No dia 18 de novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master. No dia anterior, 17 de novembro, Daniel Vorcaro, dono do banco, foi preso no aeroporto de Guarulhos quando tentava deixar o país. Em menos de 24 horas, um banqueiro cai, um banco fecha e um dos maiores escândalos financeiros recentes vem finalmente à tona.

As investigações da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e do Banco Central revelam que o Master sustentava parte das suas operações em ficção contabilística: cerca de 12,2 mil milhões de reais em carteiras de crédito inexistentes, empresas de fachada criadas para simular operações, manobras para mascarar prejuízos, captações agressivas com juros muito acima do mercado. O BRB transferiu 16,7 mil milhões ao Master para compra de carteiras agora sob suspeita e a Operação Compliance Zero apreendeu 230 milhões em bens de luxo, incluindo um jato. É um colosso de papel, construído num vazio de fiscalização e de confiança pública.

A parte financeira já seria suficiente para um escândalo. Mas o caso Master veio acompanhado de relações que aumentam o desconforto. O Banco Master contratou o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, onde trabalha Viviane Barci, esposa de um ministro do STF. Não há transparência sobre valores, processos ou objecto do contrato. Em abril de 2024, o Master financiou discretamente o 1.º Fórum Jurídico Brasil de Ideias, em Londres, com presença de ministros do STF e STJ, o banco pagou ou ajudou a pagar a palestra de Tony Blair e pediu para não aparecer como patrocinador. Nada disto é ilegal no papel, mas é legítimo perguntar porque razão um banco sob investigação precisava de tanta discrição e tanta proximidade ao topo do sistema judicial.

Enquanto o público tenta interiorizar mais um esquema de milhares de milhões, relações sensíveis com magistrados e um buraco financeiro colossal, eis que surge a caricatura perfeita. Depois de assistir a vários tutoriais de TikTok, Bolsonaro resolve tentar o método artesanal e aproximar um ferro de soldar da tornozeleira eletrónica. É piada, claro, mas no Brasil poderia muito bem ser factual. Timming perfeito ou pura coincidência? Nunca saberemos. Contudo, já dizia Sherlock Holmes:

“Quando eliminamos o impossível, o que resta, por mais improvável que pareça, deve ser a verdade.”

De um lado, um banco que movimentou milhões com carteiras fictícias, financiou eventos discretos com magistrados e contratou o escritório da esposa de um ministro. Do outro, um ex-presidente a tentar derreter uma tornozeleira como quem tenta abrir um frasco de vidro demasiado apertado. O escândalo estrutural e a farsa improvisada. A corrupção sofisticada e o ridículo artesanal. Tudo a acontecer em simultâneo, como naqueles filmes que despejam toda a trama nos primeiros dez minutos, não vá o público desistir pela complexidade.

O Brasil parece existir através da dramaturgia de Aguinaldo Silva. Tudo acontece em excesso, tudo chega antes da hora, tudo se mistura como se a realidade tivesse aderido ao folhetim: o escândalo bilionário no núcleo duro do poder e, em paralelo, a caricatura perfeita que capta as atenções do público. Nada se encerra, nada se clarifica, porque cada trama é atropelada pela seguinte, como se a própria história tivesse pressa de mudar de assunto. E nós, espectadores cansados, seguimos a tentar decifrar um país que muda de capítulo antes de sabermos quem eram as personagens do anterior.

 

 

SILVANA LAGOAS
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Silvana Lagoas é mãe a tempo inteiro, autodidata, livre pensadora.
As opiniões da autora não reflectem necessariamente a posição do ContraCultura.