como uma faca aquecida sobre um pacote de manteiga.
De facto, a Ucrânia enfrentou durante uns dias forte pressão da administração Trump para aceitar uma proposta de paz abrangente a curto prazo, sob a ameaça de perder a partilha de informações de inteligência e o apoio militar dos EUA, caso se recusasse. O plano, apresentado pelo Secretário do Exército, Dan Driscoll, ao Presidente Volodymyr Zelensky, exigia que a Ucrânia cedesse o controlo da região leste do Donbas e congelasse as actuais linhas da frente em duas regiões do Sul, com a Rússia a retirar-se das suas posições mais a norte do território ucraniano.
De acordo com a proposta, a Ucrânia seria impedida de aderir à NATO, teria de limitar as suas forças armadas a 600.000 soldados e dissolver quaisquer brigadas internacionais. As tropas da NATO não teriam permissão para entrar em solo ucraniano, e Kiev seria obrigada a devolver mísseis de longo alcance capazes de atingir Moscovo, embora recebesse algumas garantias de segurança ocidentais. A Rússia seria readmitida ao G8, revertendo a sua exclusão desde a anexação da Crimeia (readmissão que Putin já disse não ser de interesse para Moscovo), mas seria obrigada a legislar uma política de não agressão em relação à Ucrânia e à União Europeia, com a devolução de alguns dos seus bens congelados no Ocidente (outros ficariam, sabe-se lá em nome de quê, ao cuidado do governo federal americano).
Nesta fase, Moscovo até mostrou algum interesse no plano, embora um porta-voz do Kremlin tenha afirmado que “não há nada de novo para além do que foi discutido em Anchorage”.
Mas logo depois, o próprio Donald Trump afirmou que os ucranianos não eram obrigados a aprovar plano nenhum e que podiam continuar a travar a sua guerra de estimação à vontade. E durante os primeiros dias desta semana, todo este contexto ruiu porque Marco Rubio decidiu levar o plano de paz à consideração de europeus e ucranianos, em Genebra. Acto contínuo, saiu de lá com uma coisa completamente diferente, que o Kremlin não vai aceitar nunca.
Ontem era assim, agora é assado, amanhã será cozido. Conclusão: a guerra vai continuar e serão os russos, unilateralmente e quando decidirem que a operação militar atingiu os seus objectivos, que lhe darão um fim.
Que não deve estar muito longe, considerando o que se passa no terreno, onde as forças militares ucranianas começam a dar sinais de colapaso sistémico.
Alexander Mercouris comenta o descalabro.
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